Hermê, a policial militar que luta há 18 anos na prevenção às drogas

OBSERVATÓRIO - 17:49:07
Hermê, a policial militar que luta há 18 anos na prevenção às drogas

Cabo PM  Hermenegilda Pierrobom Succi, ou simplesmente Hermê como é chamada pelos alunos do PROERD. Ou ainda Cabo Succi, como é tratada no Quartel da Polícia Militar. Não importa, Hermê faz parte da história de pelo menos 12 mil jovens estudantes que passaram por suas aulas no PROERD – Programa de Prevenção às Drogas. A maioria entendeu a lição e segue o caminho do bem, poucos  se perderam em algum momento do caminho e enveredaram pelo caminhos das drogas e crimes. Ao completar 18 anos nesse trabalho preventivo, Hermê faz um balanço emocionante dessa história que construiu e que lhe valeu, com méritos, o titulo de Policial Padrão outorgado pela Câmara no mês passado. Mãe de uma filha, formada em Educação Física e atualmente cursando Acupuntura, essa policial militar, aos 41 anos, dos quais 20 na Polícia Militar, deixou um recado ao final da entrevista ao CIDADÃO: “Obrigada por trazer a tona momentos que estavam escondidos dentro de mim, refleti muito sobre minha vida e notei, mais uma vez, o quanto sou abençoada. Hermê Succi”.  Veja a entrevista:

