“Não vou ser mais candidato”

OBSERVATÓRIO - 19:34:06
“Não vou ser mais candidato”

A frase, enfática, é de um político que completou 26 anos de mandato no legislativo fernandopolense em 2016: Maurilio Saves. Apesar da votação que obteve nas urnas não se reelegeu por conta do sistema estabelecido com base no quociente eleitoral. Nesta entrevista ao CIDADÃO, Saves fala das razões que o levaram a tomar a decisão de “pendurar as chuteiras políticas”. Diz que o desejo é se  dedicar a projetos de natureza profissional, à família, aos amigos e, enfim, viver  um pouco melhor. “Tenho 58 anos e quero ter uma qualidade de vida bem melhor, porque a vida pública nos traz muitos dissabores. Tive que começar a tomar comprimidos para baixar a pressão, controlar ansiedade e uma série de coisa, muitos desses problemas adquiridos durante a vida pública”, relata. O ex-vereador anuncia o fim da carreira política, embora diga que continuará atuando como cidadão, numa semana em que um ex-prefeito (|Luiz Vilar) foi preso por conta de condenação por falsidade ideológica no exercício do cargo de prefeito e no momento que a Câmara se prepara para votar o parecer do Tribunal de Contas que rejeita as contas de Ana Bim, o que a tornaria inelegível. Dois políticos que se revezaram no poder 

em Fernandópolis nos últimos anos. Veja a entrevista: 

Após 26 anos de mandato como vereador completado em 2016 e não ter sido reeleito, você está anunciando oficialmente que está abandonando a vida pública. Por quê?

