LONGEVIDADE LEGISLATIVA

OBSERVATÓRIO - 18:25:10
LONGEVIDADE LEGISLATIVA

Etore José Baroni nasceu em Fernandópolis e vai completar 60 anos no próximo dia 12 de janeiro. Mais de um terço de sua vida ele passou investido no cargo de vereador de Fernandópolis. Está ingressando no sétimo mandato consecutivo no Legislativo e ao final dele, terá completado 28 anos, o mais longevo vereador na cidade, superando Maurílio Saves que completou em 2016, 26 anos de mandato, mas de forma alternada. Ao assumir o sétimo mandato e se aposentar após 40 anos no serviço público Baroni abriu caminho para realizar um sonho: ser presidente da Câmara. “Não quero deixar o cargo subir à cabeça, muito pelo contrário”, diz. Para Baroni, palavra falada e flecha lançada não voltam mais. Por isso deixa em aberto a possibilidade, “se indicado por consenso” ser candidato a prefeito. Mas, lembra que “ama ser vereador e que acha que nasceu para isso”. Ao assumir o comando da Câmara de Fernandópolis promete ser um presidente austero, tanto que já recusou usar o carro da Câmara em deslocamentos na cidade e abriu mão de advogado exclusivo para o presidente. “A Câmara já tem advogado”, relata. Veja a entrevista que ele concedeu ao Observatório na primeira semana como presidente do Legislativo:

Após 24 anos como vereador em mandatos seguidos, qual o sentimento hoje em assumir a presidência da Câmara?
Primeiro de vitória, dever cumprido, uma pessoa em que em todos os mandatos que tive, salvo engano em apenas um não fui líder de governo. Nos demais, em todos, inclusive no de Adilson Campos, que era do PT, fui líder. Sempre tive um bom relacionamento com meus amigos vereadores. Nunca tive nenhum problema de relacionamento. Então em 24 anos de mandato em Poder onde gira ideias e opiniões diferentes e você nunca se indispõe com ninguém, eu atribuo isso a dever cumprido. Sempre fui agregador, sempre trabalhei no sistema de apagar fogo com água, não com gasolina. Se a gente não vencer as coisas difíceis pelo amor, muito mais difícil será pelo ódio, pela desavença. Acredito naquela frase tradicional ‘só o amor constrói’. Se você não conseguir convencer a pessoa com argumentos positivos, jamais no confronto, que só vai distanciar. 

É essa marca que você pretende imprimir na presidência da Câmara?
Até mais. O nosso cargo é de coordenar, dirigir e ao mesmo tempo  temos que ouvir. A palavra da gente é a final, porque estamos ocupando um cargo temporariamente e temos responsabilidade. Mas temos que ouvir, não pode ser radical. Essa casa vem funcionando muito bem e com pessoal reduzido em comparação às Câmaras de cidades vizinhas do porte da nossa cidade. Como disse no meu discurso de posse: time que está ganhando não se mexe. Não quero deixar o cargo subir à cabeça, muito pelo contrário. Com 60 anos de idade, com a vivência que tenho de Câmara, com a vivência que tenho de família, de quase 40 anos de prefeitura, sempre lidando com gente e tratando as pessoas com igualdade. Alguém tem que supervisionar  e tem que haver sempre o respeito. 

