O afinador de vozes

OBSERVATÓRIO - 21:09:01
O afinador de vozes

Aprovado no concurso público realizado pela prefeitura em 2015 para o posto de maestro, Sandro Muniz, 30 anos, chegou a Fernandópolis e lançou um desafio: montar o Coro Municipal. Um ano depois, ele diz ter orgulho do trabalho iniciado. O Coro já faz apresentações públicas e está avançando etapas. “Contamos atualmente com 40 cantores ativos já muito melhores do que eram até o ano passado. Inclusive, olhar para trás me enche o coração de gratidão”, diz. Nesta entrevista ao CIDADÃO conta detalhes desse trabalho que precisa juntar as vozes, trabalhar a afinação e timbragem, para alcançar a sintonia adequada do grupo. Isso requer tempo, treino e dedicação. E para quem acha que sua voz não tem salvação, melhor ler a entrevista até o fim. Com o Coro adulto em processo de evolução, Muniz já quer iniciar um novo desafio: montar o coro com crianças e adolescentes. Veja a entrevista: 

Após cerca de um ano em Fernandópolis, já está adaptado à cidade? O que mais o atrai por aqui?
Sim, o processo de adaptação foi bastante tranquilo, inclusive, acredito ser muito mais fácil se adaptar às condições do interior que às condições da capital.
O projeto do Coro Municipal é o seu primeiro trabalho em Fernandópolis. Do início até hoje, qual a avaliação que faz?
O Coro Municipal foi um sucesso desde o início. O coro teve aproximadamente 3 meses de preparação e capacitação e mais uns 4 meses de ensaios para as apresentações no final do ano. Tínhamos entre 25 e 30 cantores neste período. O coro conta atualmente com 40 cantores ativos já muito melhores do que eram até o ano passado. Inclusive, olhar para trás me enche o coração de gratidão! Sou grato em primeiro lugar a Deus, que muito honrou meu trabalho por aqui, sou grato a ex-secretária de cultura (Dayse Duran), que, como pôde, me deu todo o apoio na fase inicial. Sou grato aos coristas e aos amigos que fiz por aqui, que me deram tanto crédito e acreditaram em meu trabalho.
Como é o trabalho de juntar vozes de diferentes timbragens para a formação de um Coro?
O canto coral pressupõe a divisão de vozes. Embora pareça complexo, dividir vozes é como aprender a caminhar ou andar de bicicleta, é penoso e descoordenado no início, a afinação é escorregadia, às vezes fica aquém, às vezes passa e fica acima, mas o entrosamento das vozes vai se tornando orgânico e intuitivo aos poucos. É preciso que a pessoa vivencie a prática musical, inserida em um grupo para que entenda o que chamamos de afinação e timbragem e que fazer tudo isso corretamente não basta. Cantar afinado, com entrosamento e em plena sintonia com os demais cantores é apenas a mecânica musical em ordem. Música é o passo seguinte nesse processo. O coro atualmente recebe aulas de teoria musical, justamente para que o aprendizado não seja entregue exclusivamente ao empirismo, mas que a ciência musical guie e conduza a prática de maneira consciente.
Como seleciona as vozes? Tem algum relato de pessoa que achava ter a voz feia e hoje brilha no coro?
Até o momento, praticamente não tem havido seleção. Foram abertas vagas para um grupo preparatório. Esse grupo preparatório, aula a aula foi tendo seus integrantes migrados para o grupo principal na medida em que foram se encontrando capazes. Não pretendo mais abrir grupos preparatórios. Os futuros coristas possivelmente ingressarão por processo seletivo. Eu sempre digo que toda voz é feia até que se torne bela! O mesmo se aplica aos instrumentos. A diferença é que no instrumento nós persistimos, persistimos porque conhecemos o som que o instrumento é capaz de produzir por mais feio que esteja soando em nossos primeiros momentos de aprendizado. Infelizmente nós não acreditamos que nossa voz feia pode transformar-se. Eu vi melhora em todos os meus coristas, uns transformaram-se mais, outros menos, mas o coro deste ano está irreconhecível frente ao mesmo grupo no final do ano passado.
O Coro de Fernandópolis já está em que nível, na sua avaliação? Quando se dá o amadurecimento musical do grupo?
