Como falar com quem não ouve?

CADERNO VIVA - 18:57:26
Como falar com quem não ouve?

“Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. O tema da redação do Enem 2017 causou certa polêmica entre os alunos e até profissionais da área de educação. A prova, aplicada no último domingo, 5, colocou mais de 4 milhões de estudantes no centro de uma discussão sobre políticas públicas de inclusão. E a escolha do público alvo – os deficientes auditivos – se deu justamente na semana em que se celebra, no Brasil, o Dia Nacional de Prevenção e Combate à surdez”. 

A data e a prova são excelentes oportunidades de se levar informação e educação sobre saúde auditiva para a população. A perda auditiva é uma das deficiências mais comuns na população brasileira. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Otologia, de cada mil crianças nascidas no país, três a cinco já nascem com deficiência auditiva. E todas as crianças precisam escutar para aprender a falar. 
Segundo a fonoaudióloga responsável pela Apadaf – Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos de Fernandópolis -, Eliana Castro F. Machado, a deficiência auditiva pode se desenvolver de diversas maneiras. Quando genética, é possível ser detectada nos primeiros dias de vida e ser tratada com sucesso, proporcionando uma melhor qualidade de vida. 
“Por isso o Teste da Orelhinha, um exame rápido e indolor, é tão essencial. Não há reversão do quadro, porém se o tratamento for adiado, a criança acaba não desenvolvendo a capacidade cognitiva para distinguir os sons. Portanto, quanto antes - eu diria no máximo até os três anos de idade -, se iniciar o acompanhamento, melhor será a qualidade de vida da criança”, explicou a especialista.
COMO FALAR 
Os surdos oralizados se comunicam através da fala, leem os lábios e o aparelho comum ou o implante coclear podem ou não resolver o problema de audição deles. Podem ser surdos adquiridos após a aquisição plena da fala (chamada surdez pós-lingual) ou surdos de nascimento que aprenderam a falar com sessões de fonoaudiologia.
 “Com eles é importante falar sempre de frente para que consigam realizar a leitura labial adequadamente. Não é necessário falar mais alto, pois essa é a função do aparelho, que amplifica a nossa voz para que o surdo escute melhor”, alerta a fonoaudióloga.
Já os surdos sinalizados usam uma língua própria, chamada Língua Brasileira de Sinais ou simplesmente Libras. Muita gente acha que são mudos, embora a maioria tenha voz, apenas não costuma usá-la ou porque não aprendeu a falar ou porque tem vergonha/não gosta. Uma boa parcela nasceu surda ou perdeu a audição antes da formação plena da fala. São também chamados de surdos pré-linguais. Quando falam a língua de sinais e também utilizam a linguagem oral, são chamados de surdos bilíngues.
Eliana dá algumas dicas que podem ajudar a melhorar a comunicação com pessoas que têm algum tipo de perda auditiva:
- Fale próximo, de preferência no mesmo nível do rosto da pessoa e de frente para ela favorecendo a leitura labial;
- Evite conversar com ela quando outros ruídos, como o som da TV, possam competir com a sua voz;
- Converse um pouco mais devagar que o normal, mas sem exagerar na articulação das palavras, sem gritar ou elevar muito a voz;
Dê tempo para que o surdo possa processar o que foi dito e lhe dê uma resposta. Se perguntarmos e, ao mesmo tempo, respondermos por ele, isto não vai ajudá-lo.
OS TAIS DESAFIOS 
E na escola, como lidar com crianças que têm perda de audição?
“É importante esclarecer aos alunos da classe sobre a deficiência auditiva e as necessidades específicas da criança. Fale com eles sobre o assunto e responda às suas curiosidades iniciais”, orienta Eliana.
- É preciso antes de tudo tratar a criança com deficiência auditiva como as outras. Elogie suas qualidades e atributos e chame sua atenção quando necessário;
- Quando não compreender o aluno, o professor precisa demonstrar isso. É melhor do que “fazer que entendeu”. Ao mesmo tempo, é preciso demonstrar muita vontade de compreendê-lo. Com esta atitude a criança será estimulada a buscar formas mais eficazes para se fazer entender;
- Estimule e incentive as iniciativas de interação entre a criança com deficiência auditiva e seus colegas de classe;
- A criança com deficiência auditiva não deve ser cercada de privilégios. O que pode para ela pode para todos. A intenção deve ser promovê-la perante o grupo através dos acontecimentos naturais e rotineiros do ambiente escolar, que explorados corretamente, aumentarão as oportunidades de integração entre todos os alunos.

“Não entendo a polêmica”, diz a coordenadora da Apadaf

O tema foi classificado por educadores como uma pegadinha e recebeu críticas, principalmente de professores de português e de cursinhos, por ser um assunto muito restrito e pouco discutido na atualidade. 
“Segundo o IBGE, ‘pessoas com deficiência auditiva representam 1,1% da população brasileira’. Embora seja um problema importante, é pedir muito que um estudante de 16/17 anos saiba como deva ser a formação desse grupo. Estamos apostando na competência de nossos alunos em usar adequadamente os textos de apoio”, publicou a professora fernandopolense Eliana Jacob, em sua página no Facebook. “Achei esse tema fora de propósito. Ok, levantará uma discussão sobre o assunto, mas concordo com você, Eliana, que um tema como esse só servirá para mostrar a habilidade de usar os textos de apoio”, completou a professora Celeste Antenore.
Já para a coordenadora da Apadaf, Taiane Priscila Martins Ferreira, todos deveriam estar preparados para falar de inclusão. 
“Vi professores reclamando que os alunos não estavam preparados para esse tema, mas ai eu te pergunto: quem não os preparou? A reclamação de muitos educadores se dá porque na verdade eles são os culpados por seus alunos não estarem preparados, e isso vem lá de cima. O tema deste ano foi surdo, mas se fosse qualquer outro tema em se tratando de deficiência, a polêmica seria a mesma, pois no Brasil, a tal inclusão só acontece no papel”, disse Taiane. 
Taiane ressaltou ainda que esse tema chamou a atenção, não só dos alunos, mas de todo o Brasil, para as dificuldades enfrentadas por essa parcela da sociedade, que, por causa delas, acabam se isolando ou até se escondendo.
“Hoje mesmo uma mãe veio reclamar que sua filha, não conseguiu se matricular num curso no Senac, por falta de interprete. E essa dificuldade não acontece só nos cursos, mas também nas farmácias, nos bancos e nas próprias escolas, não há uma política de inclusão. Isso é uma coisa que se arrasta há anos e se não começarmos a falar sobre o assunto, continuará assim. Para se ter uma ideia, todas as vezes que montamos uma turma para o curso de Libras aqui na entidade, no máximo cinco o concluem. Agora, desde que saiu o tema do Enem, o nosso telefone não para de tocar com pessoas procurando aprender a língua brasileira de sinais”, concluiu Taiane.

VEJA TAMBÉM

teste

Costa Azul turismo
ga('send', 'pageview');