Não vou mais postular cargos eletivos. Todos nós somos políticos na essência da palavra. Fazemos política em casa, no trabalho, enfim, eu vou ser militante em prol de um país melhor, de uma cidade melhor, como todo cidadão deve ser. Para cargos eletivos, estou abandonando a vida pública neste ponto. Vou participar de campanhas, vou ajudar amigos, vou me empenhar para que tenhamos eleitos de boa qualidade, pessoas de bem que possam gerenciar e trabalhar pelo povo, conforme os anseios da população. Esperamos que haja mudanças, o país está sofrendo com ataques de nível moral nunca vistos na história brasileira, onde presidentes da república estão sendo investigados, condenados, por crime de corrupção, lavagem de dinheiro. Isso é uma afronta à moral do povo trabalhador brasileiro, que não quer mais passar por essa situação, que tem trazido muita descrença. Afasto-me por uma série de razões, de natureza pessoal, quero me dedicar a projetos de natureza profissional, à família, aos amigos e, enfim, procurar viver um melhor. Tenho 58 anos e quero ter uma qualidade de vida bem melhor, porque a vida pública nos traz muitos dissabores. Tive que começar a tomar comprimidos para baixar a pressão, controlar ansiedade e uma série de coisa, muitos desses problemas adquiridos durante a vida pública. Busco agora qualidade de vida.
Essa decisão, de não ser mais candidato, inclui afastamento de partidos políticos ou mantém filiação partidária? 
Nem passou ainda pela minha cabeça. É evidente que, como cidadão, a gente tem que participar da vida política, de movimentos que levem a melhoria de uma cidade, que ela seja bem administrada e que os recursos dos contribuintes sejam aplicados em benefício do povo. Nós estaremos atentos a isso. Não sei se vou estar filiado a algum partido, mas certamente estarei vigilante como um cidadão comum que deseja uma cidade melhor.
Após 26 anos de mandato, o que pesou mesmo para essa decisão. O que o frustrou politicamente?
Eu fui eleito, a primeira vez, com 20 anos. Achei que podia consertar o mundo que, como político, poderia apresentar projetos, reivindicar isso, aquilo, e que poderia conseguir realizar um pouco dessas coisas. Aí, no caminho  falta dinheiro, às vezes o companheiro apresenta projeto diferente, o prefeito não concorda e você não consegue unificar todos por um ideal. Então  se vê frustrado, porque outras vontades superiores ou, infelizmente, por questão de compromissos, frustram e muito o seu trabalho. Vou citar um exemplo: aquela marginal (Litério Grecco) que leva ao novo Distrito Industrial. Uma luta de mais de dois anos, com muitos entraves, alguns lutando para ajudar e outros, infelizmente, para atrapalhar. Felizmente o prefeito levou adiante e vai construir, porque hoje precisamos buscar novos empreendimentos, gerar empregos que é a falta mais grave da nossa cidade. A falta de geração de empregos e novas oportunidades deixam os jovens sem opção de trabalho e lazer e, alguns estão indo para a marginalidade, para o crime. Isso é horrível. 
Esse seu anuncio ocorre na semana da prisão do ex-prefeito Vilar e da iminência da Câmara manter a decisão do Tribunal de Contas que rejeitou as contas da ex-prefeita Ana Bim o que a torna inelegível. Como você avalia esses casos que ocorrem na cidade?
Não basta que a pessoa seja bem intencionada para se ter uma boa gestão. Eu creio que o Vilar foi um divisor de águas da cidade, no primeiro mandato,  já no segundo, prá mim foi um desastre. Com relação a essas situações que ele vivenciou partem da premissa que a pessoa acha que vai consertar tudo que está errado e começa chancelar decretos, editais e vai acreditando em pessoas que estão ao redor e vai assinando documentos sem ter o devido e necessário cuidado para analisar e acaba entrando em situações como essa. O judiciário declarou que esses decretos foram feitos para acobertar uma situação o que caracterizou como crime e ele foi condenado a 13 anos de cadeia, uma pena alta para idade dele, que tem problemas cardíacos e vai ter muita dificuldade no final da vida dele, suportar cadeia por uma situação que ele tentou fazer em benefício de uma coletividade. Não vou entrar no mérito se está certo ou errado essa condenação, mas passa por isso, a pessoa acaba atropelando por companheirismo, para ajudar este ou aquele e descuida do critério que é o fator essencial do gestor público, ou seja, a legalidade e o interesse coletivo acima do individual. Com relação a Ana Bim, também a mesma coisa, o que é legal hoje não é mais amanhã, o Tribunal tem interpretações de que hoje pode fazer isso, amanhã não pode mais. E na análise destas contas ele conclui que houve irregularidades. É uma decisão do Tribunal. Se alguma falha houve, não é só do prefeito em si, ele tem um grupo de pessoas que cuida dessas coisas, contabilidade, compras, etc., é um aparato enorme, mas o condenado é só o prefeito que é quem chancela. É o que está ocorrendo com a ex-prefeita. Não entramos no mérito do que gerou a rejeição das contas, mas isso é trabalho de uma equipe e o condenado é um só.
Vilar e Ana Bim se revezaram no poder nos últimos anos em Fernandópolis. Está se rompendo com um período de polarização na política da cidade?
