“Voltei da morte e vou celebrar a vida”

OBSERVATÓRIO - 19:09:13
“Voltei da morte e vou celebrar a vida”

Ezequiel Veríssimo de Mendonça se considera um sobrevivente e já decidiu que neste domingo, Dia dos Pais, ao lado dos filhos Fernando e Paula, da nora e do neto Caio, vai celebrar a vida. Aos 59 anos, esse administrador de empresas e psicólogo, já viveu experiências inimagináveis para um ser humano. Em um curto espaço de tempo, cerca de dois anos, foi submetido a dois transplantes de órgãos: de fígado e de rim. Entre um e outro transplante teve de encontrar forças para sepultar a esposa, Elisa Deúngaro de Mendonça, que morreu vítima de câncer de mama. Ezequiel concedeu entrevista ao CIDADÃO e fez  um relato impressionante dessa batalha pela vida que começou  no dia 11 de setembro de 2013. Uma história de muitos capítulos, alguns não explicados pela ciência. “Minha idade é 59 anos, mas posso dizer que tenho 2 anos e 2 meses, porque no dia 12 de junho de 2015 eu ressuscitei pela primeira vez. Eu entrei em coma nível 4 e eles (os médicos) disseram que não tinha retorno. Mas eu voltei”, relatou. Sobre o que viveu nestes últimos anos diz com tranquilidade: “Foi um milagre. Humanamente a ciência não explica”. Por isso, apesar das cicatrizes que sobraram dessa jornada, esse evangélico (frequenta a igreja Adventista Boa Semente) não perdeu a fé. Veja a entrevista: 

