A dura verdade das “mulheres de vida fácil”

GERAL - 23/11/2007 00:00:00
A dura verdade das “mulheres de vida fácil”

A famosa boate “Toca da Onça”

Um passeio pelo bas fond do meretrício mostra os dramas e as pequenas e grandes ambições de garotas que trocaram as bonecas pela realidade crua dos prostíbulos

Garotas entre 19 e 23 anos, com escolaridade no máximo até o 2.º grau. Muita mulher de outras cidades, vindas principalmente de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Na maioria, filhas de pais separados, e todas as entrevistadas pelo CIDADÃO afirmam ser mães, muitas com mais de um filho.

Todas são de famílias simples, que pagam aluguel e todo final de mês lutam para cobrir as contas de suas casas, onde geralmente moram suas mães, que cuidam de seus filhos. Dizem enfrentar a vida de garotas de programa justamente para sustentá-los, e, por unanimidade, elegem como maior sonho “sair dessa vida”.

Esse é o rápido inventário que se pode fazer da vida nos prostíbulos do Jardim dos Pássaros, zona oeste da cidade de Fernandópolis. No ano de 1979, uma determinação do Poder Executivo retirou a chamada “Zona Boêmia” da Vila Regina, sob a argumentação de que a existência de bordéis naquela região mutilava o crescimento da cidade.
As casas de prostituição foram confinadas no distante Jardim dos Pássaros, onde estão até hoje. Os estabelecimentos já viveram tempos melhores. Com o advento da permissividade e do espectro da Aids, a prostituição entrou em franca decadência.


TOCA DA ONÇA

R., 19 anos, vinda de Cassilândia (MS), trabalha em uma casa ao lado da Toca da Onça. Cobra R$ 50 por um ‘programa’ de uma hora, e afirma que em sua “boate” trabalham mais uma garota, M., e um travesti, T., de 22 anos.

“Aqui nós vemos muitos carrões, senhores já grisalhos, jovens bonitos e ricos, em busca de sexo, companhia para usar droga em algum motel, diversão e também ‘farra’ com os amigos. Muitos homens casados, pois nós conhecemos um homem casado sempre, com um simples olhar, que vêm à procura de T., geralmente para fazer o papel de passivo na hora do sexo”, diz S., “gerente” da casa onde trabalham R., M. e T., que diz ter um motel que cobra um preço fixo para suas “meninas” utilizarem seus quartos com os clientes, pois declara que em sua casa não acontecem ‘programas’.

“Atualmente temos 15 meninas, todas de fora, do Mato Grosso do Sul e de Minas Gerais. Nós não fazemos ‘programa’ aqui na casa, quem vem em busca de sexo sabe muito bem o que quer, e está ciente de que terá que levar a garota para onde bem entender, menos aqui na casa. Não temos muito luxo, mas sempre nos divertimos, enfrentamos a vida, vivendo de bem com a vida e sabendo que este trabalho é muito difícil, e às vezes, até perigoso, dependendo do cliente”, diz P., que trabalha há cinco anos na Boate Azul, conhecida como chácara da Maria Rosa.

Nessa boate, estão as garotas que cobram os preços mais elevados. O cachê pode chegar a R$ 100 uma hora de “puro prazer”, como garantem as garotas. Em média, um programa sai a R$ 70 na Boate Azul, onde as garotas dividem 6 quartos, para dormir e guardar seus mais valiosos pertences - suas roupas.

“Temos de tudo aqui: alisador de cabelo, aparelho para a famosa chapinha, secador, e também muitas roupas bonitas e sensuais. É assim que os homens gostam. Vamos sempre a salões de beleza, temos que nos cuidar. Tenho namorado, ele sabe o que faço, somente me cobra que eu sempre use camisinha”, afirma Z., de 22 anos, dois filhos e que cobra R$ 70,00 por programa.

Na Toca da Onça, onde seis garotas trabalham diariamente, dividindo três quartos, a gerente V. diz que as meninas também não fazem programa em sua casa noturna.

“Não fazemos programa algum aqui, quem vem atrás da gente tem que pagar um motel, além do nosso corpo. Não vamos atrás de homem nenhum ‘na cidade’, eles é que nos procuram, não adianta as mulheres ‘da cidade’ terem preconceito em relação a nós, que trabalhamos aqui, pois somos procuradas diariamente, todas as noites. Aqui nós sempre realizamos exames, ‘todos os exames’, e estamos sempre bonitas e cheirosas para atender bem quem nos procura, é assim que nos sustentamos e também sustentamos nossos filhos”, diz V.

No final da tarde da última quarta-feira, o movimento de garotas que eram levadas por seus clientes a motéis da região dos “prostíbulos” de Fernandópolis já era intenso.

“O movimento é maior mesmo à noite, e aos finais de semana, quando sempre aparecem mais garotas para trabalhar em alguma casa. Tem até algumas garotas de Fernandópolis mesmo, uma ou duas, mas isso de vez em quando”, afirma N., da casa Bombain, situada atrás da Toca da Onça.


SEM FOTOS

Quando o fotógrafo do jornal lhe perguntou se poderia ser fotografada, Z., da Boate Azul, pediu para que não saísse em foto alguma.

“Por favor, não posso. Eu adoro foto, gosto de ser fotografada, mas se meu pai chegar a ver uma foto dessa estou perdida. Minha mãe sabe, mas meu pai nem sonha com isso. No ano que vem pretendo ir morar com meu pai, e mudar de vida, não quero viver assim por muito tempo”, disse.

“Podem nos criticar, dizer que somos prostitutas, mas os ‘playboys’, ricos, senhores casados, vêm aqui atrás das meninas, e até dos travestis que trabalham em algumas casas aqui, e me lembro da música do Cazuza, que diz que a ‘burguesia fede’, e é verdade, pois somos tão criticadas, sofremos tanto preconceito, e aqui é muito freqüentado por burgueses, em seus carros bonitos”, enfatiza S., que é gerente de uma das casas.
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