O coro ainda é misto e ainda amador. Temos cantores que cresceram muito e outros com crescimento menor. Temos muitos cantores recém ingressados no grupo (cantores vindos do coro preparatório). Apesar da heterogeneidade, a qualidade está em ascensão. O grupo, que até o ano passado só cantava cânones e canções simples a três vozes, hoje canta músicas a 4 vozes, com nível de dificuldade intermediário à avançado e está prestes a concluir a preparação de 3 concertos de temáticas distintas. Preparem-se! Vão ouvir muito o nome de nosso coro no segundo semestre!
Qual a repercussão desse trabalho na vida das pessoas? O que mais te impressionou até agora?
O que posso relatar é a assiduidade e comprometimento do grupo tem aumentado significativamente. O índice de desistência no Coro de Fernandópolis é baixíssimo. A rotatividade também tem reduzido. Alguns já me relataram que estão muitos contentes com o grupo e pelos amigos que fizeram. Tenho famílias completas cantando no coro, um foi trazendo o outro! Eu acredito que isso seja reflexo de uma atividade que têm se mostrado saudável a esses músicos.
Agora você já iniciando o projeto do coro infantil. Como será a condução desse projeto?
Assim como o coro adulto, o coro infantil terá caráter predominantemente artístico, uma porta de entrada para o desenvolvimento e o despertar da aptidão musical com o aprendizado voltado diretamente para a prática do canto. O intuito é a formação de um grupo infantil de prestígio artístico.
Lidar com vozes ainda em formação é mais trabalhoso?
Criança tem voz de criança. Chamamos tecnicamente de voz branca. Existe uma literatura enorme tratando da técnica vocal nessa idade. Totalmente saudável e recomendável. O coro infantil é uma prática comum ao redor do mundo, inclusive com coros infantis tradicionais e renomados. Mas a pergunta é pertinente. Evita-se trabalhar a parte vocal de adolescentes por conta da muda vocal. Neste estágio, a voz realmente está instável e em constante transformação. É possível o trabalho com coros juvenis, mas é necessária uma escolha cuidadosa do repertório e uma abordagem correta da técnica vocal.
Qual a contribuição desse projeto na formação dessas crianças e adolescentes?
A contribuição na formação dos jovens é imensa. Diversos estudos já apontaram a melhora na concentração, coordenação motora, melhora no trabalho cognitivo, maior envolvimento social, entre outros. Entretanto, todos esses benefícios são consequências inevitáveis do contato do indivíduo com a música e, entendendo que tais características são inerentes à pratica musical, ensinaremos exclusivamente música. É um grande engodo buscar aprender música pelos benefícios cognitivos, principalmente porque o intuito não será aprender música e sim ter os benefícios intelectuais. O ensino musical geralmente tem muitos momentos chatos e difíceis. Chatos e difíceis justamente porque estão criando naquele que insistentemente a pratica a coordenação que antes não havia. Logo, somente o ensino musical sério, intensivo e extensivo proporciona os tais benefícios de músico. Pessoas que desejam as características desenvolvidas pelo com contato com a música sem o real desejo de ter um profundo contato com a música, tendem a substituir aquilo que cansa, mas desenvolve pelo que é fácil e agradável. Não se engane! Tocar uma música ritmicamente elaborada desenvolve a coordenação motora e desperta as atividades cognitivas. Ouvir, apreciar ou reduzir o aprendizado musical a um repertório elementar não desenvolverá nada.
Já se trabalha a possibilidade de juntar o Coro em uma apresentação com a Orquestra de Sopros?
É possível sim! Seria super legal! Tenho aos poucos aproximado o contato com o regente da orquestra de sopros, inclusive, preciso mostrar-me mais útil para a orquestra. Creio que não demorará.
Qual é o seu sonho em Fernandópolis?
Muitos! Mas prefiro falar dessas pretensões na medida em que elas vão se tornando factíveis.

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