Com o rádio no sangue e na alma

OBSERVATÓRIO - 19:27:56
Com o rádio no sangue e na alma

Quando Jorge Sposito Ribeiro falou pela primeira vez a um microfone, sua voz saiu em falsete. Pudera: ele tinha apenas 11 anos de idade. Filho de Moacir Ribeiro, pioneiro do rádio fernandopolense – inaugurou a Rádio Cultura, nossa primeira emissora, em 14 de agosto de 1955 – Jorge seguiu os passos do pai e comanda a emissora, com toda dedicação possível. Casado com Mirian, pai de Stella e Daiane, avô coruja da pequena Bianca, Jorge nasceu em Monte Aprazível, vindo garotinho para a cidade que a família adotou. Nesta entrevista, o radialista fala, entre outras coisas, da migração das emissoras de ondas médias (as AM) para o sistema de Frequência Modulada e o que isso poderá representar no futuro. E fala, claro, da magia do rádio, sem dúvida a mais fascinante de todas as mídias. 

Você veio para Fernandópolis com quantos anos?
Com dois anos de idade. Vim em 1955, o ano em que a Rádio Cultura foi inaugurada. Meu pai comprou o terreno da rádio ali onde hoje fica o Rolim Acessórios. O terreno pegava o quarteirão inteiro, porque rádio AM tem que ter radiais, então da torre até o radial tinha 50 metros.
Seu pai, Moacir Ribeiro, era mesmo um homem rígido, como contam os fernandopolenses mais antigos?
Sim, meu pai foi mesmo um homem rígido, porém muito amoroso. Ele gostava das coisas certas, tanto na rádio quanto na família ou como provedor da Santa Casa de Misericórdia. O velho não aceitava meio-termo. Agora, quando você levava uma bronca – que para ele não era bronca, era ensinamento – ao mesmo tempo você via nos olhos dele que havia carinho, não raiva. E, se minutos depois você precisasse dele para alguma coisa, podia tranquilamente contar com seu apoio.
Ele tinha a dimensão real de sua condição de pioneiro da radiofonia em Fernandópolis e região?
Com certeza. Era muito difícil conseguir as coisas naquela época. Tanto que ele pegou dinheiro emprestado com o Padre Nunes, do colégio de Monte Aprazível, para vir montar a emissora em Fernandópolis, a Rádio Cultura. Ele já era inspetor da Rede Piratininga de Rádio, e nessa condição comandava 22 emissoras. Montava as torres, e tal. Com essa experiência, montou a Rádio Cultura. Mas antes disso, já tinha uma rádio, em Barra do Piraí, que era dele mesmo. Não deu muito certo e ele foi trabalhar com o Miguel Leuzi, que era um político, foi deputado.
Fazer rádio naquele tempo era uma verdadeira aventura, não? Você deve se lembrar do episódio do avião que, já anoitecendo, teve que desviar de uma chuva forte e acabou sobre Fernandópolis, cujo aeroporto não era iluminado...
Na verdade, isso aconteceu pelo menos duas vezes. Eu fui testemunha disso. Meu pai recebeu um informe via rádio amador e foi para o microfone da rádio chamar os fernandopolenses que possuíssem automóvel para que fossem ao aeroporto iluminar a pista com os faróis dos carros. Como a audiência da rádio, naquele tempo, era muito grande, muitos carros da cidade iluminaram a pista e o piloto desceu são e salvo. Tempos depois, aconteceu outro episódio bastante semelhante a esse. Naquele tempo, o rádio tinha uma força muito grande.
Qual era o perfil do profissional de rádio daquela época?
O radialista era um verdadeiro “coringa”: tinha que saber fazer de tudo. Tinha que montar o aparelho, às vezes esticar o fio até o local da transmissão, e tal. Terminado esse serviço, trocava de roupa, colocava um terno, coisa praticamente obrigatória na época. Não havia essas brincadeiras de hoje, tipo “Pânico”. Deus me livre! Se o profissional errasse uma hora certa que fosse, ficava roxo de vergonha.
Nessa era pré-televisiva, a audiência era fantástica, especialmente à noite, horário hoje dominado pelas novelas e telejornais. Você ocupou durante muito tempo esse horário na Cultura. Como sentia o chamado “retorno” do público?
Engraçado que em Fernandópolis esse horário de pico ia só até as 22 horas, porque nessa hora desligavam o gerador que fornecia energia elétrica para a cidade. Aí, tudo ficava às escuras. Esse motor ficava onde hoje está a Sabesp. Aí, só no dia seguinte...
As rádios eram a ponte entre muitas pessoas, prestavam vários  vários para os ouvintes. Você pegou o tempo em que choviam cartas na portaria da emissora, não é?
Ah, sim, peguei boa parte disso. Vinham pedidos musicais, solicitação de transmissão de recados para parentes e amigos que estavam no campo, etc. Às vezes as pessoas vinham pessoalmente à portaria da rádio.
Antes do êxodo rural, havia um público radiouvinte muito grande no campo. Os produtores levavam em conta esse público?
