Quando o bullying mata

OBSERVATÓRIO - 16:59:39
Quando o bullying mata

Cléo Fante foi uma das pessoas mais consultadas pela imprensa brasileira sobre mais um episódio de violência em escola, tendo como pano de fundo o bullying.  Doutorada em Ciências da Educação,  graduada em História e Pedagogia, a fernandopolense é autora de livros que tratam do tema: Fenômeno Bullying: estratégias de intervenção e prevenção da violência entre escolares, 2003; Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz, 2005; Bullying escolar: perguntas e respostas, 2008; Bullying: intimidação em ambiente escolar e virtual, 2011;  Cómo entender y detener el bullying y cyberbullying em la escuela, 2013; e Bullying em debate, 2015. Com toda essa experiência ela diz que episódio como da Escola Goyazes, em Goiânia, no dia 20 de outubro, quando um estudante de 14 anos com uma arma de fogo matou dois colegas e feriu outros quatro, surpreende: “Quando resulta tragédias em ambientes escolares, causa perplexidade e sensação de impotência porque estamos falando de seres humanos, jovens cheios de vida, em plena formação”, diz a especialista nesta entrevista alerta ao CIDADÃO: 

Desde 2000 você lida com a questão do bullying, seja como pesquisadora, educadora e escritora. Ainda se surpreende com casos como esse de Goiás?
Com toda certeza o bullying nos surpreende sempre porque é algo que atinge diretamente na saúde emocional. Quando resulta tragédias em ambientes escolares, causa perplexidade e sensação de impotência porque estamos falando de seres humanos, jovens cheios de vida, em plena formação e de famílias que tem sonhos, que planejam a vida, que depositam esperança no futuro, que querem o melhor para os seus filhos. Quando nos colocamos no lugar dessas pessoas envolvidas (vítimas e autores, familiares, profissionais) e os impactos em suas vidas, impossível mensurar a dimensão e gravidade do problema.
Há cerca de dois anos, neste mesmo espaço, você já tratava sobre bullying e alertava que não era uma brincadeira. No que avançamos, ou regredimos, nesse período?
Avançamos quanto à legislação, que institui o programa de combate ao bullying em todo o território nacional, a Lei 13.185 de 2015. Entretanto, a lei continua no papel e a maioria das escolas adormecidas para o problema. A legislação, em seu artigo 5º diz que é dever do estabelecimento de ensino, dos clubes e das agremiações recreativas assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e ao bullying. O artigo 6º, diz que os Estados e Municípios deverão produzir e publicar relatórios bimestrais das ocorrências de bullying para planejamento de ações. Nesse sentido, em ambas esferas, não se cumpre. Quanto ao retrocesso, parece que ainda patinamos na incompreensão do problema, tanto em relação ao conceito quanto no enfrentamento. Muitos ainda acham bobagem, algo natural entre os estudantes ou que serve para fortalecer o caráter. Outros generalizam, creditando ao bullying todas as ações agressivas físicas ou psicológicas, não estabelecendo quem é o público envolvido e isso se vê na própria legislação.
O caso da Escola em Goiânia ocorreu no dia 20 de outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying e envolveu adolescentes que, supõem-se, tenham participado de ações contra o bullying e que, portanto, estariam, teoricamente, preparados para evitar ou denunciar essa prática. Onde está a falha?
Embora o Movimento Brasil SEM Bullying tenha divulgado intensamente o “Outubro de Prevenção e Combate ao Bullying” e o “Dia Mundial de Combate ao Bullying” e as ações desenvolvidas, por meio das redes sociais, não temos informações de que essa escola tenha participado. Lançamos desafios às escolas, incentivamos que nos enviassem imagens, vídeos, selfies, se posicionando contrárias ao bullying e, por incrível que pareça, apenas uma escola participou desse desafio. As demais participantes, tiveram o apoio de integrantes do movimento, por isso, conseguimos pequeno sucesso. Dessa forma, a falha está na ausência de interesse, de compromisso e de programas antibullying, ou seja, de ações preventivas que envolvam toda a comunidade escolar (estudantes, profissionais, famílias). O que se vê, é o uso de ações interventivas quando o problema já está instalado e, muitas vezes, de difícil solução, uma vez que as vítimas tendem a silenciar, por medo, vergonha, dificuldade de tomada de iniciativa, crença de que as agressões acabarão com o tempo ou por falta de orientação do que fazer ou a quem recorrer, faltam métodos de denúncia.
Como especialista no assunto, você tem participado de programas e concedido entrevistas a partir desse caso de Goiás. E as questões giram sempre em torno dos sinais emitidos pelos jovens vítimas de bullying. Mas, e o agressor? Como identifica-lo? Algum sinal característico?
