“Eu amo Fernandópolis”

OBSERVATÓRIO - 20:14:34
“Eu amo Fernandópolis”

A declaração de amor é da pedagoga, com especialização em Psicologia da Aprendizagem, Laura Maria Borges Mapelli. Aos 82 anos ela viveu neste mês um momento de grande alegria na Escola Líbero de Almeida Silvares, quando participou da entrega de um trabalho restaurado de pesquisa realizada, sob o seu comando, por alunas da turma do 1º Ano de Administração Escolar em 1970, há 47 anos. Foi uma oportunidade de reencontro com as “meninas” da época e a alegria de ver um rico trabalho de pesquisa que estava se perdendo, totalmente restaurado e que agora está disponível  na Escola Libero de Almeida Silvares para consultas. “Francamente, senti vontade de chorar”, confessou nesta entrevista ao CIDADÃO onde diz, entre outras coisas, que tem sede de aprender e se alegra quando descobre algo novo. Tem também sede de viver e conta com os amigos “eternos” para lutar e vencer um câncer. “Estou aguardando o resultado e se o médico me liberar vou pular de alegria”, anuncia. Diz isso, porque tem uma missão pela frente: organizar mais um, o décimo, Bazar da Volfer. E já anuncia: será o bazar. Sobre o amor incondicional a Fernandópolis, cidade que escolheu para viver ainda solteira, ela divide com o marido, o coronel reformado da Polícia Militar, Benedicto Vicente Mapelli. Veja a entrevista: 

Na última semana a senhora participou de um evento na EELAS sobre a restauração de um trabalho que realizou junto com alunas na década de 70. Como surgiu a ideia de restaurar esse trabalho e devolvê-lo à escola?
Surgiu da  própria necessidade, porque o trabalho guardado há anos estava em frangalhos. Nós procuramos quem poderia fazer a restauração e ninguém aceitava. Fomos então, pedir as bênçãos para o César, Glenda e Patrícia (Grupo Scandiuzi de Comunicação) e eles acolheram com muito carinho, muita vontade de acertar. A gente sabia que era o primeiro e único trabalho aqui na cidade que contava a história de Fernandópolis em 1970, não de acontecimentos políticos e alguma coisa mais. Mas, retratava assim, o que era Fernandópolis. Quantas ruas tinha, como estava um determinado bairro, se havia várias atividades, se chegavam novas famílias, enfim, nós conversamos bastante com as meninas (alunas) antes de começar o trabalho com a turma do primeiro ano de Administração Escolar. Perguntei se elas topariam o trabalho, não queria impor. Era um convite que fazia para que elas aprendessem a descobrir fatos e, de fato, descobriram uma porção de coisas, formaram amizades, ganharam muitas fotos, porque o trabalho tem muitas fotos e foi uma experiência que, nenhuma das alunas que se propuseram a trabalhar, reclamou. Sempre chegavam com uma novidade, agora tinha dia que chegavam murchinhas, sem ter alguma informação interessante. Mas, só levantar informações do que era Fernandópolis naquela época não bastava, eu sempre queria saber mais, se alguma pessoa procurada tratou-as bem, se houve algum problema, pedia a elas para contarem o que aconteceu. Eu sorteava algumas aulas para trabalhar essa pesquisa, para conversar com elas e saber tudo. E sempre tinha informações superinteressantes. Elas ficaram sabendo de onde vinha, por exemplo, uma família. Se veio de Nova Granada, de Palestina, de Votuporanga, de Tanabi, ou de várias cidades à volta, porque tinha aqui uma escola como a EELAS e os pais queriam que os filhos estudassem aqui. Uns com muitas dificuldades, outros menos. Na pesquisa, elas conversaram muito com descendentes de portugueses e japoneses que estavam chegando aqui para começar a vida. Elas até brincavam que eles falavam de um jeito que não se entendiam. É um trabalho rico de pesquisa com dados reais da época. 
O resultado final desse trabalho, então, surpreendeu a senhora? Quando lançou esse desafio não imaginava que se chegasse a esse resultado? 
Não, porque aqui ninguém tinha feito nenhuma pesquisa. Eu tenho outra  pesquisa também muito interessante sobre as lojas de Fernandópolis. Deve estar em uma caixa, uma hora qualquer vou mexer. Eu acho mais interessante do que essa. Ela foi feita bem depois desse que foi restaurado que é de 1970. Esse das lojas foi posterior, é um trabalho menor, mas muito interessante, porque consta a primeira lojinha de Fernandópolis. 