A programação de AM sempre foi bastante variada. Tinha futebol, basquete, desfiles cívicos, solenidades, cobertura de solenidades, de eleições. Rapaz, as apurações duravam dias! Eram urna a urna, voto a voto. Hoje, aperta-se um botão e em 30 segundos sai o resultado do país inteiro. Prosseguindo: tínhamos radionovela, fossem as da Kolynos, com produção de elencos de São Paulo, fossem as nossas, com elenco local. Toda semana, a gente tinha que ir a São Paulo para trocar a fita com os novos capítulos, porque o correio não era tão rápido. Na produção local, nossos atores eram o Anésio Pelicioni, o Matinê, a esposa dele, Divinei Bozeli, que escrevia as novelas, a Rosana, filha deles, o Alcides Corsini, o João Miotto, eu, Edison Ribeiro, o Marcos Alberto...o Marcão era um grande artista, uma vez ele escreveu uma novela chamada “Luar do Sertão”, totalmente voltada ao homem do campo. Fazia muitas vozes, na escolinha da Rádio Educadora ele fazia todos os alunos!
É verdade que você, quando falou no rádio pela primeira vez, tinha voz de criança?
Mas eu era criança. Com 11 anos, comecei a fazer locução mesmo. Era complicado ter gravador de comerciais naquele tempo, então as propagandas tinham que ser lidas de tempo em tempo. Quando vinha um comercial de São Paulo, tipo pilhas Ray-o-Vac, Melhoral, a gente ficava todo “cheio de si” para ler o texto. Uma vez, eu tinha que ler ao vivo o comercial da Lisboa, que era a patrocinadora do programa, e me deu soluço. Tive que pedir desculpas aos ouvintes, mas eu tinha que ler o comercial. Li, soluçando, mas cumpri a obrigação. Essa coisa de fazer ao vivo dava muito episódio folclórico. Aqui na Cultura mesmo, houve um capítulo de novela em que o texto dizia “Ai, ai, não, doutor” e a atriz leu “Aí, aí não, doutor”. (Risos)
Nos anos 80, Fernandópolis entrou na era das FMs, e a Cultura, por uma questão de dias, acabou sendo a primeira emissora de frequência modulada. Como foi isso?
Na mesma época em que Darci e César reivindicaram a Rádio Jornal, nós pedimos a Cultura FM. Um dia, o saudoso João Leone escreveu em seu jornal que em Fernandópolis já era possível ouvir FM, se referindo a uma emissora de Araraquara, que pegava muito mal, mas pegava aqui na cidade, de vez em quando. Eu, do meu lado, e o César e o Darci, do lado deles, lemos a matéria e aquilo mexeu com a gente. Fomos atrás das concessões nas mesma época, tanto que os prefixos são 913 e 914. Saíram juntas, no mesmo Diário Oficial. A gente já possuía uma boa estrutura das partes de áudio e montagem, então logo estávamos em condição de botar a rádio no ar. Eles marcaram a inauguração para o dia 22 de maio, dia do aniversário da cidade. Então, no dia 21, eu pus a rádio no ar...
Você e sua esposa fazem um trabalho de decoração natalina já há alguns anos, atraindo o público para o prédio da rádio, especialmente as crianças. Como isso começou?
Minha filha Daiane, quando via o caminhão da Coca-Cola passar todo iluminado tocando músicas de Natal, corria atrás e ficava emocionada. Pensei: “se ela gosta tanto disso, mais gente deve gostar”. Resolvi fazer essa decoração. Gosto muito do Natal, do ambiente familiar, da reunião das pessoas de quem a gente gosta. A emoção do Natal é diferente.
Agora estamos em tempos de migração do sistema AM para a frequência modulada, a FM. Particularmente, o que você acha disso?
Isso deveria ter acontecido há muito tempo, pela qualidade de som. O ouvinte tem hoje bons equipamentos em casa, no carro. O AM perdeu muito público por causa disso.
E do ponto de vista econômico?
Acho que não é ruim, porque o ouvinte que exige qualidade de som vai voltar para o AM, porque quer ouvir notícias, informações.
O comércio e a indústria conseguirão dar suporte publicitário a tantas emissoras que estão surgindo, inclusive em cidades pequenas, que de repente começarão a vender anúncios nas cidades de maior porte de sua respectiva região?
 Mas sobrará pouco espaço para ele na cidade maior, porque lá ele encontrará maior concorrência das emissoras que já estão instaladas. Ele terá que se contentar com o mercado da cidade pequena por menor que seja. Se uma rádio de uma cidade de 10 mil habitantes tenta entrar no mercado de uma cidade de 70 mil, que porém tem 10 emissoras, será que é vantagem?                  
E a qualidade da programação, do jornalismo, das coberturas, não vai cair?
Acredito que não. Hoje há faculdades formando bons profissionais.
O que faz do rádio um veículo tão charmoso, capaz de sobreviver a tantas novas mídias?
O rádio é aquele amigo. Aquele amigo que fica pendurado. Pode haver poucos cabos de enxada, mas ainda existem. Ainda tem muita dona de casa que trabalha ouvindo o rádio. Tem o sitiante que ouve o rádio enquanto ordenha as vacas. O rádio estará sempre falando ao pé do ouvido de seu ouvinte, como um eterno amigo. É um veículo rápido e um antídoto à solidão.
Zuza Homem de Mello, programador musical da Jovem Pan, é chamado de “o homem que tem música nas veias”. E você, tem rádio nas veias?
Tenho rádio e tenho música, já tentei comer alpiste pra ver se ficava afinado (risos). Gosto muito de música, e quanto ao rádio, nem precisa dizer. Valeu a pena, não me vejo sem estar dentro de uma rádio. Fiz muitos amigos, recebi muito carinho. Faria tudo de novo.

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