“Não vamos ‘psiquiatrizar’ a vida”

OBSERVATÓRIO - 20:26:10
Éder Marquezini
“Não vamos ‘psiquiatrizar’ a vida”

Um dos maiores nomes da psiquiatria forense do Brasil, o médico Dr. Guido Arturo Palomba, esteve em Fernandópolis para uma palestra na regional da APM - Associação Paulista de Medicina. O tema instigou muita gente a desafiar a chuva, na noite de sexta-feira, 19: “A historia da loucura, da antiguidade aos dias atuais”. Dr. Guido, como diretor cultural da APM  está peregrinando pelo estado levando essa palestra para as regionais paulistas. Em entrevista ao CIDADÃO, além de fazer uma abordagem do tema da palestra, o médico tratou de uma polêmica que ele denominou de “psiquiatrização” da vida. “Hoje se dá antidepressivo para tudo,  para parar de fumar, engordar, emagrecer, para criança, adulto, idoso, para tensão pré-menstrual, o que é um absurdo, na minha maneira de entender”, disse com todas as letras. Chamou atenção também para o perigoso exagero da vida virtual. “Não se fala em fazer uma troca do mundo real pelo virtual, mas é preciso não esquecer que o mundo real existe e ele é lindo e maravilhoso”, alertou. Veja a entrevista: 