No dia da entrega do trabalho restaurado na Escola EELAS, qual foi o sentimento que aflorou ao ver um trabalho de 47 anos sendo devolvido à escola devidamente restaurado?
Olha, francamente, o que senti foi vontade de chorar. A opção que fiz de profissão sempre foi dar aula. Eu gosto, sempre tive facilidade em sala de aula. Meus melhores amigos aqui em Fernandópolis são ex-alunos, médicos, advogados e tantos outros. Quando me veem, vem com carinho, coisa que fico tocada. A hora que vi esse trabalho, a Wanda Lima já tinha me descrito como estava fazendo muitos elogios à Patrícia (Grupo Scandiuzi) que foi a dona da reforma. Ficou um trabalho de arte que pode ser consultado na EELAS. 
Foi a oportunidade de a senhora rever algumas das “meninas” que fizeram esse trabalho?
Foi e eu falei pra elas que o trabalho serviu para muita coisa. É claro que tinham aquelas que não gostavam muito da sala de aula. Não falei isso na reunião, porque achei que seria indelicado. Mas na hora do chá, particularmente eu brinquei com elas. Falei que era um aprendizado e que elas aprenderam mais que eu. Eu fico muito feliz com isso, porque elas estavam no começo da vida e eu já estava no meio. Eu pedi a elas para irem a minha casa, trocar ideias e sou capaz de inventar algum trabalho ainda. Até desafiei se elas topariam. Mas, primeiro vou me curar, ver se Deus me dá esse privilégio de me curar. Porque eu quero aprender. O Mapelli sempre brinca comigo que tenho uma ânsia de aprender. Olha, na Folha de São Paulo de dias atrás saiu um artigo do Cony (Carlos Heitor Cony) fazendo a critica da política atual, da corrupção e do ostracismo. Naquele dia fiquei tão contente, porque descobri a origem da palavra ostracismo. Eu conhecia a palavra ostracismo, sabia o significado,  mas era curiosa pela sua origem. E não é que ele, no artigo, descreve tudo isso, falando da origem de muitas coisas vindas da Grécia e que a palavra ostracismo vem de lá, porque teve uma revolução e eles pegavam ostras e escreviam o nome de quem deveria ser mandado embora da Grécia. Ficou como sendo ostracismo o significado de pessoa que tem sair fora de uma situação. Recortei o artigo e esperei o Mapelli para discutir essa descoberta. Então, eu tenho sede de conhecer as coisas, gosto muito. E isso eu passei para muitos alunos, não só dessa turma, como de outras. Acho que o saldo desse trabalho foi muito bom.
A senhora era formada em Pedagogia, mas também gostava de Sociologia?
Eu fiz um curso de Pedagogia sui generis, porque terminando o curso eles ofereceram mais dois anos com especialização em Psicologia da Aprendizagem, e que poderia até usar o nome de Psicólogo Infantil. Eu fiz, mas nunca falei que era psicóloga, isso não me interessava, Interessava era cuidar das crianças e eu comecei assim. Quando eu me casei eu estava muito interessada em Sociologia, porque gostava de fazer pesquisa de público grande. Eu tinha tido uma experiência durante a faculdade (USP) quando uma professora pediu uma pesquisa audiovisual nas escolas de São Paulo e fiz o trabalho em quatro meses. A Sociologia me ajudava a entender muitas coisas. Eu gostava muito de um autor chamado Durkheim que tenho até livros deles. Comecei a ler, comecei a fazer um mestrado, mas eu estava casada e grávida e não deu. Mas no curso de Pedagogia, como tinha uma matéria com várias aulas semanais de sociologia, consegui o registro disso. Estudei muito por minha conta. Eu tenho muitos livros, que ninguém quer nem faculdade, nem biblioteca, nem escolas. Eu tenho livros esgotados, raros. Quem pegava muitos livros comigo era o Dr. Fernando Jacob. Eu inclusive dei um para ele, mas me arrependo tanto, porque ele queria outro e é um livro raríssimo e não quis me dispor dele na época, mas deixei-o à vontade para pegá-lo quando quisesse. Hoje me arrependo, antes tivesse dado o livro ao Dr. Jacob. Tinha muitos livros de sociologia e discutia muito com o Dr. Jacob, porque ele era uma pessoa que entendia muito, era um estudioso, gostava de ler. Eu aprendi muito assim, catando as coisas. Esse curso que fiz com especialização em psicologia infantil era um dos mais importantes do estado. Dai dois anos após nós terminarmos essa especialização, o governo cortou porque as psicólogas estavam bravas com isso, porque elas diziam que era área delas e não das pedagogas. Mas é o contrário, porque é o pedagogo que tem que lidar com as crianças. Eu lecionei em São Paulo no Padre Anchieta e lá trabalhei com crianças. E tinha uma psicóloga, Vera Lagoa. Ela foi uma professora importantíssima de psicologia em São Paulo. Me deu um apoio, me ajudou muito, me orientou. 
