Reencontro

ARTIGOS - 09:06:18

 

Era fim de tarde, mês de março. Subia a avenida de volta na minha caminhada diária, quando um rapaz fortinho, claro, de olhos azuis me abordou: “Isso é um assalto!” Nem deu tempo de me assustar; em poucos segundos, eu o reconheci. Há exatos dez anos, ele e sua família se foram daqui. Não deixaram telefone nem endereço. Mudaram de cidade várias vezes; tínhamos notícias sempre por meio de informações muito vagas.

Sua mãe enviuvara; logo em seguida, casara-se novamente, teve outro filho e iniciou outra vida completamente longe de nós, em todos os sentidos.

Naquela tarde, quando me descobri diante dele, depois de dez longos anos, meu primeiro impulso foi um grito – outro tipo de susto, de alegria ali, naquela hora – seguido de um abraço desesperado: “Eu não acredito!!! Pensei que nunca mais fosse te ver...”. Ele também se emocionou, voltou comigo pelo caminho que fazia e fomos conversando sobre a vida – a minha e a dele.

Não consigo entender ainda o que se passou enquanto caminhávamos. Sobre nós, apenas sobre nós, caiu uma chuva; no mais, o céu estava azul. Eram as águas de março.  Parecia que aquela chuva vinha para lavar nossa alma, a minha dor diante da inexplicável separação e limpar tudo o que ficou para trás.

Chegamos ao estacionamento encharcados, ofereci uma carona e ele se propôs a me levar para ver sua família. Foi um encontro com o passado: abraços, descobertas, estranhamentos, afinal,  o tempo tinha mudado todos nós. Riram muito quando disse que eu quase fui procurar por eles em um programa de televisão, como mostram aquelas reportagens em que parentes “perdidos” se reencontram.

Durante quase dois anos, entre alegrias e frustrações, fomos tentando nos acertar. Tivemos que juntar os cacos e recomeçar nossa história. Alguns não se colaram; outros nem se juntaram nessa tentativa.

Fim de ano, a gente se pega mais sensível; esses instantes da vida se instalam em nossa memória e vem uma enorme saudade de um tempo em que juntos éramos felizes.

Com aperto no coração, lembro-me do dia em que recebi um telefonema: “Eles se foram novamente”. Sem deixar telefone nem endereço, eles partiram outra vez; agora por que a mãe se separara. Acho que não precisam dessa parte da família para viver. O pai, lá de cima, sabe que tentamos. Deus cuide dele, deles e de nós.

 

 

 

 

 

Claudemir Cabreira

Claudemir Cabreira

Jornalista. 

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