A tatuagem da autoestima

OBSERVATÓRIO - 21:38:30
A tatuagem da autoestima

Outubro Rosa remete à luta das mulheres contra o câncer de mama, principalmente para o diagnóstico precoce que evita um tratamento mais agressivo que pode chegar a mastectomia, ou seja, a retirada de um ou os dois seios para ficar livre do tumor. O tatuador fernandopolense Leandro Laguna, 38 anos, decidiu ajudar essas mulheres a recuperarem a autoestima após esse processo traumático. Laguna passou por um câncer e teve que retirar o estomago aos 29 anos. Como forma de agradecer o atendimento que recebeu no Hospital de Câncer de Barretos e, ainda hoje, no acompanhamento que faz no Hospital de Câncer de Jales, é voluntário no trabalho que está devolvendo às mulheres a alegria de viver. O seu trabalho começa após a mulher receber o implante de silicone e enxerto parecido com mamilo. Ele usa a técnica da tatuagem para desenhar a auréola do seio, um trabalho artístico que busca fazer com que o seio fique o mais natural possível. O resultado tem sido surpreendente. Cerca de 30 mulheres já fizeram essa tatuagem e recuperaram a autoestima. Leandro Laguna, que é tatuador há 19 anos, completados no último dia 19 de setembro, diz que não há palavras para expressar o quanto é gratificante esse trabalho. 

Ele contou detalhes nesta entrevista ao CIDADÃO:


Você está usando a tatuagem para ajudar mulheres que se submetem ao processo de mastectomia (retirada do seio). Como surgiu essa parceria Hospital de Câncer de Jales?
Eu já estava com esse plano de fazer esse projeto. Eu fui pacientes do Hospital em Barretos e hoje faço acompanhamento em Jales. Quando ia passar pelo médico já tinha a intenção de falar para ele sobre o projeto. E antes que eu perguntasse, ele me convidou para realizar esse procedimento. Combinamos a data, ele chama as pacientes agenda data e eu vou lá fazer esse trabalho voluntário.
Explique o tipo de trabalho que você realiza com as pacientes?
O trabalho é atender as mulheres que se submetem ao procedimento de mastectomia, que é a retirada do seio com tumor. Após isso, os médicos implantam um silicone e fazem um enxerto parecido com o mamilo. É ai que eu entro com a tatuagem, fazendo uma auréola no seio. 
Essa tatuagem faz com que o enxerto fique parecido com o seio?
Exatamente, fica bem natural. Inclusive, quando eu cheguei lá, eles usavam molde, mas percebi que não batia com o outro seio. Os médicos ficaram surpreso, não achavam que era tão artístico assim. Mas, tem que ser feito para ficar o mais natural possível. Isso quando a mulher perdeu apenas um seio. Quando ela perde os dois, ai vou pelo estudo morfológico, tom de pele, cabelo, para fazer a aureola que fique bem natural.
Há quanto tempo está com esse projeto em Jales?
Dois anos.
Qual a reação das mulheres quando são apresentadas ao projeto de tatuagem para recompor o seio?
Não tem palavras. É gratificante, não sei se mais para elas ou para mim. É inexplicável traduzir em palavras o que elas expressam. Elas ficam bem e eu me sinto muito bem com isso. Muitas disseram que voltaram a se sentir mulher de novo, coisa que elas não sentiam desde que perderam o seio. Inclusive, uma delas chorou ao dizer que, após a mastectomia, o marido, vamos dizer, muito machista, não tocava mais nela e que após a tatuagem o marido gostou e tudo voltou ao que era antes. Isso é gratificante.
Esse trabalho está devolvendo a autoestima para a mulher?
Exatamente. A autoestima vai às nuvens.
De cada 10 mulheres que são submetidas a mastectomia, quantas aderem ao projeto?
Olha, neste projeto em Jales, de 10 eu acredito que estamos atendendo de 6 a 7 mulheres, mas a nossa ideia é atender todas. Como o Hospital de Jales atende muitas pessoas que moram distante, as vezes não dá para fazer em todas. Mas, já pensamos em realizar um mutirão, fechar várias datas, para ampliar o atendimento. Alguns amigos meus, tatuadores de São Paulo, também estão interessados em participar, inclusive o que patrocina a tinta usada no projeto (Iron Works) já se ofereceu em fazer um mutirão para atender todas as mulheres.
Quantas mulheres você já fez essa tatuagem?
Como faz pouco tempo que estamos realizando esse trabalho, creio que já atendemos umas 30 mulheres. Fica a cargo do hospital agendar. Neste mês já tenho sete mulheres agendadas.
Esse trabalho você faz gratuitamente?
Gratuitamente. O que eu tenho é o patrocínio da tinta, os demais encargos eu assumo. O Hospital de Jales chegou a comprar um pouco de material quando começamos. Mas não tem custo algum, para ninguém, pacientes e hospital. 
Você atende as pacientes no Hospital em Jales?
Sim, eles liberam ou o centro cirúrgico ou ambulatório para o procedimento, com acompanhamento de médico, muitos ficam curiosos para ver o método. Todo o procedimento é feito rigorosamente dentro dos padrões hospitalares.
O que te motivou para ser voluntário neste trabalho?
Foi o tratamento que eu tive no Hospital de Câncer quando precisei. Fui muito bem tratado e da melhor forma possível. Isso me fez pensar em como devolver isso. Como vou devolver a sociedade um pouco da benção que eu tive? Então quis usar o meu dom como uma forma de ajudar. Veio essa ideia: da mesma forma que me senti bem com o tratamento vou fazer as mulheres também se sentirem bem, devolvendo a autoestima.
Você é jovem. Em que momento o câncer apareceu em sua vida?
Foi aos 29 anos. Tive câncer de estomago. Hoje sou gastrêmico total (pessoa que foi submetida a gastrectomia). Hoje não tenho estomago. É uma coisa engraçada, várias pessoas, por falta de informação, ficam espantadas sobre como a pessoa pode sobreviver sem estomago. Essa também é uma forma de ajudar, ou seja, informar. O Hospital tem meu número de telefone e pessoas do Brasil inteiro me ligam para saber, tirar informações. No dia 28 (de outubro) tenho dois clientes para uma tatuagem normal, mas que aproveitam para perguntar sobre isso, porque a mãe passou por esse procedimento no último dia 5. Então procuro também ajudar as pessoas com informação.
Sem o estomago, o que mudou na sua vida?
Você tem que passar por uma reeducação alimentar, a alimentação é diferente. Tenho algumas regras a seguir, mas posso dizer que me sinto bem e isso não afetou minha rotina. Graças a Deus. O que mudou mesmo, é que a gente passa a enxergar vida de outra forma. Antes se apegava em coisas que hoje não tem mais importância. E aquilo que você negligenciava, hoje tem mais apego, família principalmente, de cuidar mais da saúde. A gente se apega à vida.
Você passou pelo Hospital de Câncer como paciente e agora é voluntário. Isso te reconforta?
Me sentiria completamente realizado e reconfortado se pudesse fazer mais ainda, se pudesse atender mais mulheres. 
Você tem um estúdio de tatuagem onde atende pessoas com vários tipos de desejos. Já chegou atender alguma pessoa que quisesse fazer alguma tatuagem para encobrir uma cicatriz?
Sim. Hoje tem um procedimento que a gente fala que é uma camuflagem. Faz-se uma pigmentação que clareia bem e deixa a cicatriz quase no tom da pele ou ainda pode-se usar uma tatuagem mesmo para encobrir várias cicatrizes. Eu mesmo já cobri algumas minhas.
Tem muitas tatuagens?
Tenho 17 tatuagens pelo corpo, mas pretendo fazer mais.
Nestes 19 anos que você trabalha como tatuador, o que mudou no conceito de tatuagem? O preconceito ficou pelo caminho?
Sim. Com a evolução, as pessoas hoje tem um olhar mais técnico sobre a tatuagem, ao mesmo tempo que ela banalizou muito. Antigamente era mais complicado a pessoa achar um profissional adequado para fazer uma tatuagem. Só que as pessoas que se lançavam no mercado queriam mesmo ser profissionais. Hoje, há inúmeras pessoas fazendo tatuagem até em criança. E isso é um autoflagelo no corpo. Um profissional não vai fazer tatuagem em menor de idade. 
Já chegou alguém propondo uma tatuagem e você o fez mudar de ideia?
Sim. As vezes a pessoa tem uma ideia de tatuagem, um contexto e quando acho que não vai ficar bom eu falo. A tatuagem é uma coisa que vai ficar para o resto da vida. Tenho que fazer uma coisa que a pessoa vá ficar satisfeita. Já me neguei a fazer a tatuagem por não gostar do estilo proposto. E que, nesse caso, não consigo colocar amor. Então não faço.
Muitos pedidos bizarros nestes 19 anos?
Teve vários. Não dá nem para falar aqui.
O que levou você para o mundo da tatuagem?
Eu sempre desenhei. Queria exteriorizar minha arte, mas de forma diferente. Com 18 anos comecei a ter contato com a tatuagem e me apaixonei. Fiz tudo da forma correta. Montei estúdio, fui estudar e continuo estudando até hoje. Já fiz grafite no fundo de casa, meus cadernos de escola eram cheios de desenho. A tatuagem foi a forma que encontrei de expressar a minha arte.
Você tem uma filha. Ela já fez tatuagem?
Não. Ela tem 13 anos. Já me pediu, mas ainda é cedo, é pequena para isso.
Para quem deseja tatuar, o que deve ter em mente?
Tem que vir consciente que uma tatuagem vai durar para o resto da vida dela. Hoje tem procedimentos de remoção com laser, mas é um processo dolorido e mais caro que a a tatuagem em si. A pessoa tem que ter uma ideia do que quer, o estilo que quer. Eu faço todos os estilos, tem alguns que não faço porque entendo que futuramente o cliente não vai gostar. Sem ideia, não tem como ajudar. Não posso indicar uma tatuagem à pessoa, porque vai ser uma opinião minha no seu corpo. Nestes casos, tenho que ser meio psicólogo.
Quantas pessoas já tatuou?
Por baixo, nestes 19 anos foram mais de 10 mil pessoas. Atendo muitas pessoas, inclusive de outros países, Japão, Canadá, Suíça, Estados Unidos. Esse da Suíça, descobriu o meu trabalhou e aproveitou que a irmã morava aqui veio visitá-la e fazer a tatuagem.
Tem muito a agradecer?
Sim. Agradecer primeiro a Deus, a minha família, ao Hospital de Câncer por terem me ajudado quando precisei e dado também essa oportunidade de ajudar alguém. Agradecer também a Iron Works que patrocina as tintas que utilizo para atender as mulheres porque sem esse apoio não teria como realizar esse trabalho no Hospital de Câncer. 

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