Ansiedade, o mal dos tempos modernos

OBSERVATÓRIO - 18:12:45
Ansiedade, o mal dos tempos modernos

Considerada por especialistas como um mal dos tempos modernos, a ansiedade vem, de forma rápida e impiedosa, tomando conta do Brasil e do mundo. Subestimado por décadas, esse transtorno mental pode inviabilizar a vida social e a profissional, mas poucas pessoas buscam tratamento para aliviar os sintomas antes que cheguem ao limite. Esse limite foi experimentado pelo padre/cantor Fábio de Melo. Domingo no programa Fantástico da TV Globo ele espantou sua legião de fãs ao revelar ter a síndrome de pânico. Essa síndrome é uma das variáveis dos chamados transtornos de ansiedade, diz o psiquiatra fernandopolense Dr. João de Lima Stefanini, nesta entrevista ao CIDADÃO. Ele concorda que a ansiedade é o mal dos tempos modernos. “Hoje não existem mais as famílias que compartilhavam as refeições, que rezavam juntos, que conversavam mais. Hoje as famílias dispersaram”, diz o médico. “Ninguém é culpado disso, é apenas uma estrutura social. Mas, entendo que a situação atual, a modernidade, facilitou muito os transtornos de ansiedade e, portanto, os transtornos de pânico acontecem com frequência e a síndrome aparece”. Veja a entrevista:


Tendo como exemplo o caso do padre Fábio de Melo, o que leva uma pessoa tida como equilibrada, espiritualizada, a desenvolver a síndrome do pânico?
Bem, qualquer ser humano, independente de seu grau cultural, espiritual, social, financeiro, está sujeito a esse tipo de situação. De repente ele é invadido por um estado de pânico surpreendente. Ele mesmo não sabe o que está acontecendo, mas a sensação é de que algo muito violento vai acontecer, que vai ter um infarto, por exemplo, um derrame, vai enlouquecer, ou vai desmaiar. Essa sensação é muito assustadora porque a pessoa não esperava por ela. Ai ele procura recursos, vai ao médico e constata que sua saúde está boa, não tem alteração, o coração, pressão, está tudo bem. Mas, o que vai caracterizar o nome “síndrome do pânico” é que dali pra frente ele passa a temer sair de casa, ou temer ir a certos lugares, temer coisas que ele não temia antes. Ir ao cinema, à missa, ao teatro. Ele passa a ter receio de que aquilo volte a acontecer. Esse medo de repetir aquilo é que chamamos de “síndrome do pânico”. A palavra síndrome a gente usa sempre por algo que tem um acontecimento e muitas causas possíveis. Por exemplo, uma síndrome nefrótica, eu tenho uma doença do rim que tem várias causas. No caso é a síndrome do pânico, porque a gente não sabe bem quais são as causas, mas o fato é que ele teve aquela crise. Então, passa a ser síndrome, porque ele não sabe de onde veio, como apareceu, ele fica assustado com a vida e procura uma ajuda religiosa, ou ajuda médica, mas no final observo sempre que ele vai procurar um médico que faça uma prescrição para ele se sentir melhor.
A estabilização após um quadro de síndrome do pânico se dá apenas através de uma ação medicamentosa ou pode se dar através de outras terapias?
Quando falamos de síndrome do pânico sempre vamos falar de medo. O medo é um estado mais conhecido, mas quando ele não é conhecido a gente chama de pânico. O medo está ligado a um problema de ansiedade. Então a pessoa vai tendo ansiedades frequentes e essas crises podem aumentar e a medida que isso ocorre, pode a pessoa entrar em estado de pânico. Tem as fobias, que são medos específicos (lugar fechado, rato, barata, etc) e tem o medo que não é específico, algo como quero ficar perto de gente, onde me sinta protegido, mais seguro. Essa pessoa está propensa a ter um ataque de pânico, com sudorese, às vezes a pessoa fica sem saber o que fazer, não consegue nem andar. Quando o médico prescreve os medicamentos específicos, geralmente são tranquilizantes e hoje também usamos os antidepressivos ele se sente mais seguro. Mas, certamente essa pessoa deveria procurar uma ajuda psicológica também para esclarecer porque essa ansiedade é tão alta. Ele deve ter razões internas que a gente deve procurar ver se consegue descobrir. Então são os psicólogos, os psicoterapeutas, os psicanalistas que tem essa capacidade, são preparados para tentar entender o que se passa na mente ou intimo daquela alma sofrida. O psiquiatra é mais usado para medicações. Acho importante saber que é um estado de medo e medo é muito associado ao estado de ansiedade. 
