A criança que mora em nós

ARTIGOS - 09:59:16

 

               Comércio muito barulhento, propagandas na televisão e nas rádios, outdoors por todo lado,  agenda especial nas escolas; tudo isso nos lembra de que o dia da criança está chegando.

               No Facebook, uma onda de nostalgia invade a telinha de onde saem crianças com roupas antigas, muitas em fotos em preto e branco feitas em estúdios. Gosto disso. É como se visitássemos o passado; aquelas crianças sorrindo, felizes, fazem-nos acreditar que éramos amados e que não tínhamos qualquer tipo de problema.

               Há poucos dias, entretanto,  li “Tortura psicológica”- um artigo da antropóloga Mirian Goldenberg, na Folha de S. Paulo, em que ela mostrava o resultado de uma pesquisa que fez com pessoas com mais de 60 anos. Segundo seu estudo, mesmo na velhice, muitos não superam os medos, as dores, as frustações que viveram na infância.

               Pessoas bem sucedidas no trabalho, com uma família estruturada, continuam fragilizadas pelos insultos que sofreram quando pequenas. Um homem de 65 anos confessa que, mesmo depois de 20 anos de análise, segue acreditando que é um garoto assustado, que a qualquer momento alguém vai descobrir que ele não é tão competente assim e vai desmascará-lo. É a famosa “síndrome do impostor”, que muitos conhecem: lutam para se realizarem, estudam, investem em sua formação e buscam a excelência em sua área e, quando alcançam o sucesso, não se sentem merecedores das conquistas. Julgam-se a própria fraude.

Uma mulher - já avó - conta que tem ciúme do marido com a filha, pois ele dá à moça a atenção e o carinho que ela nunca teve de seu pai. Assim, tem que se contentar com as “migalhas” e sente-se uma “mendiga emocional”.

               Nessa pesquisa, encontrou homens que se separaram depois que nasceram seus filhos, pois sentiam-se abandonados e rejeitados pelas esposas - que precisaram dar atenção ao recém-nascido. Outros choram até hoje porque tiveram um pai violento ou porque tiveram uma mãe que preferia um dos filhos ou, ainda, porque não tiveram o merecido reconhecimento de seus pais.

A verdade é que crescemos, tornamo-nos gente grande para assumir as responsabilidades do mundo adulto, mas afetivamente continuamos semianalfabetos. A receita que antropóloga propõe é generosa; concordo com ela. Diz que devemos aprender a cuidar da criança que existe em nós; tratá-la com amor, atenção e carinho.  Quando vejo as fotos de crianças que muitos têm postado no Facebook, tenho a certeza de que é exatamente isso que essas pessoas estão fazendo.

                

Claudemir Cabreira

Claudemir Cabreira

Jornalista. 

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