Mais do que isso. Além de romper essa polarização entre Ana Bim e Luiz Vilar, é a falta de opção. Muitas pessoas poderiam e teriam credenciais para serem eleitos e não entram na vida pública justamente por essas situações que o Vilar e a Ana Bim estão passando. Ouço de algumas pessoas: o cidadão é bom, ele entra bom e sai ladrão, mesmo sem ter roubado nada. É o estigma da vida política hoje. Nós atravessamos uma crise, não institucional, mas de ordem moral. Mais de 30% dos congressistas brasileiros estão sendo investigados por crimes de corrupção. É uma fatia muito grande de pessoas investigadas que estão administrando o país, votando leis, projetos e reformas como a política, trabalhista e previdenciária, que o país necessita, porém, sem ouvir a população. Estão fazendo coisas que agradam apenas a classe política e não o povo.  Então é uma crise moral que está arrebentando o país e isso para consertar vai demorar muito. 
Em meio a esse quadro que você coloca, qual o tamanho da responsabilidade do eleitor?
O eleitor é tudo. Se o eleitor passar a analisar o candidato, verificando a vida, o currículo, o que faz, com quem anda, os projetos que tem, o exemplo de vida que deu, a conduta, família, tudo isso, ele vai começar a escolher melhor. E se não dá para escolher o melhor, que escolha o menos ruim. O que não pode é deixar de votar. Com o voto em branco o eleitor está contribuindo para que os piores, aqueles que usam o poder econômico, se elejam. A gente tem visto isso todos os anos na vida pública. Esse também é um dos fatores que me levaram a não ser mais candidato. Eu sempre fiz campanha com decência, comprometimento, lealdade, no corpo a corpo. E às vezes isso não te dá a vitória. Tem que ter algo mais. Em muitos lugares que fui pedir voto vinha a indagação: o que você vai dar prá mim? E se você não der, ele não vota. O eleitor pede, ele quer algo para votar porque acha que todo político vai roubar. Por isso, na política, ele quer tirar algo, levar vantagem, mas não se preocupa com o amanhã. O eleitor que pede dinheiro é o primeiro a reclamar depois que falta remédio no postinho, que não tem creche. Na hora da eleição ele quer ganhar. Graças a Deus é uma minoria, porque senão a gente estaria no caos. Por isso que o papel do eleitor é importantíssimo. 
Na reforma eleitoral que está sendo votada no Congresso estão sendo propostas mudanças e fala-se até no Distritão, que acabaria com a eleição de parlamentares pelo quociente eleitoral, fator inclusive que impediu sua eleição de vereador, apesar de votação maior que de outros candidatos. Qual sua opinião sobre isso?
Existe uma série de fatores que nos levaram a essa situação, entre elas, a de fortalecer os partidos. Quem sabe agora, com essa alteração, em que os mais votados sejam eleitos, se estabeleça uma coisa mais justa, ou seja, estarão eleitos aqueles que representam a vontade popular e não candidatos com baixa votação, mas puxado pelos votos do partido. Entendo que seria uma alternativa boa para que os mais votados sejam os eleitos, abrindo condição também para mudar um pouco o panorama que aí está com partidos muito fortes. Isso enfraquece as pessoas, porque são elas que são eleitas e não os partidos. Existem várias propostas e esperamos que se defina o melhor. Mas, é bom lembrar que ninguém, nem eu, nem você, fomos consultados. Eles estão fazendo algo que é do interesse deles, procurando manter os cargos dos que lá estão e para isso passam por cima dos outros como trator, impedindo que os novos cheguem lá, que haja renovação. É isso que precisa mudar. 
Como avalia Fernandópolis neste momento?
Como morador, que amo essa terra, tenho que ser otimista. Acima de tudo, acredito no prefeito e sua equipe, que vem procurando trabalhar. Espero que ele se livre de alguns dogmas e de compromissos partidários, de companheirismo, que levaram outros prefeitos a situações da qual falamos anteriormente. Que ele (André) possa ser mesmo o gestor publico, o funcionário público número 1, o gerente da cidade,  e que possa administrar isso com firmeza e seriedade. Até então ele vem demonstrando essas condições. Espero que no final do mandato, em quatro anos, ele possa ser bem avaliado e que a cidade possa ganhar com isso. Tenho muita esperança e acredito que ele possa fazer uma boa gestão. Estamos torcendo para isso, a cidade está torcendo para isso. Para que continue avançando na Saúde e na Educação, embora infelizmente a gente esteja ouvindo dizer que querem fechar a UPA.
No ano que vem tem eleição. Que espera que saia das urnas? 
Espero uma mudança muito grande. Mudança, especialmente do eleitor, de modo geral. Que o eleitor vá às urnas e procure escolher o melhor. É a minha esperança. Serei criterioso na análise dos candidatos e não mais vou decidir meu voto pelo partido. Vou votar no ser humano de acordo com o perfil que entendo ser o melhor. Se achar que não tem o melhor, vou por exclusão, escolher o menos ruim. Acho que é um conceito, posso estar errado, mas é um pensamento pessoal. 

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