O senhor tem mais de 40 anos de experiência na área psiquiátrica e hoje se fala que a ansiedade é o mal dos tempos modernos.  O senhor concorda?
Plenamente, ansiedade é o mal dos tempos modernos. Se a gente observar um bebê  quando nasce, ele é um ser muito frágil, totalmente dependente e se deixarmos ele ao tempo, ele simplesmente morre. Precisamos cuidar dele, alimentá-lo para que se desenvolva e caminhe. Mas, toda a vez que a pessoa se vê numa situação de desamparo, de incerteza, ele vai entrar em medo. Então, o medo é um processo que nos acompanha a vida inteira, digo isso, porque em qualquer situação que nos ameace, o medo se instala como defesa. A gente se prepara. Os tempos modernos mudaram muito a maneira de viver. Hoje não existem mais as famílias que conviviam, que compartilhavam as refeições, que rezavam juntos, que conversavam mais. Havia um ambiente melhor preparado para dar sustentação àquela criança que estava iniciando a vida o que contribuía para a formação de uma mente com mais segurança, porque pais seguros passam isso para a criança. E hoje em dia, o desenvolvimento tecnológico e as situações econômicas fizeram com que as famílias dispersassem muito, as mães passaram a trabalhar fora, os pais continuaram trabalhando mais. Houve uma mudança muito grande na formação da família. Casa-se com facilidade, se separa com facilidade, troca-se de família fácil, então a criança fica toda atrapalhada, sem formar sua própria identidade. Hoje está muito solto e com isso não se forma uma personalidade bem estruturada. Essa situação, que ninguém é culpado, é apenas uma estrutura social, faz com que muitas pessoas, não formando bem essa parte, estão sujeitas a ter esses momentos de pânico. Não digo todas, porque tem uma estrutura genética por trás que protege muito as pessoas, mas tem as pessoas que não tem uma boa estrutura genética, não tem uma boa estrutura sociofamiliar, que são mais propensas a ter esses problemas. Entendo que a situação atual, a modernidade, facilitou muito os transtornos de ansiedade e, portanto, os transtornos de pânico acontecem com frequência e a síndrome do pânico aparece. 
Pesquisa da OMS aponta que 33% da população mundial sofrem de ansiedade. Se a gente aplicar esse índice na população de Fernandópolis é dizer que 23 mil pessoas sofrem desse mal. É exagero afirmar isso?
De forma alguma, senão for maior esse índice. Pelo meu trabalho, pela minha vivência, penso que vai a 50% os transtornos de ansiedade. Já trabalhei em Centro de Saúde, Santa Casa e constato que o número de pessoas ansiosas é muito grande. Nem todos têm pânico, têm crises, não é isso. Mas pessoas ansiosas são o que mais vejo hoje em dia, irritadas, mal humoradas, agressivas, insatisfeitas. A gente vê pelas queixas. O ser humano é muito queixoso, queixas físicas ou queixas psíquicas. Isso é sinal de que não está dentro de uma ansiedade suportável, está além. 
Dentro desse processo de ansiedade, em que momento o gatilho pode disparar e levar a pessoa para uma síndrome do pânico, por exemplo?
É uma pergunta interessante e oportuna. Nós não temos essa referência. Penso que isso está ligado ao preparo de cada pessoa. Sempre falo: pais tranquilos, filhos tranquilos. Se crio uma criança bem estruturada, sem a minha ansiedade, meus medos, essa criança vai ter um gatilho difícil de disparar. Ao contrário, esse vai ter um gatilho mais baixo, que vai disparar com maior facilidade. Não é um gatilho do cérebro, é um gatilho do estado psicológico do ser humano. O ser humano que realmente foi bem estruturado na infância, que é o nosso alicerce, esse gatilho talvez nunca dispare. Mas, quando esse alicerce por alguma razão, a gente chama de falhas ambientais, não ficou bem organizado, esse gatilho vai disparar com mais facilidade por pequenas coisas. Pessoas inseguras são mais propensas a ter ataque de pânico.
