“O palhaço me ensinou a ser mais humano e verdadeiro”

OBSERVATÓRIO - 17:58:21
“O palhaço me ensinou a ser mais humano e verdadeiro”

Vai começar o festival de “palhaçadas”. É verdade. A partir de terça-feira, 17, Fernandópolis será o centro das atenções com a realização do 4º Encontro Internacional de Palhaços, o EuRiso 2017. Rafael Guerra de Aquino tem um conceito próprio do evento: “EuRiso tem essa vontade de viver, de amar, de fazer rir, de ser cumplice do que há de mais humano em nós. Porque é um evento das pessoas e para elas”. Nesta entrevista ao CIDADÃO, Rafael conta como surgiu a ideia de montar um evento desse porte que a cada ano vai ganhando mais projeção e hoje é referência internacional. “O EuRiso nasceu de uma inquietação, após anos pesquisando o palhaço, desde 1998,  em um momento da minha vida, isso me tocou muito fortemente. Eu amo o que faço.  O

primeiro EuRiso ocorreu em 2014, quando nasceu minha filha”, relembra os momentos marcantes.  Rafael começou com teatro em 1993. Quando entrou na faculdade (curso de enfermagem) iniciou o trabalho de palhaços nos hospitais. O que isso representou na sua vida? Ele responde: “O palhaço me ensinou a ser mais humano, verdadeiro e a olhar para o outro”.

Veja a entrevista:

O 4º Encontro Internacional de Palhaços de Fernandópolis começa na terça-feira. O que vamos ter de novidade este ano?

Muitas oficinas para a comunidade serão oferecidas este ano na Praça da Matriz e também levaremos apresentações aos bairros, capilarizando a programação e democratizando o acesso ao público. Com o engajamento da prefeitura conseguiremos este ano montar uma lona de circo em plena praça, o espaço mais democrático e acessível da cidade com toda a programação inteiramente gratuita.

Fale um pouco da história do EuRiso, onde a ideia nasceu e onde pretende chegar?

O EuRiso nasceu de uma inquietação, após anos pesquisando o palhaço, desde 1998,  em um momento da minha vida, quando isso me tocou muito fortemente. Eu amo o que faço. Perdi meu pai aos 34 anos de infarto quando eu tinha pouco mais de um ano. Em 2014, ano que minha filha nasceu, realizamos o primeiro encontro. Por isso o EuRiso tem essa vontade de viver, de amar, de fazer rir, de ser cumplice do que há de mais humano em nós. Porque é um evento das pessoas e para elas, o encontro já é citado como um dos melhores da América do Sul e o melhor do Estado. Pretendemos promover cada vez mais a difusão e o acesso ao evento, valorizando os artistas, que são a força do evento, envolvendo a cidade, e inovando a cada ano.

Nos últimos três anos, você realizaram o evento na raça. Esse ano será diferente?

Tivemos apoios que oscilaram ao longo das edições, este ano perdemos a Oficina Cultural Fred Navarro, pois o estado encerrou as atividades de todas as oficinas do interior do estado, mas ganhamos um engajamento muito grande por parte do prefeito André Pessuto, que não mediu esforços para que o encontro acontecesse e o elegeu como prioridade, após ter homenageado e tentado recursos desde a primeira edição quando ainda era vereador.

Ao chegar à quarta edição, a projeção do evento e a participação da cidade estão dentro de sua expectativa ou poderia ser melhor?

O encontro só cresce e o público é cada vez maior, na rua me param e perguntam constantemente: Quando será o evento? Me manda a programação hein! O público, assim como nós, fica cada vez mais ansioso com a chegada do encontro. Produzimos uma energia potencialmente forte que mistura amor, arte, riso e lágrimas, trabalhamos muito e colhemos os afetos que plantamos.

Fernandópolis já entendeu o propósito do EuRiso? Como é a participação do público nos diferentes palcos?

No último ano tivemos um público muito grande, cerca de 6 mil pessoas compareceram no evento, muita gente acredita no encontro e na marca que ele deixa na cidade. É um momento de valorização das pessoas, de compartilhamentos horizontais. O público já cobra quando sai a programação, quem se apresenta a cada ano, enfim esperamos uma participação maciça este ano da população.

Organizar um evento desse porte, que tem recebido atrações internacionais, requer a montagem de uma grande estrutura. Como é coordenar um evento com essa característica?

É bastante difícil, mesmo com muito planejamento, muitas coisas estão fora da nossa governabilidade e temos que nos adaptar. Mas a energia é tão forte que muitas pessoas arregaçam as mangas e trabalham no seu máximo junto comigo superando as dificuldades. É fundamental que a cidade toda se envolva com o encontro, uma riqueza imaterial de toda a população.

Qual a imagem que os grupos que vêm de fora levam da cidade?

Os artistas vêm pra Fernandópolis cheios de expectativas. Temos um clima de comunhão e compartilhamento muito grande e a cidade é vista como um lugar querido, muitos fazem vídeos falando do encontro. Vem gente de Tocantins e também do Rio Grande do Sul, só pra participar, mesmo não estando na programação. Muitos falam sobre a importância do encontro nacionalmente e internacionalmente, e sobre a grande família que tece essa trama emocional e cultural da cidade.

Você é formado em enfermagem e hoje é professor. Desde os tempos de Palhaços de Plantão você desenvolve um trabalho que une saúde e a arte palhacesca. O que esse projeto acrescentou em sua vida?

Comecei com teatro em 1993 e quando entrei na faculdade iniciei o trabalho de palhaço no hospital, que já vinha estudando há dois anos. O palhaço me ensinou a ser mais humano, verdadeiro e a olhar para o outro. Vivo em constante aprendizagem e o encontro me traz uma enxurrada de reflexões que reverberam na minha vida profissional. Pra existir o trabalho tanto do palhaço quanto do professor, o mestre, é necessário um encontro de no mínimo duas pessoas, um encontro De “eus”. Produzimos humanidade o tempo todo.

Em todos esses anos de visitas a hospitais, qual a imagem marcante ou a emoção que não conseguiu controlar?

Realizamos um trabalho de preparação muito importante antes de ir ao hospital, nosso foco é interagir com a parte saudável de quem está lá, produzindo arte, música, risos e autonomia do outro. Muitas histórias nos tocam, vibramos quando a conexão funciona, a relação é verdadeira e quando não querem nossa partida.

Você é professor em faculdades. Conseguiu inserir esse trabalho na dinâmica pedagógica?

Eu procuro conciliar os ensinamentos dos meus professores de palhaçaria e dos meus mestres de ensino, e vice-versa. A arte de se relacionar verdadeiramente com o outro é aprendida, na medida em que lapidamos nosso ser. A teoria na arte e no ensino é apenas o mote para alcançar o outro a partir de quem você é.

Professor ou palhaço?

Os dois, pra mim são ofícios que existem a partir do outro, da relação, carregam intrinsicamente a responsabilidade de facilitar um conhecimento, conceito e questioná-lo. Ambos podem mudar a realidade a partir de suas práticas, seja por despertar sentimentos, sensações ou questões de qualquer natureza. E o palhaço é a expressão mais humana que existe, um ser verdadeiro, que aceita e é aceito com seus defeitos e qualidades. Precisamos colocar nossas emoções em prática sem abandonar nossa razão. Do “conhece-te a ti mesmo” ao “torna-te o que tu és”: Nietzsche contra Sócrates.

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