Cego aos 29 anos, Deva busca o esporte para superação

OBSERVATÓRIO - 16:51:28
Cego aos 29 anos, Deva busca o esporte para superação

Devanir Alves Pereira, 39 anos, morador do Jardim Araguaia, se viu diante de um trágico acontecimento em sua vida há 10 anos. Uma dor de cabeça e o diagnóstico de meningite tiveram uma consequência: a cegueira quase total. Restaram apenas 3% do olho esquerdo, suficientes para Deva, como é chamado, enxergar apenas vultos. Aos 29 anos  ele teve que reaprender a viver sem a visão. Precisou aprimorar outros sentidos e superar as limitações. Dez anos depois, diz que encontrou no esporte porta aberta para a superação. Recentemente ele conquistou medalha de ouro no torneio “Grand Prix Internacional Infraero de Judô para Cegos”, categoria leve, até 73 Kg. Agora ele já sonha mais alto. A próxima etapa do torneio será no Rio Grande do Sul. Enquanto vence no tatame, Deva e os amigos lutam em busca de apoio para conseguir disputar a próxima etapa do torneio no Rio Grande do Sul. Da tragédia a superação, essa é a história de Devanir que hoje é exemplo para as crianças que veem nele uma fonte de inspiração. Nesta entrevista que ele concedeu ao CIDADÃO na sede da igreja Projeto Amar, ao lado do tatame onde treina com o sensei Thiago Landin, Deva contou um pouco dessa nova vida. Veja: 

