Projeto de jovem fernandopolense é esquecido no Congresso Nacional

OBSERVATÓRIO - 18:26:47
Projeto de jovem fernandopolense é esquecido no Congresso Nacional

O tema da redação do Enem – Exame Nacional do Ensino Médio – deste ano provocou uma onda de discussões em todo o Brasil. “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, gerou polêmicas e fez aflorar um problema, que em 2013, a estudante fernandopolense Eloá Fernanda Stefani Topan, então com 16 anos, levou para discussão no Parlamento Jovem reunido no Congresso Nacional em Brasília. Eloá é portadora de deficiência auditiva e, na época, estudava na Escola Saturnino Leon Arroyo. O projeto que apresentou no Parlamento Jovem, e que foi aprovado por unanimidade, tornava obrigatório a inclusão de Libras  - Língua Brasileira de Sinais – no currículo nacional das escolas de nível Fundamental e Médio. Na defesa do projeto, Eloá argumentou que o objetivo da inclusão de Libras no currículo nacional é “no sentido de romper as barreiras da comunicação entre surdos e ouvintes, do preconceito e da indiferença, sendo uma oportunidade da vivência dentro do conceito da inclusão. É uma oportunidade de comunicação efetiva entre alunos surdos e alunos ouvintes, o que é dificultado quando não há uma língua em comum. Com Libras, falaríamos todos a mesma língua”.No Parlamento Jovem, os 76 estudantes brasileiros que foram a Brasília em setembro de 2013 atuaram como Deputados Federais. Passados quatro anos, o projeto de Eloá está esquecido em alguma gaveta do Congresso Nacional, já que para ir adiante seria necessário ser encampado por algum dos 513 deputados federais. “A partir desta aprovação, confesso que criei expectativas e esperança para um futuro melhor a todos os surdos, mas após 4 anos vendo toda a nossa comunidade surda lutar e sempre estar no mesmo lugar, sinto em dizer que nada mudou”, diz Eloá, hoje com 20 anos, nesta entrevista ao CIDADÃO.

Em 2013, você participou do Parlamento Jovem Brasileiro, com o projeto que tornava obrigatório a inclusão da Língua Brasileira de Sinais (Libras) no currículo nacional das escolas de nível fundamental e médio. Esse projeto foi aprovado por unanimidade. O que aconteceu com o projeto? Algum deputado encampou a ideia?
Tempos depois da aprovação do projeto, que foi uma conquista para mim e a comunidade surda, infelizmente sinto que foi deixado de lado, abandonado pelos deputados. Me procuraram apenas para entrevistas e felicitações, mas o projeto não foi levado adiante, sinto por isso.
O que mudou na sua vida a partir da aprovação desse projeto?
A partir desta aprovação, confesso que criei expectativas e esperança para um futuro melhor a todos os surdos, mas após quatro anos vendo toda a nossa comunidade surda lutar e sempre estar no mesmo lugar, sinto em dizer que nada mudou em minha vida, apenas meus sonhos que continuam, acreditando em um futuro melhor para todos nós.       
Na defesa do seu projeto você argumentou que ele tinha o propósito de “romper as barreiras da comunicação entre surdos e ouvintes, do preconceito e da indiferença, sendo uma oportunidade da vivência dentro do conceito da inclusão”. Na sua vivência, você acha que seus colegas demonstravam interesse em aprender Libras?
Em meu cotidiano são pouquíssimas pessoas/amigos/colegas que se interessam em aprender a minha língua para uma melhor comunicação, infelizmente aos poucos que se interessam não houve tempo para ensinar.      
A chegada de novas tecnologias como o WatsApp melhorou a comunicação entre surdos e ouvintes?

Com certeza facilitou nossas comunicações, porém, nos grupos criados com ouvintes e surdos juntos acontece muito de mandaram áudio. Assim continuamos nos sentindo excluídos. Para nosso alívio foi criado há pouco tempo um aplicativo que traduz a áudio para escrita.
O tema da redação do Enem este ano foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”.  O seu projeto não seria um passo importante para superar as barreiras dessa formação educacional?
Com certeza! Seria de grande importância se o projeto fosse levado adiante, tornando um ambiente agradável e natural para o desenvolvimento de crianças surdas e uma grande oportunidade de crescermos juntos. Como vimos, há um despreparo das pessoas, como ficou evidenciado no tema da redação do Enem. Fiquei muito triste com os comentários (xingamentos). Precisamos lembrar que aqui no Brasil temos mais de 9 milhões de pessoas com deficiência auditiva e ainda tem pessoas que não sabem o que é comunidade surda.         
Você, em algum momento, sentiu-se excluída do processo educacional? O que ajudou a superar as barreiras da comunicação?
Com sorte não tive este desgosto de ser destratada, excluída ou rejeitada na escola por meus amigos e professores. Tive intérprete e muitos momentos agradáveis, mas o que me preocupa é que muitas crianças surdas na nossa comunidade não tem a mesma sorte.  Sofrem e temos relatos muito tristes, de crianças que desistem de ir para escola por não ter intérprete.             
Na época, em 2013, você falava da vontade de fazer a faculdade de Letras-Libras. Está realizando esse sonho?
Não consegui realizar este sonho, mas estou a caminho, vou realizar o vestibular agora em dezembro, mas enquanto isso estou cursando Pedagogia.        
Hoje você está trabalhando na Santa Casa. Como está sendo esse processo de inclusão?
O meu trabalho é um ambiente muito agradável e de boa convivência, tenho amigos sempre me ajudando e o apoio da minha chefe nos momentos que preciso. A única coisa que precisa, são nos momentos de palestras e eventos, a presença de um intérprete.
Em Fernandópolis, nós temos a Apadaf – Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos. Qual a importância dela para você?
Falar da Apadaf é muito difícil, pois me emociono ao lembrar de tantos momentos bons e marcantes. Eles são uma família para mim, não tenho palavras para descrever o quanto me ajudaram em minha formação de caráter, pessoa, ética, responsabilidade, etc. E quanto continuam ajudando e apoiando a comunidade surda. Se não existisse a Apadaf não sei o que seria de mim e de muitos surdos. Só tenho agradecer!
Aos 16 anos, você viveu essa experiência do Parlamento Jovem. Aos 20, quais são os seus sonhos?
Meus sonhos e metas para meu futuro são poder, em primeiro lugar me especializar na área da surdez, assim ajudando nossa comunidade e a comunidade ouvinte, quebrando as barreiras da comunicação. Tenho um grande sonho também em conhecer o INES - Instituto Nacional de Educação de Surdos (RJ) -  e a Universidade dos Estados Unidos Gallaudet.

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