A tradição que passa de geração em geração

OBSERVATÓRIO - 19:23:51
A tradição que passa de geração em geração

No próximo final de semana, Fernandópolis vai reviver uma das maiores tradições religiosas de sua história. A festa de São Sebastião chega aos 52 anos e vem passando de geração em geração. “A gente vê na cavalgada, os avós, os filhos, noras, netos, vem a família inteira. Isso vem mantendo as famílias unidas e faz com que a festa cresça a cada ano”, diz  o coordenador Carlos Alberto Perucchi, 52 anos, que está à frente da festa há 10 anos, mas vive essa tradição há mais de 30 anos. É um evento de números superlativos. Os organizadores estimam que este ano a festa deva reunir cerca de 6 mil pessoas entre a cavalgada, almoço e leilão de prendas. Mais de 600 pessoas trabalham na organização como voluntários. Além do aspecto religioso, a festa representa a principal fonte de renda para a Igreja Católica manter projetos pastorais e cuidar da manutenção. “A gente considera a Igreja uma empresa, tem serviço de limpeza, seguro saúde dos funcionários, todos eles são registrados, existe a manutenção das igrejas, do Centro de Pastoral”, afirma Perucchi, que também é presidente da CPA – Conselho Pastoral Administrativo da Igreja Católica, que congrega 25 pastorais. São Sebastião é um dos santos que mais atrai devotos, principalmente na zona rural, por ser considerado o santo protetor dos animais. Por isso, a tradição da cavalgada, benção dos animais e distribuição do sal bento. O dia de celebração ao Santo é 20 de janeiro, mas em Fernandópolis, tradicionalmente a festa ocorre no último domingo de janeiro, este ano, no dia 29. Na entrevista ao CIDADÃO, Perucchi fala do sentido de confraternização e união das famílias em torno dessa tradição. Confira: 

O que representa ser voluntário na Festa de São Sebastião? 
Pra mim é um sentimento, ao mesmo tempo, de orgulho e muita fé. A gente faz isso com carinho com amor. Faz sentido à minha vida fazer parte dessa festa.
Qual foi a primeira festa que participou?
Foi há 32 anos, em 1978. Eu participava como todas as pessoas, mas não integrava a comissão. Fazia parte da comunidade normalmente, mas eu ia, por exemplo, ajudar as montar as barracas na exposição. Na época montavam-se as barracas com cobertura de lonas. Depois passou a utilizar os pavilhões. Então a festa foi crescendo gradativamente. Mas lá se vão 32 anos que estou fazendo parte. 
Na organização da festa você chegou quando?
Desde 2005 passei a integrar as comissões e já estou há 10 anos como coordenador.
Por que essa é a maior festa religiosa de Fernandópolis?
Olha, é a que mais reúne pessoas, tanto para trabalhar na organização, quanto para participar. É a festa religiosa que mais chama a atenção. É lógico, que falamos isso proporcionalmente. Se olharmos pelo lado da Exposição, é outro parâmetro. 
O que você ouve das pessoas sobre esse desejo de participar e que contribui para festa crescer ano a ano?
Acho que, primeiramente, é a fé por São Sebastião e a tradição de família, que vai passando dos avós para os pais, para os filhos, para os netos. É isso que puxa esse evento.
Quantas pessoas se envolvem na organização do evento? 
São muitas. Se pegar na parte de leilão, nós temos uma média de 70 pessoas. Na parte de arrumação, são mais 100. Na parte de cozinha, no último dia chega a 150, 200 pessoas ajudando. E no recinto, na data, eu falo que fica em torno de 500 a 600 pessoas trabalhando.
A festa é, então, um momento de confraternização?
Sim. Isso representa a união das famílias que hoje estamos tão carentes. Você vê que as pessoas nem se cumprimentam mais hoje. Então, a partir do momento que você faz uma festa desse porte e as pessoas vêm de coração, se doar como voluntário é uma entrega. Temos horário para começar, mas não para acabar. Então isso é união, isso que dá a força para continuar essa festa sempre crescendo.