Essa marca sua de agregador também justifica essa longevidade no legislativo?
Sim. Eu tenho uma gratidão muito grande com meu eleitorado. Eu tenho um eleitorado fiel de praticamente 500 pessoas. Eu tenho eleitores que votam em mim desde a primeira eleição, ou seja, votaram sete vezes. Eu faço visita e ouço deles que quantas vezes eu for candidato enquanto tiver eu voto em você. Isso me traz um compromisso, uma responsabilidade muito grande. Graças a Deus, nunca apareceu  numa página de jornal, uma manchete de rádio dizendo que o ‘Baroni se corrompeu por tal coisa, Baroni se deixou vender por tal coisa’. Não. Mas, você viu ‘Baroni conquistou o AME, o Baroni peitou o governador, peitou para abrir a Rua Sergipe onde era o Tio Badeco’. Falo coisas antigas pelas quais eu briguei. Eu fui um vereador contra a UPA. É absurdo? Sim, porque a UPA hoje custa ao município quase R$ 800 mil. Tem um repasse do Governo Federal de R$ 256 mil. Se a gente pegasse  de R$100 mil que dava para a Santa Casa e destinasse R$ 250 mil e injetasse no pronto-socorro da Santa Casa com todo o aparato que tem o hospital, tocaria com o pé nas costas . Hoje o que é que temos: tem o Samu que busca o doente, vem para a UPA. O cara está infartado, vai para a Santa Casa, uma fratura de perna é Santa Casa. Serão três etapas: buscar o doente, levar ao UPA e transferir para a Santa Casa. Ao invés de ter feito a UPA, com essa despesa tão grande e jogasse  uma quarta parte da despesa para a Santa Casa, nos teríamos um pronto-socorro de melhor qualidade, um atendimento mais rápido, enfim, um serviço melhor para a população. É a vivência que nos permite ver que as coisas, as vezes, não são tão bonitas como são pintada. As vezes as dificuldades são escondidas por quem está implantando, mas as consequências virão depois como as coisas estão instaladas. Agora, como você fecha a UPA. Não tem como. Foi feito um grande investimento em prédio, móveis, em contrato com fornecedores, em pessoal. Tudo isso poderia ter sido revertido em vários anos para a Santa Casa que tem uma estrutura bacana, tem o Hospital Escola instalado lá e nós teríamos um atendimento melhor para a população. Com essa vivência a gente enxerga um pouco mais à frente e procura alertar. Às vezes não somos ouvidos. Sou vencido no voto, porque a maioria sempre prevalece. Isso é democracia. Se usarmos a razão a gente erra menos. 

Nesse tempo todo, você conviveu mais com Maurilio Saves que completou 26 anos de Legislativo...
O Maurilio é um cara fantástico. Além de entender muito de legislação, é um companheiro que não deixa ninguém entrar em fria, conhece muito do trâmite no legislativo. Eu tenho no Maurilio um professor, diferenciado, que por uma fatalidade, por não ter 102 votos a mais não está fazendo parte desse colegiado. Estou marcando história na cidade, como o vereador com mais mandatos (sete) e consecutivos. Não tive nenhuma interrupção e isso me traz muita alegria, por que significa que o que estou fazendo está certo.

Na última legislatura, a Câmara se expôs demais e acabou chamuscada. O que você quer evitar para não repetir episódios da ultima legislatura?
Eu sempre procuro enfatizar que no confronto, numa briga, alguém se machuca. Eu quero evitar, até onde puder como presidente o confronto. Quero usar minha experiência para isso. Veja que na eleição da mesa, cada vereador que foi lá e declinou o voto para mim fez referência a essa experiência e por ser também um amigo de todos. Sou muito amigo de todos. Se um colega está com problema, procuro ajudar. Estou agora num lugar onde posso olhar para todos. Apesar dos meus erros, procuro deixar as diferenças para traz e vivenciar o bem. Lembro-me de uma frase que o saudoso prefeito Armando Farinazzo sempre dizia: a palavra falada e flecha lançada não têm volta. E não tem volta mesmo. Tudo o que você diz fica gravado. A imprensa está aí para registrar. Aquele microfone (da tribuna) é muito perigoso. É uma arma boa para você propagar, anunciar coisas boas. Mas, também pode ser uma arma contra você.  A gente tem sempre que pensar três vezes antes de tentar atacar alguém. O bem você pode falar à vontade.