Como avalia o desempenho e a conquista da medalha de ouro no Grand Prix que você disputou recentemente em São Paulo?
Foi boa. Fui meio desconfiado, achava que não ia dar, mas acabei me superando. Ganhei as duas lutas, a primeira foi mais difícil e a segunda mais fácil, mas me superei. Achei que não iria tão bem como fui.
Você disputou um torneio para cegos. Mas, a maior parte de sua vida você teve visão normal?
Sim, enxergava muito bem. Perdi a visão aos 29 anos, por conta de uma meningite que atrofiou o nervo ótico. Perdi a visão quase total do olho direito e tenho 3% do olho esquerdo. Os dois primeiros anos foram meio complicados, era a fase de adaptação à nova realidade, mas hoje já estou bem adaptado. Não faço de tudo ainda, mas evolui bem. 
O diagnóstico foi meningite?
Sim, surgiu do nada. Estava normal, aí começou uma dor de cabeça e o primeiro sintoma foi de dengue. Não era. Quando eu fui para Rio Preto, lá os médicos descobriram a meningite, só que já estava bem avançada e ficou a sequela que foi a perda da visão. 
E como foi enfrentar essa nova e dura realidade?
De repente, mudou  tudo na minha vida, né. Antes fazia tudo sozinho, hoje dependo de outras pessoas para ainda fazer algumas coisas. Nessa fase de adaptação eu fui aprendendo fazer o que podia sozinho. Por exemplo, vir pra cidade. Hoje estou separado da esposa, mas antes, quando era casado, tinha que esperar minha mulher voltar do serviço para ela me levar aos bancos e até cortar cabelo. Hoje eu faço isso sozinho. Foi um período complicado para me adaptar à nova vida. Agora me viro bem. 
Onde buscou apoio para enfrentar essa nova realidade em sua vida?
Primeiramente foi em Deus. Comecei a frequentar a igreja e o pessoal me ajudou muito. Fui também para a ADVF – Associação dos Deficientes Visuais de Fernandópolis, que me instruiu muito para ser independente. O esporte foi fundamental para a minha adaptação. Encontrei o Tiago Landim na Igreja Projeto Amar e comecei no judô. Tem o pessoal do Jiu-jitsu. Então é uma galera que me incentiva e me dá força pra caramba.
Qual foi o primeiro esporte que você buscou quando perdeu a visão?
Foi o judô. Perdi a visão em 2007 e em 2009 comecei fazer judô. Em 2011 fui para o Jiu-jitsu. Faço atletismo também, mas dei uma parada porque meu guia teve que fazer uma cirurgia e não tenho com quem correr. Faço judô, jiu-jitsu e atletismo. 
O sonho é ser um atleta paralímpico?
Sim. No Grand Prix Infraero a maioria que disputou é atleta de seleção, da faixa verde prá cima. Esse campeonato eu disputei com a faixa laranja, na categoria iniciante. O próximo campeonato, em novembro, eu vou com a faixa verde e vou lutar na categoria adulta, com o pessoal de seleção mesmo. Então, agora vou enfrentar uma galera mais tensa, mais casca grossa (risos). Agora, já sou um aspirante à Seleção Brasileira, o pessoal já começa a observar e quem se destaca vai para a seleção.
No esporte, qual é sua meta?
É continuar, eu gosto de fazer isso e a meta é a faixa preta. Só que a idade está um pouquinho avançada. Então, não sei se vou ter o pique para chegar até lá. Mas, enquanto tiver força, garra... vou continuar. Agora o foco é para ir ao campeonato no final do ano no Rio Grande do Sul e representar bem nossa cidade. Até lá a gente vai buscar apoio. Prá ir para São Paulo (Grand Prix), a gente fez uma rifa com o apoio de amigos e agora vamos tentar de novo. A prefeitura ajudou. Vamos correr atrás de patrocínio. Vamos ver se a gente consegue...
Qual foi a importância do Projeto Amar?
Aqui foi a primeira igreja que comecei a frequentar. Hoje eu frequento outra, mas sempre que venho aqui sou bem recebido. Pastor Flávio me ajudou e me ajuda ainda. Essa é uma igreja que tenho as portas abertas. Ajudou-me muito na minha fase de adaptação e  na iniciação no esporte.
No momento que recebeu a notícia que havia perdido a visão, o que veio à mente?
Olha, foi difícil, muito difícil. Busquei a Deus em primeiro lugar. Geralmente quando ocorre algo assim, a pessoa fica revoltada, isso não tá certo, porque comigo?. Eu segurei a onda comigo, não quis colocar a culpa nos outros. E isso me ajudou bastante. O primeiro ano foi complicado, mas eu procurei não passar essa frustração para os outros. Decidi buscar algo para minha vida, foi quando busquei o esporte e a ADVF. Agora já estou preparado para enfrentar o mundo sozinho. Hoje estou tranquilo.
Você se vê impossibilitado de almejar conquistas futuras?
Não, claro que não. Podemos fazer muita coisa. Se a gente quer estudar, tem a ADVF que ajuda com bolsa de estudo e apoio pedagógico. Tem o esporte que o pessoal também dá muita força. É claro, que tem algumas limitações, mas com força de vontade e muita fé a gente pode fazer tudo. 
Fale sobre o Devanir de antes e o Devanir de agora?
Mudei demais a maneira de pensar. Era individualista, muito eu. Hoje, sou mais sociável, procuro ajudar no que posso todas as pessoas, da mesma forma que sou ajudado. Na academia, por exemplo, durante os treinos, as pessoas vêm pedir detalhe de algum golpe de judô, eu ensino. Para mim, o conhecimento é para ser compartilhado. Não posso guardar só para mim. É uma troca, eu ensino uma coisa, aprendo outra e assim a gente vai evoluindo. Aconteceu muita coisa na minha vida que me fez mudar a maneira de pensar as coisas e agir também. Sinto-me muito bem hoje. 
Quais foram as pessoas mais importantes neste período?
Posso falar da minha ex-mulher que ajudou demais, ela foi uma heroína comigo, a família, o pessoal da ADVF, Sensei Landim (judô), Sensei André (Jiu-jitsu) e os amigos. 
Se pudesse voltar atrás em alguma coisa, o que mudaria?
Mudaria muita coisa, mas o principal era ter começado a lutar (judô e jiu-jitsu) antes, quando era mais novo. Eu achei meu esporte, eu me adaptei muito bem. Acho que se tivesse iniciado mais novo, poderia ter ido mais longe.
Você diz que já se adaptou a nova vida, mas sente falta da visão?
Ela faz falta sim, só que não sou mais totalmente dependente dela. Já tenho vida própria. O que não dá prá fazer peço ajuda. Eu me viro bem sem ela. Hoje eu digo que a gente passa a prestar mais atenção às coisas. Antes eu via uma coisa e já descartava. Hoje não, você se envolve mais e forma um conceito melhor de tudo, das coisas e pessoas. Sem a visão, desenvolvi o tato, a audição, outros sentidos. Como vejo apenas vulto, desenvolvi ainda mais o reflexo. 
A maior dificuldade?
Eu sou um cara muito na minha, apesar de ser mais sociável. Quando preciso peço ajuda, mas ainda encontramos pessoas que acham que a gente está usando a deficiência para tirar proveito, se fazer de coitadinho. É ruim demais ouvir isso. Por isso muitas vezes eu me fechava quando isso acontecia. Agora já estou mais comunicativo e enfrento melhor a situação. 
Você se sente um coitadinho?
Não. Nunca me senti, desde quando tudo aconteceu nunca me senti um coitadinho. Sempre procurei melhorar, aprender e me adaptar a nova situação, superar a dificuldade. Minha ex-mulher saia cedo para trabalhar, e  ela nunca chegou em casa e me encontrou sem comer, ou a casa desarrumada. Eu sempre me virei. Ela nunca me encontrou largado, reclamando disso ou daquilo. Nunca. Eu sempre procurei me ajudar primeiramente.
Como foi vencer a luta e subir no alto do pódio para receber a medalha de ouro?
Foi muito bom. Quando eu estava lutando, na hora que entrei o golpe, o juiz gritou ippon, eu sou meio reservado, mas naquele dia levantei e gritei (faz o gesto da vitória). Foi muito bom, cara. Estava numa tensão grande. Isso foi muito gostoso. E chegar aqui e ver o reconhecimento das pessoas, todo mundo falando o Deva foi campeão, as crianças perguntando como foi, o que fiz. Foi muito legal. Compartilhar isso com as crianças foi demais. A criançada é o combustível da gente.
Você se sente um exemplo para as crianças?
Sim, eu procuro dar bons exemplos. O Tiago (Landim) sempre fala para as crianças, se inspirem nele. Então eu procuro dar bom exemplo. Tem uma frase que sempre ouvi no tatame: tem sempre alguém te olhando, tem sempre alguém se inspirando em você. Então toma muito cuidado com as suas atitudes. Eu procuro seguir isso, ser correto, direito, do lado do bem, porque me sinto um exemplo para eles. 
Que mensagem você deixaria àqueles que estão lendo essa entrevista, que por uma razão qualquer tem uma dificuldade e acha que as coisas estão muito difíceis? 
A mensagem é a que ouvi na Igreja no último culto. O pastor falou que a palavra “não temas” aparece 365 vezes na Bíblia, ou seja, é uma para cada dia do ano. A mensagem é essa, não temas, acredite, espera que no momento certo as coisas vão acontecer. No meu caso está acontecendo, não do jeito que queria, mas do jeito certo. A gente planeja de um jeito e Deus sabe o jeito certo de fazer as coisas na vida da gente. Na minha vida, Deus tem feito isso. Se tivesse tido essa oportunidade antes, talvez não tivesse dado o valor que dou hoje às oportunidades que tenho. Então é acreditar, ter fé e fazer o bem.
Você é um cara feliz?
Sim, muito.

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