A senhora também é presidente da comissão de eventos da Volfer (grupo de voluntários da Santa Casa) e daqui a pouco tem o bazar. O que a senhora já está pensando para esse evento?
Eu acho que não vou ter muita coragem de continuar trabalhando nisso. Lá na Santa Casa eu vou conseguir, mas o Bazar dá muito trabalho e tem pouca gente que gosta de fazer. Eu quero fazer nem que for o último, mas já avisei, quero fazer aquele bazar, se Deus quiser. Eu ainda não conheço esse grupo de pessoas que está liderando a Santa Casa hoje. Eu preciso ir lá para conversar. Estou esperando um resultado de exames que tenho que levar para Rio Preto onde faço tratamento pra ver o que o médico me fala. Se ele me liberar eu saio pulando de alegria e vou direto para a coisa que eu tenho que fazer. Já falei para o Mapelli que pedi a Deus que me dê forças, mas eu vou fazer sim. Eu fiz nove bazares. Esse vai ser o décimo, se Deus quiser...
Como Fernandópolis entrou na sua vida?
Eu sou de Rio Preto e eu tinha um cunhado e um irmão, que era dentista, em Votuporanga. Um dia, esse meu irmão que era o mais velho e me chamava de Laurinha, porque eu sou a caçula, imagine só caçula com 82 anos, perguntou se eu não queria ir trabalhar em Votuporanga ou ali por perto em alguma cidade. Eu perguntei: Alcino quais são as cidades? Ele me falou os nomes e eu disse que queria vir para essa que se chamava Fernandópolis, assim de cara, parece que estava destinada pra isso. Eu amo Fernandópolis, não quero mudar. Minha família, o que resta, está em Rio Preto. Eu tenho um sobrinho que está muito bem, é um sobrinho do coração, é o filho mais velho desse meu irmão, ele já é avô e na última vez que estive em Rio Preto, ele foi me ver onde eu faço a quimioterapia e fez uma proposta: Tia, eu sei que para o Mapelli vai ser difícil, mas a senhora como é toda maleável vai conseguir convencê-lo. Vou contar, é um segredo. Ele ofereceu uma casa muito boa, em um condomínio, sem cobrar aluguel. Eu respondi a ele: Sinval eu só saio daqui no caixão. Não mudo de Fernandópolis. O meu único filho está aqui, meus netos estão aqui. Meus amigos todos estão aqui. Olha, se eu não tivesse o apoio de amigos, como tive nesse meu câncer, acho que não ia aguentar. Eu venho de uma discite, dengue, um infarto total e depois veio o câncer, tudo seguido, em quatro anos, um atrás do outro. Então se eu não tivesse o apoio de amigos, que, como diz o Chico Xavier (é espirita) amizade é uma coisa eterna. Eu digo que os meus amigos são eternos. Eu estou rodeada de amigos, não tem aonde vou que não encontro ex-alunos ou filhos de ex-alunos que falam minha mãe, meu pai foram seus alunos, então me dá uma alegria muito grande, porque me recebem muito bem. Eu contei para o Mapelli sobre a proposta do meu sobrinho e ele perguntou: e você? Quer dizer, a mensagem era, se você for eu fico. Isso é impossível. O Mapelli é uma ótima pessoa, ele é muito fechado e tem cara de milico, mas tem um coração aberto, muito preocupado com as pessoas. Agora mesmo ele falou que estava sobrando cobertores e levou para agasalhar várias famílias nesta época de frio. A Maria Papa lá da Santa Casa os médicos dizem que o Mapelli é o campeão em levar  gente para a Santa Casa. Ele tem um grande coração.

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