Quando se nasce no corpo errado

OBSERVATÓRIO - 21:22:24
Quando se nasce no corpo errado

A novela “Força do Querer” da Rede Globo levou para dentro dos lares brasileiros uma discussão que, muitas vezes, esbarra no tabu e preconceito: a transexualidade. Na novela, a personagem Ivana não aceita o próprio corpo e demonstra dificuldades para inserir-se no mundo feminino. Ela se sente homem. Apesar do sucesso da novela e do recorde de audiência, pessoas ainda “torcem o nariz”, evitam o contato, fugindo da conversa, acreditando tratar-se de modismo. 

Em Fernandópolis, a psicóloga Lídia Simões Moita está montando workshop sobre sexualidade e o conteúdo será: Gênero, Identidade Sexual, Heterossexualidade, Homossexualidade, Bissexualidade, Transexualidade, Travestilidade e Intersexualidade. Nesta entrevista ao CIDADÃO, Lídia diz que o projeto se destina  “a qualquer pessoa que queira saber como funciona a diversidade humana. Aos pais que querem entender os filhos e os amigos deles, aos jovens que querem entender porque se sentem tão diferentes, aos professores que não sabem como lidar com seus alunos, aos médicos que não sabem o que dizer para os seus pacientes, ao comerciante que não sabe se deve empregar uma travesti”. 
Em meio ao turbilhão provocado pela novela, Lídia vê um cenário otimista pois acredita que a visibilidade traz muitos benefícios. “Precisa trazer informações corretas a respeito da sexualidade. Informação pode evitar desde uma gravidez precoce a um ataque homofóbico”. Veja a entrevista: 


Temas sobre a sexualidade, antes escondidos, hoje estão sendo discutidos na sala de casa, em uma novela. Como avalia isso?
Com muito otimismo. A visibilidade traz muitos benefícios. Precisa trazer informações corretas a respeito da sexualidade. Informação pode evitar desde uma gravidez precoce a um ataque homofóbico.
Já se falou de gays, travestis, bissexuais, mas a transexualidade é uma novidade na TV. O que diferencia um transexual dos demais?
A transexualidade nada tem a ver com a orientação sexual (quem você deseja). Para falarmos de transexualidade precisamos falar de identidade de gênero. Ser macho (ter pênis) não significa ser homem, ser fêmea (ter vagina) não significa ser mulher. O conceito de feminino e masculino (homem e mulher) são construções sociais. Opera no sentir, na mente, na psique. O transexual nasce no corpo errado. Pode ser um homem aprisionado em um corpo de mulher (como no caso da novela), a pessoa é homem, pensa como homem, mas está no corpo errado. Pode acontecer também com mulheres que nascem em corpos de homens. Gera muita angústia, existe uma inadequação entre corpo e mente que precisa ser corrigida. 
A novela da Globo, ao fazer essa abordagem, desmitifica o assunto?
A novela da Globo informa, e desconstrói a ideia de que se trata de uma perversão, da tal da “falta de vergonha na cara”. Ivana é uma menina (na verdade um menino) que sofre desde criança, que se sente inadequado, que não pode amar livremente, que não pode vestir o que gosta que não se sente bem no seu corpo. Mostrar o caminho dolorido que uma transexual percorre até poder ser quem é muito importante. Essa representatividade derruba preconceitos e precisamos disso.
Esses casos envolvem adultos, mas como lidar com a questão  na infância ou adolescência? 
 A pessoa nasce no corpo errado. Desde criança ela já sabe como se sente. Muitas vezes se cala, muitas vezes sofre repressão. Existem inúmeros relatos de crianças que sofreram violência em casa porque os pais e irmãos não queriam que elas fossem o que são. Temos uma sociedade muito fechada em relação a sexualidade, ainda trazemos verdades do século XVIII. Quando se pensa em sexualidade o corpo manda na mente. Ainda existe o discurso que sexo só pode ser feito para procriação. Ainda negam o desejo. Então imagina o trabalho que é fazer com que uma pessoa entenda que alguém pode nascer com pênis e não ser homem? E a criança nem desejo sexual têm e já sabe como se sente. A criança sofre também.
Os casos que estão ganhando repercussão estão fora da curva, social e culturalmente falando. Na base da pirâmide, como esse tema é tratado e discutido?
Existe ainda muito preconceito e desinformação. A novela da Glória Perez ajuda muito. Porque as pessoas evitam até de pensar no assunto  E quando acontece na novela são obrigadas a digerir a informação. Mesmo pessoas com curso superior se fecham quando assunto é sexualidade. Ainda existe muito tabu, muito preconceito e crenças religiosas que dificultam que a informação chegue às casas. Outro dia fui dar uma palestra para o público LGBTI de Fernandópolis, um projeto bacana do CREAS (Projeto Arco Iris) e lá teve gente que perdeu trabalho quando a foto do projeto saiu na imprensa. Ainda vivemos isso.
E a família, entre a atitude ideal e a real. Qual o tamanho dessa distância?
Sempre a informação. A família que busca ler, estudar, conhecer do que se trata, ela insere o filho na diversidade. A criança cresce sem o preconceito. Agora a família que evita assuntos ligados a sexualidade, que não busca informações, que já vem com uma verdade construída e imutável, a tendência é que exista uma barreira enorme e que os ataques de violência contra a diversidade sejam estimulados. E um homossexual, um transexual, um travesti, um intersex não pode escolher a família que vai nascer.  Brad Pitt e Angelina Jolie tem um filho transexual, nasceu em corpo de menina e desde que perceberam foi criado como menino. Essa criança desconhece a dor de ser transexual, mas não está ilesa de conhecê-la nas ruas.
Como fica o papel da escola para lidar com estes casos, em meio a um turbilhão de problemas?  
Deveria ter um programa de Orientação Sexual nas escolas. Já existe um programa de mestrado na UNESP de Araraquara em Educação Sexual. Mas não conseguimos fazer com que a sociedade perceba a importância de um programa assim. Muitas vezes os pais acham ruim quando a escola leva um educador sexual para bater um papo com as crianças, enxergam como se estivéssemos lá pra estimular a criança a ter uma vida sexual. A malícia está na cabeça deles. Questões religiosas também são obstáculos para Educação Sexual, falar de sexo é chamar o demônio. Mas aí chega a menina grávida com 10 anos no consultório, menino de 17 é morto de tanto apanhar por ser gay, mulher é espancada pelo marido porque não quis fazer sexo com ele... e vemos diariamente uma série de notícias graves e que poderiam ser evitadas com uma educação adequada. 
Você prepara um workshop sobre sexualidade e o conteúdo será: Gênero, Identidade Sexual, Heterossexualidade, Homossexualidade, Bissexualidade, Transexualidade, Travestilidade e Intersexualidade. A quem se destina?
A qualquer pessoa que queira saber como funciona a diversidade humana. Aos pais que querem entender os filhos e os amigos deles, aos jovens que querem entender porque se sentem tão diferentes, aos professores que não sabem como lidar com seus alunos, aos médicos que não sabem o que dizer para os seus pacientes, ao comerciante que não sabe se deve empregar uma travesti. Enfim, para a toda a sociedade que esteja disposta a construir um mundo melhor e especialmente para criar um espaço, onde pessoas que já até pensaram em tirar a vida por se sentirem inadequadas, possam ser e viver. 

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