Tanto vítimas quanto agressores emitem sinais, gritam por socorro. Por isso, a escola quando trabalha preventivamente se antecipa na identificação e traçam ações corretivas, em parceria com a família, quando não patológicas, requerendo atendimento específico. Geralmente, os sinais são de irritabilidade, agressividade ou de inferiorização do outro, por meio de chacotas, apelidos, intimidações. Manifestam prazer em rebaixar os colegas, não demonstram arrependimento. São habilidosos em sair-se bem de situações difíceis com as autoridades escolares, sempre em nome da brincadeira ou acusa a vítima por algo que não fez. Suas ações são de intolerância, de preconceito, de desrespeito, de desconsideração, especialmente aos que apresentam diferenças. Isso significa dizer que possuem dificuldades de convivência frente à diversidade aliado a outros fatores, de ordem individual, familiar, escolar, de formação de caráter, dentre outros. 
A “Lei do Silêncio” de agressores e vítimas pode ser um obstáculo a se avançar neste trabalho?
Sem dúvida, um dos entraves na identificação do problema é o silêncio das vítimas e daqueles que assistem, que se omitem ou não sabem como agir. Por isso, em nosso trabalho envolvemos todos e treinamos os espectadores para auxiliar os colegas.  Quando eliminamos a plateia não há espetáculo, sendo esta quem fortalece a ação do agressor, que o encoraja a ações cada vez mais cruéis. Por outro lado, o silêncio das escolas também é preocupante e lamentável, uma vez que não relatando os casos às secretarias municipais e estaduais não possuem dados para o desenvolvimento de ações.
Vivemos em um mundo virtualizado, ou seja, os pais estão perdendo o contato olho no olho com os filhos. Nossos olhos estão na rede, o que levou o sociólogo Zigmund Bauman em um de seus livros abordar sobre a fragilidade das relações humanas e do que chamou de amor líquido. Isso explica as fragilidades emocionais dos nossos jovens?
Pode ser uma das explicações para as fragilidades emocionais dos jovens. Porém, há que se pensar que a ausência ou empobrecimento de valores nas relações familiares colaboram para uma convivência escolar adoecida. Há que se pensar também nas relações estabelecidas em sociedade, onde o poder e o ter prevalece ao ser a qualquer custo e os modelos de identificação para os jovens estão se esvaindo. Antes eram os pais, ativistas ou pacifistas, atualmente, são os anti-heróis, como Hitler e as facções. Se comemora o dia das bruxas não o dia de Ação de Graças. Uma geração frágil, adoecida, vem se formando, que não sabe cuidar de si, do outro, do planeta. É preciso pensar sobre tudo isso...
Como pesquisadora, é possível jogar toda essa violência na conta do bullying ou há um contexto maior para ser analisado? 
Nem tudo o que acontece na escola ou fora dela, como na internet, deve ser contabilizado ao bullying. É preciso compreender que vivemos uma cultura de violência, de descaso, de desamor, de instantaneidade, de descarte nas relações. A falta de diálogo, de interesse, de afeto e, principalmente da real presença dos pais aliado aos inúmeros estímulos oferecidos às crianças e jovens, como a sensualidade, a erotização e a sexualidade precoces, o prazer e o consumo desenfreado, a fama por meio de postagens que se viralizam na internet etc, colaboram na má formação do caráter e nas dificuldades assertivas, no lidar com frustrações, na falta de empatia, de compaixão, de amor ao próximo. A falta de fé, em Deus ou na vida, também é fator que deve ser analisado.
O fato destes dois casos citados, Goiás e Rio, envolverem pessoas do sexo masculino, pode significar que está faltando um olhar mais atento aos meninos? 
As diversas pesquisas realizadas em todo o mundo, inclusive no Brasil, mostram que os meninos são os que mais sofrem e praticam o bullying. Suas ações são mais agressivas e, portanto, mais graves. Falta atenção aos meninos e aos homens, de forma geral. E isso, podemos observar, inclusive, na prevenção de inúmeras doenças. A grande maioria dos casos de tragédias em escolas foram protagonizadas por meninos. Nesse sentido, as escolas devem se alertar para tal fato e estudos devem ser aprofundados nesse aspecto.
A cada episódio motivado pelo bullying o tema vem à tona, mas logo cai no esquecimento até o próximo evento. O que precisa mudar? 
Precisa mudar a visão da imprensa no entendimento do assunto e na forma sensacionalista que muitas vezes divulga os fatos e a dor humana. Precisa mudar a rapidez com que muitos profissionais se arriscam a palpitar naquilo que desconhecem ou não tem informações suficientes. Precisa mudar o olhar da sociedade quanto ao problema, que é grave e emergencial. Precisa mudar a forma de compreensão e condução do problema por parte das escolas. Precisa mudar o modo que muitas famílias têm educado seus filhos e influenciado de forma negativa na formação do caráter. Precisa mudar o oportunismo e insensatez de muitos políticos que se aproveitam de tragédias para debater ou criar instrumentos mentirosos, incompletos e descontínuos no tratamento do problema. Precisa mudar a vontade política, focando no desenvolvimento de políticas públicas e investimentos para prevenir outros episódios violentos e assegurar que crianças e jovens aprendam, convivam e se desenvolvam em um ambiente escolar e virtual saudáveis.

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