Como será o seu Dia dos Pais neste domingo?
Vai ser um dia de muita reflexão, um dia para comemorar o que conquistei, o que meus filhos conquistaram. Evidente que nós temos o que comemorar e o que prantear. Mas a gente prefere pensar na comemoração. Os prantos nós pranteamos bastante e agora é hora de comemorar. Vamos comemorar a vida, afinal de contas, no transplante do ano passado, do fígado, eu fui a óbito na hora do transplante e quando se falou em transplante de rim, eu não, mas meus filhos, a família, ficaram muitos preocupados, porque ia passar pelo mesmo processo. E os médicos chegaram à conclusão que o que me levou a óbito foi a anestesia geral e não teria jeito de fazer o transplante sem a anestesia geral. Mas, eu fui tranquilo para o transplante, fui dirigindo até São Paulo naquela sexta-feira, chuvosa, 19 de maio, cheguei ao hospital, fui para o quarto, ia fazer diálise para depois fazer o transplante, mas não precisou. Fui para o transplante e após 12 horas de UTI fui para o quarto. Então tive um sucesso tremendo nesse segundo transplante. Graças a Deus deu tudo certo. Então domingo, Dia dos Pais, será um dia de comemorar isso, a vida de novo. 
Quando você fala em comemorar a vida, essa experiência significa para você o renascimento?
Isso. Minha idade é 59 anos, mas posso dizer que tenho 2 anos e 2 meses, porque no dia 12 de junho de 2015 eu ressuscitei pela primeira vez. Eu entrei na quarta-feira, dia 8 de junho de 2015, em coma nível 4 e eles (os médicos) disseram que não tinha retorno. Nível 4 é uma questão de tempo, só esperar morrer. E quando foi no dia 12 de junho, 5h50 da manhã eu dei um pulo na cama, dei um Glória a Deus e disse, quero tomar banho, estou com fome. E estou aqui.
Essa data que você se refere é do primeiro transplante?
Sim. Eu fui para Montes Claros (MG) para fazer o transplante do fígado. Fiquei lá sete meses esperando. Três fígados apareceram para mim, mas não serviram. Portanto eu precisei ir para São Paulo e acabei fazendo o primeiro transplante no dia 24 de janeiro de 2016. Até o dia do transplante, eu fui a óbito três vezes. Então eu tenho muito que comemorar no Dia dos Pais.
Veio o segundo transplante?
O segundo transplante se deu agora no dia 19 de maio, três meses atrás. Foi o transplante do rim. Foi muito tranquilo, não teve uma intercorrência, não tomei uma gota de dipirona. Faço os retornos em São Paulo sozinho (esta semana voltou a São Paulo no retorno de rotina no Hospital Alberto Einstein). Por isso, estarei com meus filhos, minha nora, meu neto neste Dia dos Pais e vou comemorar a vida.
Em que momento você começou a enfrentar essa batalha pela vida?
Esse momento se deu em 11 de setembro de 2013. 
Até essa data sua vida era normal?
Extremamente normal, não conhecia hospital a não ser para visitar alguém. Não conhecia leito de hospital. Não sabia o que era dor de cabeça, não tinha quebrado um dedo. Não tinha nada, nada. Era uma quinta-feira, a esposa (Elisa) chega em casa, após a aula na faculdade (era professora de Nutrição Funcional). Ela chegou, me viu no sofá, foi ao quarto, voltou e disse: você está com problema de fígado. Não estava sentindo nada. Ela então me alertou que os sinais, barriga grande e perda de peso (havia perdido 7 quilos) eram de quem tem problema de fígado. Marcamos o médico e veio o diagnóstico: cirrose. Começou aí minha batalha.
E porque a cirrose?
Sem causa, é a cirrose criptogênica. Em torno de 2% da população que tem cirrose é acometida por esse tipo. A ciência ainda não descobriu o motivo. Não é nada do que provoca a cirrose. Sem causa.
Nesse período de 2013 até agora, foram dois transplantes e coma nível quatro. Hoje quando se olha no espelho, sabendo que precisou da ajuda de duas pessoas que doaram fígado e rim para você, como se sente?
Na verdade eu precisei da ajuda de duas famílias, porque foram elas que tomaram a decisão de fazer a doação. Então é assim, além desse coma nível quatro em junho, ainda em Montes Claros, no dia 16 de setembro eu tive falência múltipla de órgãos, fui desenganado. Às 5 horas da manhã eu dormi e quando foi 11 e pouco eu acordei do jeito que estou agora, bom, tudo voltou a funcionar normalmente. Os médicos não souberam explicar. E isso foi no dia que recebi a notícia que ia ser avô. Meu filho estava lá para me dar à notícia. E no dia do transplante, duas horas e meia de cirurgia, eu fui a óbito na mesa. Os aparelhos pararam todos. Teve o processo de ressuscitação, fizeram todo o procedimento e não voltei. Desistiram, não tinha mais o que fazer. E quando iam avisar a família, as máquinas voltaram a funcionar. E eu estou vivo.
Qual seria a explicação que você, como religioso, como psicólogo, consegue para o fato de você estar aqui hoje, após todos esses episódios relatados?
A explicação é simples: é um milagre. Humanamente a ciência não explica. Se fosse um ateu eu teria que acreditar do mesmo jeito, que seria um fenômeno. Como humano, quando não se quer mexer com religião, a gente diz que é um fenômeno. A gente sabe que todo fenômeno transcende o que é humano. E se transcende é porque é de Deus. Então não tenho dúvida que as três vezes que fui a óbito e voltei, que para a medicina não tem explicação, para mim é a certeza de que Deus me poupou nas três vezes. Eu estou aqui por um milagre. Mas, eu não tinha medo de morrer. Quando eu transplantei o fígado, disseram que eu tinha fígado para cinco dias. Apareceu o fígado e eu estava em sétimo lugar na fila do SUS. Não sei por que me colocaram em primeiro. Eu fui ao mais profundo do abismo, no vale de sombra da morte, e voltei. Para quem crê é isso, um milagre, para quem não crê, também tem que ser, porque a ciência não explica o que ocorreu comigo.
Nesse período, a partir de 2013, você teve ao seu lado uma pessoa que lutou muito com você, a sua esposa. Só que no momento da vitória ela não está com você...
... (interrompendo) Pois é, pois é... A esposa, eu uso chamá-la de a Mulher da Bolsa, a Mulher do Jaleco Branco. Lá em Montes Claro, a Santa Casa é enorme, uma burocracia para entrar. Ela levou o jaleco, o crachá, se inscreveu como nutricionista e entrava no hospital na hora que queria, levava comida especifica pra mim. Ela morou um ano sozinha, dando aula, cuidando das empresas e me visitando a cada 15 dias.  Foi uma coisa maluca, uma mulher que lutou, que superou tudo por mim. E nós voltamos pra casa no dia 26 de abril do ano passado para comemorar. Mas, já tinha a constatação de um câncer de mama. Com quatro meses eu precisei sepultá-la. Foi uma perda insubstituível. Eu posso recomeçar a vida, mas jamais para substituí-la. Eu perdi 100% de tudo, tenho que recomeçar do zero. Elisa era uma mulher plena em tudo. Quem a conheceu diz a mesma coisa. Nunca a internei em 42 anos de convivência, a não ser para ganhar os dois filhos. Eu vi minha mulher no leito de um hospital um dia antes de morrer (se emociona...)
Você se julga um sobrevivente?
Sim, eu sou um sobrevivente. Eu passei pela morte, então sou um sobrevivente. Eu digo a você: nunca tive medo da morte, mas nunca quis morrer. Isso psicologicamente, e ai vem a questão da profissão, ajuda muito. Eu nunca me entreguei, nunca decai. Quando não queria nada, não era porque estava deprimido, não, era porque não tinha forças físicas. Eu perdi 22 quilos sem ser gordo. Fiquei pele e osso. Fora que a minha fé nunca se abalou, nunca questionei, nunca fiz uma pergunta a Deus: Senhor, por que isso? Não, nunca fiz, sempre aceitei e pensava, se Deus está vendo tudo isso, estou em paz, estou seguro.
Qual foi a frase que você mais ouviu neste período?
Das pessoas que ouvem a resenha da minha vida, o que mais ouvi, dezenas de vezes: vai passar. 
E você acredita nisso?

Claro, porque se eu quiser vai passar, se não quiser, vai passar. Por que a vida passa. Agora, não acredito, não creio e não aceito que passe do jeito que está. Na minha história eu tenho Deus e na minha história Deus vai me dar a graça de entender um pouco dela. Não precisa ser tudo, um pouco só...
Como você analisaria a sua relação com Deus?
Amizade plena com Deus. A minha fé nunca aumentou com os meus problemas, mas também nunca diminuiu. Desde menino tenho fé plena em Deus. Não questiono, não fico bravo com Deus, não fico nervoso, aborrecido com ele. Eu com Deus temos uma amizade plena, perfeita...
Para as pessoas que estão lendo essa entrevista e conhecendo um pouco de sua história, porque aqui é apenas um recorte, e se achando no fundo do poço, o que diria a elas?
Primeiro, procurar saber por que entrou. Toda história tem um principio, tem um por que. Então, sem sabermos o que é que nos levou onde estamos, nós ficamos perdidos, entramos em depressão, fazemos loucuras, nos revoltamos com a sociedade, com o governo, com Deus, conosco mesmo. A primeira coisa que devemos fazer quando estamos em dificuldade, não importa que nível, é procurar saber o que nos levou a isso. Eu tenho convicção onde estava e porque fui. Por isso não me abalo, porque sei que a minha história é minha, é uma guerra, de muitas batalhas, mas essa guerra eu não desisto dela, porque é espiritual. 

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