Sobre o tema da palestra “A História da Loucura, da antiguidade aos dias atuais”, o que mudou no conceito sobre a loucura?
Mudou tudo. É uma transformação imensa por várias épocas. Tratamos na antiguidade, quando o homem se vê diante de uma pessoa doente mental, de um louco, vamos dizer assim, pela primeira vez, mas não sabia o que era. Como ele tratava o individuo? Tratava como uma possessão demoníaca. Na Idade Média, essa ideia de possessão demoníaca acabou. Mas, o que era então? Naquela época, eles tratavam o doente mental como uma pessoa que não dava para o trabalho, insubordinada. Eles ficavam presos junto com prostitutas, doentes venéreos e criminosos comuns, etc. Mas, isso também acabou. Chega então a fase da medicalização da loucura, quando a doença mental vira doença mental. E por fim, a época atual, que eu acho uma época absolutamente decadente. Hoje, nós enfrentamos a decadência da psiquiatria, de maneira especial da forma de ver o doente mental. Existe um excesso, em excesso, do uso de psicofármacos, de remédios psiquiátricos. Hoje se dá antidepressivo para parar de fumar, para engordar, emagrecer, para criança, adulto, idoso, para tensão pré-menstrual, o que é um absurdo, na minha maneira de entender. Houve uma substituição da psiquiatria europeia, bem estabelecida, bem elaborada, para uma psiquiatria americana, mercantilista, das indústrias farmacêuticas que querem vender remédios. É um momento grave pelo qual passamos.
O senhor é especializado em psiquiatria forense. Como se define se o acusado de um crime é ou não um doente mental?
É simples para o especialista, da mesma que é simples para o cardiologista dizer que aquele individuo está tendo, por exemplo, um infarto do miocárdio. É uma especialidade médica como outra qualquer. Há uma série de procedimentos, de técnicas que são usadas para saber o que aquele indivíduo tem. No fundo, um exame psiquiátrico completo, de todas as esferas mentais: pensamentos, sentimentos, intuição, percepção, memória, inteligência, planos para o futuro. É também feito uma história da vida pregressa daquele individuo, como ele é, como nasceu, como se desenvolveu, qual o grau de ligação com os familiares, se tem agressividade, se tem criminalidade precoce, e até mesmo o histórico familiar do individuo entra, porque muitas vezes tem doenças hereditárias degenerativas e isso  ajuda o perito a formar um juízo de certeza. E uma coisa muito importante: eu costumo dizer que todo crime, sem exceção é uma fotografia exata e em cores do comportamento do indivíduo, que fornece dados psicológicos que são elementos importantes para que se chegue à conclusão pericial articulando o que podemos dizer de “discurso médico” com o “discurso jurídico”.
O senhor falou do aspecto hereditário da doença mental. Podemos dizer que existe uma espécie de gatilho que em algum momento da vida pode ser disparado e detonar essa loucura? 
A doença mental, propriamente dita, a pessoa nasce com ela e vai desenvolver um dia, dependendo dos gatilhos. A doença mental é como se fosse uma potencia que o indivíduo carrega na sua estrutura orgânica. E ele vem a ser doente mental, dependendo desses gatilhos, como vivências dolorosas, meio em que está inserido e assim por diante. Agora, existem algumas que são tão poderosas que, por menor que seja esse gatilho. ela vai se desenvolver.
O que levou a optar pela psiquiatria forense?
Eu me formei em 1974, ou seja, vou fazer 43 anos de formado. São quatro décadas que eu trabalho diuturnamente e exclusivamente em psiquiatria forense. Costumo até dizer, brincando, que entre uma amigdalite e uma tíbia fraturada eu sei que uma está da cintura prá baixo e a outra da cintura prá cima. Mas, a minha área, modéstia a parte, eu conheço, porque gosto, me dedico, faço com muito amor. Nesse tempo são muitos os casos que atendi. Parei de contar, quando escrevi o livro “Tratado de Psiquiatria Forense - Civil e Penal”, o primeiro em língua portuguesa, que eu tive privilégio de ter escrito. Quando parei de contar eram 13 mil laudos redigidos. Muitos casos se repetem, não o indivíduo, mas a patologia, são semelhantes, mas as vezes tem casos extremamente inusitados. Eu vou falar uma coisa: eu ainda não vi tudo na psiquiatria forense, falta muito pra ver. Eu estou sempre me surpreendendo com coisas que me chocam.
O Juqueri ficou sendo a imagem decadente do tratamento de doentes mentais no Brasil. O senhor viveu uma parte desse tempo em que os chamados “loucos” eram depositados no Juqueri? 
Primeiro, o Hospital de Juqueri em Franco da Rocha foi o farol da psiquiatria brasileira. Ele é de 1894. Ele foi pioneiro na laborterapia, mas nas décadas de 70 e 80 ele passou por um momento em que o descaso governamental com os doentes mentais foi uma coisa absurda. Não havia dinheiro para roupa, para comida e virou um depósito de doentes mentais, chegando a ter 13 mil internados. Não era só o Juqueri, os outros hospitais psiquiátricos também tinham esse problema. Praticamente o doente mental foi abandonado. Ele não votava, não tinha família, era improdutivo, então, praticamente, foi abandonado. Eu, particularmente, tenho uma vivência muito boa no Hospital de Juqueri. Fui trabalhar não como terapeuta, talvez seu tivesse trabalhado como terapeuta, a minha decepção seria imensa de ver os pacientes naquela situação, mas eu fui trabalhar no Manicômio Judiciário, onde estavam os doentes mentais criminosos. Então pude aprender muito da psiquiatria forense. 
Como poderia ser definido o perfil do doente mental criminoso e do não criminoso?
Apenas uma única diferença: um cometeu o crime. A doença é a mesma, a mesma esquizofrenia que dá no doente mental criminoso, dá no doente mental não criminoso. 
Aí vem a pergunta: porque um delinquiu e o outro não? Cada caso é um caso, não dá para generalizar. O estudo do individuo tem que ser bio-psico-sócio-cultural. Dentro desse contexto nós vamos saber essa resposta. Porque coloco o cultural? Porque muitas vezes um crime, ou comportamento, que é até tolerado no norte do Brasil, não é no Sul e isso é cultural. 
Quem apresenta um distúrbio mental está sendo adequadamente tratado?
Quero fazer uma pequena observação. As pessoas “normais”, provavelmente vão continuar normais ainda que elas possam ser inadaptadas, ansiosas, deprimida e tal. A maioria vai continuar “normal”. Alguns vão ser doentes mentais, porque eles carregam a doença. Eu não vou virar doente mental por uma vivência dolorosa. Eu posso ficar neurótico, deprimido, etc., mas doente mental, não. Se eu não tiver potencia para ser um doente mental eu jamais vou ser. O que eu poderia dizer: evitem o máximo possível ficar tomando esses remédios psiquiátricos, porque remédio psiquiátrico é feito para louco, não é para pessoa normal que está problemática. O problema é uma coisa absolutamente natural. Se morrer um cachorro na casa da gente e não nos deprimirmos, alguma coisa está errada. A depressão, as angústias, até certa agressividade, isso tudo é normal. Procuremos não “psiquiatrizar” a vida. Porque a vida é muito boa. Qual que é o melhor tratamento que existe para as nossas “neuras”? Exercícios físicos, descanso, dormir bem, se alimentar direito, evitar excessos. Em vez de tomarem pílulas dadas em grande profusão para parar de fumar, dormir, engordar, emagrecer, prá tudo se dá antidepressivo, é muito melhor, em vez de tomar isso nestas circunstâncias, bem dizendo, fazer exercício físico, ir numa academia, correr, andar, nadar. Isso faz bem, porque está oxigenando, está aliviando as tensões. Então, digo isso, com muito respeito: antes de procurar um psiquiatra veja se (o problema) não é solucionável de uma forma mais natural. 
Nós também estamos “virtualizando” a vida? Isso preocupa?
Olha, é claro que houve uma mudança extraordinária nessas últimas décadas. Há poucas décadas não se tinha essa forma de comunicação, como temos hoje. É uma mudança, repito, extraordinária do modo de ser. E claro, há excessos. Há ganhos e há, nestes excessos, grandes prejuízos. Os prejuízos com o mundo virtual ainda não estão sendo mensurados. Eles começam a aparecer no psiquismo, a mostrar qual é a periculosidade desse tipo de mundo. Eu tenho certeza que na sequência, serão estudadas medidas para que as pessoas acabem não tão ligadas ao mundo virtual, por um único motivo: porque o outro mundo, o mundo real, também existe. Aqui não se fala em fazer uma troca do mundo real pelo virtual, mas é preciso não esquecer que o mundo real existe e ele é lindo e maravilhoso. É muito interessante quando nos vamos hoje assistir a um espetáculo, seja qual for, pode ser teatro, música ou um jogo, você olha para a plateia e está todo mundo filmando. Então, ninguém está assistindo o real, ele está vendo por meio de uma telinha que interpôs entre ele e a realidade. Eu acho que isso não é sadio. Mas tenho impressão que esses excessos, porque é um mundo novo, deve ter uma regressão para um patamar, vamos chamar, de mais natural.

VEJA TAMBÉM


Costa Azul turismo
ga('send', 'pageview');