Após 18 anos à frente do projeto PROERD da Polícia Militar com estudantes na guerra contra as drogas, qual a avaliação que faz?
Eu sou extremamente suspeita para falar sobre o Programa PROERD, pois acredito na sua eficácia, acredito que ele aproxima a Polícia, a Escola e a Comunidade, acredito que o objetivo do PROERD é absorvido por completo por nossos alunos , embora muitas vezes o meio o qual ele vive não permite que tenha muitas opções. Eu acredito que o PROERD faz a diferença na vida dos nossos jovens.
É possível estimar quantos jovens passaram pelas suas aulas no PROERD neste tempo? Alguma história marcante?
Nesses quase 18 anos de PROERD na 1ª Cia PM Fernandópolis, a qual abrange não somente a cidade de Fernandópolis, mas também os 11 municípios e mais três distritos, passaram por mim uns 12 mil alunos. São tantas histórias que me marcaram, que me fizeram chorar, que me dignificaram e tantas outras que me tornaram mais forte e fizeram com que eu não desistisse deles.  Uma história que me fez chorar: Há alguns anos eu tinha um aluno que sempre trazia para a escola seu livro do estudante todo sujo de terra, e eu o questionava e ele dizia que tinha sujado quando foi fazer a tarefa, eu dizia pra ele que era importante cuidar do material escolar, que era feio deixar o caderno sujo (essa também era a reclamação da professora). Essa história foi se repetindo até que um dia numa escala noturna passei em um bairro da periferia e esse meu aluno ao ver a viatura veio correndo gritando “polícia, polícia”, eu parei a viatura e ele, ao me ver, disse “eu sabia que a senhora cuidava da gente aqui na rua também” (me emocionei). Ele prontamente me chamou pra conhecer sua casa, eu desci e quando entrei na casa desse anjo, ele me puxou pela mão me levou até um canto do único cômodo da casa e me disse: professora é aqui que eu faço a tarefa da escola Na casa não havia cama, não havia energia elétrica, só umas velas acesas, não havia geladeira, só um fogão velho, uma caixa com alguns alimentos e nesta casa não havia contra piso, ele fazia sua tarefa no chão. Entendi nesse momento o quanto aquele canto era importante pra ele, entendi o porquê dos cadernos sujos de terra, entendi nesse momento que quem faz a vida melhor somos nós mesmos, nós somos os únicos responsáveis por nossas escolhas. Uma outra história que fez diferença em meus dias foi quando uma equipe da Força Tática prendeu em flagrante um ex-aluno PROERD, o mesmo estava exaltado, nervoso, agressivo, depois de um tempo eu parei do lado da viatura e ele me reconheceu, baixou os olhos e me disse que eu havia dado aula de PROERD para ele, mas que fazia tempo. Eu perguntei porque ele estava nessa vida e ele respondeu que ainda se lembrava de tudo o que eu havia dito, mas que na casa dele todo mundo vivia “essa vida”, e que ele não conseguiu ser diferente. Eu me senti importante ali, naquele momento, porque eu vi que o PROERD havia deixado uma semente do bem no coração dele, mas que ele não teve forças para ser diferente. Enfim, foram tantas histórias, tantas consultas agendadas com médicos e oftalmos, tantas “vaquinhas” entregues aos professores e às vezes diretores para ajudar os pais de alguns alunos a pagar a conta de água e de energia, tantas cestas básicas, tantas armações de óculos pedidas e doadas por outros policiais... 
O que te leva a dizer que esse programa é um sucesso e que a luta contra as drogas vale a pena após 18 anos? 
O Programa PROERD, foi criado em Los Angeles no ano de 1983 pelo D.A.R.E. América e chegou ao Brasil no ano de 1993, ao longo desses anos formou em média 9.420.039 crianças (nove milhões, quatrocentas e vinte mil e trinta e nove crianças) no Estado de São Paulo. O Programa passou por algumas atualizações, mas o currículo Caindo na Real foi projetado com base na teoria de aprendizagem Socioemocional (Socio-Emotional Learning Theory – SEL) a teoria SEL identifica as habilidades básicas e fundamentais no aprendizado e desenvolvimento do indivíduo. O PROERD trabalha com o que há de mais moderno na formação dos nossos jovens, acreditamos que isso resultará em escolhas mais responsáveis, para nossos jovens tomarem decisões mais seguras e responsáveis. O PROERD vale a pena porque é um Programa de Prevenção, e já existe uma pesquisa mundialmente conhecida a qual nos diz que cada 1 (um) dólar investido em prevenção, traz um retorno 10 (dez) vezes maior que o investimento que seria feito na sua recuperação. Aqui no Brasil o investimento para cada aluno incluindo o Livro do estudante, o certificado PROERD e a Medalha PROERD para o aluno destaque sai por apenas R$1.00 (um real). É um investimento muito baixo em prevenção para os resultados positivos a qual o PROERD nos traz. 
Quando encontra com algum jovem que passou pelo PROERD na infância  e agora envolvido com droga, como se sente? E qual, geralmente, é a reação deles ao encontrar quem lhe disse para evitar o mundo das drogas?
Quando me deparo com jovens que foram meus alunos, me sinto triste, mas também sei que não vou conseguir fazer com que todos os alunos façam boas escolhas, porque não depende só de mim, a família precisa trabalhar junto, pois o caráter e a dignidade serão inseridos nos exemplos do dia a dia. Muitos deles, não têm coragem de me olhar nos olhos quando abordados, outros se sentem constrangidos, outros dizem “a senhora avisou”, por esse motivo eu sei que o PROERD foi importante.