Baroni, nesse período como vereador, qual foi a maior frustração? 
A frustração que eu tive foi quando não anunciaram o AME em Fernandópolis. Eu fiquei transtornado, porque eu comparei  o AME em Santa Fé com o PMDB na época com o Itamar, AME em Jales com PT, em Votuporanga com o PSDB, tudo bem. Eu falei com o Vilar que não podia ter pulado Fernandópolis. O Vilar justificou que nos teríamos o Lucy Montoro. Não me conformava. Fui ao Cartório Eleitoral, levantei desde o Mário Covas, todas as votações do PSDB e pedi ao Júlio que agendasse um encontro com o governador. O Júlio é fantástico, ele marcou e fomos lá. Começamos a defender por palavras o AME em Fernandópolis até que não me contive e tirei do bolso do paletó o calhamaço de dados e joguei sobre a mesa e falei: governador, o senhor desculpa, mas estão cuspindo no prato que comeu. Em Fernandópolis, nas últimas cinco eleições, o PSDB teve votação massacrante. Em Santa Fé não foi, em Jales não foi e o senhor pula a minha cidade e instala os AMEs nas outras. E a minha cidade que é tucana, onde tem um filho da terra que é seu braço direito, que é o Julio Semeghini e senhor pula essa cidade. Como um tucano, abonado pelo Mário Covas, tucano por convicção, não por conveniência, eu me sinto frustrado. O governador olhou para o assessor e mandou rever a situação. E hoje o AME está aí. Então, foi uma frustração no início, mas que me deu uma das grandes coisas que briguei como vereador e me sinto ‘pai do AME’ sim. Na época através da confiança do Julio, do Vilar e a conscientização do governador que viu as provas do que estava falando. Foi uma frustração que se transformou em conquista por ter podido ajudar a trazer o AME para Fernandópolis. 

E aquela frase sua de “pendurar a chuteira”...
Eu errei. Quando a gente sai de uma campanha, sai morto. É a mesma coisa de quando você está atravessando um rio de corredeira, você dá braçada, pernada para tudo que é lado e quando sai do outro lado você diz: nunca mais vou entrar nesse rio. Entra num barco para pescaria e pega uma tempestade no meio do rio. Você sai e jura que nunca mais sobe num barco. Mas, não é assim. Acho que nasci para ser vereador. Falo aqui, que uma das coisas que mais gosto na vida é ser vereador. Até me emociono ao falar isso. Nasci num berço cristão da Congregação Cristã, o meu pai foi o terceiro crente da congregação aqui em Fernandópolis. Eu aprendi muita coisa, que fazer o mal não leva a nada. Esse berço dá um lastro para o ser humano muito bom, porque te leva a pensar o que você vai fazer para o outro e se gostaria que fizessem a você. É um espelho. 
A herança dos nossos pais foi essa, de saber tratar as pessoas com dignidade e bastante respeito. 

Você disse que gosta de ser vereador. Quer dizer que descarta candidatura a  prefeito?
É a flecha lançada de novo. De repente o André faz uma boa administração quer dar um pulo maior e dentro de um consenso colocam Baroni, você é a bola da vez, pela experiência, pela confiança da população, relacionamento com os funcionários. Se aparecer a oportunidade eu já digo, seja quem for o concorrente, não vou falar mal de ninguém. Vou falar de mim, que tenho experiência de 28 anos como vereador (em 2020), porque conheço a cidade de ponta a ponta. Sei dos problemas, aprendi o caminho com os deputados e que estou preparado para gerir a cidade. Às vezes, quem sabe. Hoje não descarto, porque já apanhei um pouquinho, dizendo que não seria mais vereador. Então lancei uma fecha que não deveria ter lançado. Agora estou igual ao Robin Hood. Estou guardando essa flecha para o futuro.

Uma das grandes discussões em Fernandópolis é a paz política. Será que dá para acreditar que agora vamos ter essa paz ou ainda vamos continuar brigando entre nós?
Eu acredito que vamos ter paz. Por quê? Os dois deputados (Fausto Pinato e Gilmar Gimenes) estão agregados. Eles apoiaram esse grupo que está no comando da cidade. Aqui na Câmara sinto que todos os vereadores estão imbuídos em colaborar e ajudar . Por isso acho que a paz política tão sonhada, tão desejada, está batendo à porta. Agora cabe a nós abrir a porta e receber quem vem vindo de braços abertos. Não adianta receber com soco ou empurrão. Se alguém der um passo para chegar a nós e a gente abraçar, tem tudo pra dar certo.

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