Quem está mais vulnerável a esses episódios de ansiedade que podem gerar essas consequências?
A gente nota isso nas crianças e nos idosos. O adulto tem mais recurso, não é uma regra absoluta, mas encontro mais pessoas jovens com crises de ansiedade e mais idosos, quando eles vão sentindo a idade mais avançada, vem o medo de ficar sozinho, o medo da morte. Mas, isso depende muito da estrutura que falamos. As mais jovens e os idosos são mais sujeitas às crises de ansiedade. Entre os adultos, por exemplo, isso pode ocorrer quando a pessoa, por exemplo, perde o emprego. É muito comum numa situação assim, entrar numa crise de pânico. 
As pessoas hoje investem muito na saúde do corpo, as academia estão lotadas. Mas, nós estamos cuidando das nossas emoções?
De forma alguma. Tenho observado que o mundo hoje está muito narcísico, há uma preocupação muito grande com a aparência, com a beleza e com fachada, mas o interior, certamente, poucas delas têm ele bem estruturado. São compensações, mecanismos de compensar situações de sentimento de imaturidade ou de medo, insegurança, de coisas que ele tem que esconder. Então, a pessoa vai construir uma fachada, ou seja,  mostrar o corpo para se impor. Mas, isso não tem sustentação, porque vejo muitas pessoas com boa estrutura física, bonitas, tanto faz moças ou rapazes, mas o interior é frágil. Essa busca de uma estrutura física é uma tentativa daquela mente se fortalecer, mas é enganoso. Fortalece o biológico, mas o psicológico está frágil.
A medicina atua hoje na prevenção. Neste caso  tem como prevenir uma síndrome do pânico?
Quando falei que acho as pessoas muito narcísicas, veja bem, a palavra narciso não quer dizer só beleza, mas é um estado em que a pessoa se sente assim com centro das atenções, quer as coisas ao jeito dela, só quer ouvir coisas que quer ouvir. São pessoas que criam uma estrutura narcísica que se não for assim elas não aguentam viver. Ela precisa se sustentar em cima disso até como mecanismo de defesa.  Vejam quantas pessoas em cargos importantes, fazendo sucesso, tomam seu antidepressivo, seu calmante, escondido. Uma pessoa bem estruturada não precisa dessas coisas. Ele é prático, objetivo, faz as coisas, é participativo, ele pratica uma atividade física para se manter saudável e sente bem com diferentes companhias, conversações. As pessoas narcísicas ficam sempre se colocando num patamar acima. As pessoas mais humildes são as mais fortes.
Após a repercussão do caso do padre Fábio de Melo, o que senhor diria às pessoas que ficaram espantadas com o caso?
É necessário conhecer a pessoa na intimidade para entender porque esse processo ocorreu com o padre Fábio de Melo e antes, com o padre Marcelo Rossi, que não é igual, mas está na mesma linha, ou como o cantor Roberto Carlos  que tem o problema do TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo - e nunca resolveu bem isso. Mas isso não tira o brilho, o valor da pessoa, a arte que eles têm. Mas, têm essas fragilidades. Acho  que a sociedade não precisa se preocupar muito com isso, porque infelizmente as pessoas sempre têm a esconder suas dificuldades , temores e fraquezas, ou seja, tendem a acobertá-las e não deixa-las aparecer. Mas, isso pode aparecer para qualquer um de nós. Então o caso do padre Fábio de Melo é mais um de tantos que já tomamos conhecimento de cantores, atores, jogadores, em situações parecidas. Acho isso, não como uma questão de doença, mas apenas de pessoas com suas angustias guardadas e que de repente afloram e não dá para segurar. Não temos que nos comparar a ninguém. Só é preciso entender que essas coisas podem ocorrer com qualquer pessoa, independente da condição socioeconômica, cultural ou espiritual. 

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