Hoje temos o advento da internet, redes sociais, mas essa é uma festa que consegue reunir, do avô, ao jovem e a criança. É a garantia de que a cidade não vai perder essa tradição?
Sem dúvida. A gente vê na cavalgada os avós, os filhos, as noras, netos, vem a família inteira, principalmente esses que participam de comitivas. Isso vem mantendo as famílias unidas. Assim também ocorre no trabalho, onde a pessoa sai do seu mundinho e vem com a família para ajudar. A gente ouve do pessoal que devia ter sempre esses eventos em Fernandópolis, porque tira a família de dentro do casulo que é a sua casa, da frente da televisão, internet, WattsApp e tudo mais, para uma confraternização. É a volta dos bates papos, entendeu. Não tem mais o bate papo na porta da sua casa. É difícil ver vizinho cumprimentando vizinho. Hoje quando você agrega as famílias numa causa como essa, é uma maravilha. 
Vocês trabalham com qual expectativa para essa festa?
Olha, no ano passado fizemos almoço para mais de 3 mil pessoas. Esse ano vamos aumentar, de 4 a 5 mil. Gradativamente essa festa vem aumentando e vai ficando uma tradição  e o pessoal  vêm e gosta. É uma festa de comunidade, de família. 
Essa festa tem vida longa?
Para isso, temos que continuar convidando as pessoas para participar. Assim como meu sogro me convidou há 30 anos para ajuda-los na festa, ele era da comissão, eu estou fazendo isso com meu filho, com minha nora. Os outros também estão fazendo isso, dando oportunidade para eles trabalharem e vai pegando o gosto e vai embora, não larga mais. 
É da zona rural que vem a força da Festa de São Sebastião?
Com certeza, a zona rural tem uma força muito grande. Tem várias comunidades, como  a do Coqueiro, Barreirinho, Caxi, Pingo d´Água, Pedra e tantas outras da nossa cidade  e da região. Por exemplo, o pessoal de Macedônia, Pedranópolis, Ouroeste, participa com a gente, ajuda, colabora, faz doação, porque eles gostam. Isso é da zona rural mesmo. Não quer dizer que o pessoal da cidade não participa. Pelo contrário, tem muita gente que tem a raiz no rural, participou lá atrás e hoje mora na cidade e não perdeu esse vínculo, essa fé...
Você costuma dizer que quem chega a Fernandópolis no dia da festa até acha que é o aniversário da cidade, tamanha a mobilização...
Realmente, as pessoas vêm para a festa e hora que você vê, a cidade está lotada, cheia de gente. Vem comitivas de outros estados, como Minas Gerais. Temos recebido ligações de Carneirinhos, Iturama, São Sebastião do Pontal, de outras cidades, Indiaporã, Votuporanga, General Salgado. Vem gente do Mato Grosso do Sul, de Aparecida do Taboado. Essas comitivas vêm porque em Fernandópolis tem a Comitiva do Branco, que faz isso, sai daqui e retribui a visita. Eles participam de todas as cavalgadas pela região. É uma integração regional. 
A festa também tem um caráter, não apenas religioso, mas econômico, para arrecadar recursos para projetos da Igreja?
Esse é o maior evento e o que mais alavanca a renda para que a gente mantenha as despesas da Igreja. Quais são as despesas da Igreja? A gente considera a Igreja uma empresa, tem serviço de limpeza, seguro saúde dos funcionários, todos eles são registrados, existe a manutenção das igrejas, do Centro de Pastoral. Por exemplo, recentemente nós trocamos todas as cadeiras das salas de catequeses e vai muito dinheiro, em torno de R$ 29 mil. Precisamos receber bem as crianças, os jovens, os pais. O auditório precisava de uma reformulação. O Corpo de Bombeiros esteve lá, a cobertura era toda de madeira, hoje é proibido, estava praticamente condenado. Tivemos que trocar todo o telhado, agora não tem mais nada de madeira, o forro é totalmente antichama, o que é muito caro, trocamos as cadeiras, piso, pintura. Então a despesa é grande e essa é a festa que alavanca os recursos para manter as despesas do dia a dia e das reformas que aparecem de última hora.