Tem o outro lado da moeda, de jovens que contrariam todas as expectativas e são exemplos?
Com certeza, tenho um aluno da segunda turma de PROERD, onde pai, mãe e irmãos foram todos presos por cometimento de crimes como tráfico e homicídio, e ele mesmo com todos esses exemplos negativos sempre foi um aluno interessado nas aulas do PROERD e da professora também. Para que não fosse levado para o orfanato, foi morar com tios em Minas Gerais e esse aluno continuou os estudos e hoje é Policial Federal. Por isso acredito que cada um pode fazer a diferença e traçar seus objetivos em busca de dias melhores.
Quando começou no PROERD, a internet e o computador não faziam parte da rotina das crianças. Hoje elas têm o mundo da tecnologia no celular. A luta contra as drogas ficou ainda mais desigual?
Não diria desigual, mas a tecnologia deixa tudo muito mais atraente, o que chama mais a atenção e desperta a curiosidade. No início realmente não tínhamos a tecnologia que existe hoje. Chego na sala de aula e tem alunos que questionam sobre alguma droga que eu ainda não ouvi dizer, tenho aluno que diz ter lido um artigo o qual eu ainda não tive tempo de ler. As informações chegam em tempo real e é necessário estar atualizada para suprir as expectativas dos alunos. Mas, em contrapartida a tecnologia tem seu lado sombrio, é necessário estar atento ao que nossos jovens estão compartilhando ou curtindo.
Neste sentido o PROERD se adequou à nova realidade?
Sim, com certeza. Hoje nossas aulas PROERD do currículo Caindo na Real, são aulas com apoio visual, temos vídeos relacionados às nossas aulas e tratamos assuntos atualizados dando ênfase em deixar o aluno tomar suas decisões, ao longo das aulas nós direcionamos os alunos para que sempre tomem as decisões mais seguras e responsáveis.
Tem percebido que as drogas têm chegado cada vez mais cedo à vida dos adolescentes?
Sim, infelizmente temos notado que nossas crianças e adolescentes estão tendo contato mais cedo com as drogas. Também acredito que seja por conta da educação permissiva que alguns pais estão dando para os filhos. Vejo com tristeza que muitos pais e ou responsáveis preferem que o filho ou filha fique na rua do que dentro de casa. E lá na rua com certeza nossos jovens não terão tantas coisas boas assim para tomarem como exemplos. Nós responsáveis precisamos nos dedicar mais aos nossos filhos, fazê-los ver que são importantes para nós e que podem sim contar conosco nos momentos de dúvidas, somos pais precisamos agir como tal. Temos que ser amigos, porém se faz necessário que saibamos agir também como pais, precisamos orientar e às vezes punir, e isso não nos torna ruins, mas não podemos esquecer que somos responsáveis por deixar filhos educados para o mundo. O fato de sermos amigos não pode interferir no tipo de educação que vamos oferecer a eles.
Conta um pouco de sua carreira militar. O que te levou a escolher ser Policial Militar?
Eu tive uma infância feliz, tenho pais maravilhosos que “desde sempre” me diziam que a única coisa que poderiam dar para nós era o estudo até o 3º Colegial, meu pai sempre dizia que seria bom trabalhar em serviço público. Quando terminei meu terceiro colegial, não tinha condições de fazer faculdade, então saí da casa de meus pais para trabalhar. Foram dias difíceis, mas sempre tive o apoio de tios e tias maravilhosos, que me ajudaram muito, os quais sou eternamente grata. Depois de algum tempo trabalhando vi uma faixa dizendo sobre o concurso para “Policiais Femininos”  fiz a inscrição e fui passando por todas as fases do concurso, e cá estou com meus 20 anos de serviços, feliz com o que faço. 
O preconceito ainda inibe as mulheres na carreira militar?
Com certeza sim, aqui em Fernandópolis não temos um batalhão machista, trabalho com policiais masculinos os quais sempre me respeitaram. Mas tive dias difíceis. Como mulher temos que provar o tempo todo o quanto somos capazes, o quanto somos fortes, temos que esquecer muitas vezes que somos emoção e agirmos pela razão. Não acredito que somos vistas como sexo frágil, temos o mesmo treinamento que os policiais masculinos, ganhamos o mesmo salário, enfrentamos a mesma batalha diária e ainda temos que conduzir nossa casa, nossos filhos, nossa vida pessoal, nossos estudos. No trabalho somos profissionais, às vezes até nos esquecemos de que estamos com cólicas, ou que o filho está doente, ou que estamos com febre, mas parte disso não tem relação com a vida policial, nós mulheres precisamos estar sempre prontas pra ajudar os outros, não porque somos fortes o tempo todo, mas porque vemos que muitas vezes se nos deixarmos abater outras pessoas cairão conosco. Eu amo ser mulher e amo minhas escolhas.
Qual o sentimento que teve move como policial militar neste momento em que a violência atinge a própria polícia?
O sentimento que me move, é o sentimento de esperança. Por mais difícil que esteja estou sempre acreditando que no próximo amanhecer as coisas vão se acertar e que vamos poder seguir em frente. Estamos na linha de frente para proteger a sociedade e por vezes o confronto é inevitável. O que me assusta na verdade é ver pessoas de bem deixando-se corromper por comentários e ações negativas de outros. Tem uma frase que eu gosto muito de citar e que cabe ao que penso hoje: “PARA QUE O MAL TRIUNFE, BASTA QUE OS BONS NÃO FAÇAM NADA -  Edmund Burke”.

 

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