A CPA coordena todas as demais pastorais e envolve um trabalho voluntário grande. Qual o significado dessa doação?
Olha, vou começar por mim. A partir do momento que você doa o seu tempo em prol de um benefício, de uma entidade, de tudo que seja para o bem, isso é gratificante demais. Eu largo minha empresa, minhas propriedades e há 15 dias estamos dedicando em prol desse evento. As pessoas perguntam como você dá conta? E dá conta, tem um ditado que um padre me disse certa vez, que quando você quer dar um serviço para uma pessoa, você procura alguém ocupado. Se procurar o desocupado, ele vai falar que não tem tempo. Nós temos 25 pastorais, todas elas engajadas para trabalhar  voluntariamente em prol do próximo. Não tem uma pessoa remunerada. Não importa se a pessoa está trabalhando há 90 dias ou se chegou há 15 dias ou trabalha uma hora. O valor é o mesmo que vamos receber. Mas que valor é esse? Esse é o valor do nosso Papai do Céu. A gente faz  de coração, para que as coisas aconteçam, que as famílias e a comunidade estejam sempre unidas. Isso é muito gratificante.
No dia 29, qual será a programação da Festa de São Sebastião?
Quem vai participar apenas, a festa começa às 8 horas da manhã com a Santa Missa na Igreja Matriz, logo após, teremos a saída da Procissão de Cavaleiros defronte a Igreja da Aparecida, seguindo pela Rua Bahia, Avenida Expedicionários Brasileiros, Augusto Cavalin até o recinto da Expo, onde vai ocorrer a benção dos animais e a entrega do sal bento para todas as pessoas. Logo após, começa o almoço às 11h30 e o leilão vai começar às 14 horas em ponto. O leilão começa nesse horário e não tem hora para acabar. No ano passado terminou por volta das 23 horas. 
Estamos vivendo uma crise, recessão e desemprego. Isso teve reflexo na festa deste ano?
Eu não posso falar que teve crise. As pessoas da nossa comunidade são muito bondosas, caridosas. Elas participam de todos os eventos em prol da Santa Casa, AVCC, Asilo e todas as entidades. As pessoas ligam para a gente e perguntam se não vamos pedir doação e olha que esse pessoal doa sempre o melhor animal que tem. Digo de coração aberto, não existe uma comunidade tão bondosa como a de Fernandópolis e região.
Quando se fala em leilão, logo se associa a animais, mas esse leilão é de prendas de diferentes tipos. Qual foi a prenda inusitada que foi leiloada por vocês?
Uma máquina de costura doada por uma pessoa no ano passado, daquelas antigas, manual. Foi uma coisa fora de série. São coisas inusitadas assim, que vai para o leilão e arrecada mais que um boi, por exemplo. Esses dias participei de um leilão na comunidade de Dulcelina, um frango saiu por R$ 2,2 mil. As pessoas participam e não importa, o que ela tiver para doar é sempre bem-vindo. As pessoas compram porque sabem da finalidade. Quando a gente trabalha sério temos o respaldo da comunidade.
Qual a reflexão que essa festa deixa para quem trabalha ou apenas participa do evento? 
A maior gratidão que podemos ter é doar um pouco do nosso tempo. É a pessoa deixar o dia a dia, sua rotina, e ver que coisa maravilhosa que é. A partir do momento que a pessoa vai e participa, volta sempre. Nós tivemos a experiência em anos anteriores. Nós somos carentes de calor humano, da palavra amiga e isso todos encontram lá. É deixar a mesmice de lado e se doar para a comunidade. 

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