Uma fernandopolense de corpo e alma

OBSERVATÓRIO - 19:10:54
Uma fernandopolense de corpo e alma

Na semana em que se comemorou o Dia da Escola (15 de março), o CIDADÃO entrevistou a professora Wônia Aparecida Franco Gomes. Ela chegou em Fernandópolis em 1952, vinda de Itápolis e se transformou em uma fernandopolense de corpo e alma. O que era para ser um período de férias de dois meses para ajudar a irmã Wandalice Franco Renesto que estava com a filha bebê, já dura 66 anos. Dos 85 anos a completar em abril, ela dedicou mais da metade à Educação. Foi professora de ir a cavalo dar aula na zona rural. Foi diretora de escola pública e particular. Já aposentada, voltou paras os bancos escolares para integrar a primeira turma de Direito da então Unicastelo, hoje UniBrasil, em 1998. Na formatura, foi oradora da turma. De corpo franzino, mas de opiniões fortes, dona Wônia, aproveita para dar um “puxão de orelhas” nos fernandopolenses. “Somos um povo muito solidário, mas na hora de lutar pela cidade, de unirmos num só povo para ver a cidade crescer, incrivelmente você percebe a desunião”. Perguntada se vai votar em outubro, ela soltou um sonoro “Lógico”. E justificou: “Não posso perder a esperança”. Dona Wônia Franco Gomes, filha de Paulo Isaias Franco e dona Ester Mione Franco (“Eles amavam Fernandópolis”), viúva de João dos Santos Gomes (de quem diz ter muita saudade) e mãe do advogado João Filho e do veterinário José Paulo, é a entrevistada de hoje. Veja:

A senhora viveu 42 anos de sua vida dentro de uma escola como educadora. Nesta semana (dia 15) foi comemorado o Dia da Escola. Como avalia esse período até os dias de hoje?
Acho que a gente deve voltar ainda vários anos atrás. Eu entrei no Grupo Escolar com oito anos, me formei com 19 anos. Depois desses 19 é que entram os 42. Fui aluna de uma escola em Itápolis, onde nasci e de onde sai depois que me formei, no tempo da guerra. Nós nos reuníamos em frente ao prédio imponente do grupo escolar e toda semana hasteávamos a Bandeira, cantávamos o Hino Nacional. Era uma época onde o nacionalismo aflorava, nós sentíamos na pele os problemas da guerra, dos nossos pracinhas que saíram da nossa cidade, nossos parentes, que foram para a Itália. Eu peguei essa época de amor à Pátria, de responsabilidade, respeito ao Hino, respeito à Bandeira. De certa forma, nos condicionaram a pensar no Brasil como algo nosso, como responsabilidade nossa. Depois que me formei, vim para Fernandópolis em dezembro de 1952. Aqui iniciei minha carreira, fui substituta no JAP (Escola Joaquim Antonio Pereira), fui professora de escola isolada, escola rural lá no seu Américo Messias, ia de charrete e quando havia algum problema, ia a cavalo. O magistério prá mim sempre foi uma continuidade dessa brasilidade que tinha dentro de mim. Amava e amo até hoje a escola. Sinto falta da escola e sigo tudo que acontece. E, posso dizer, estou preocupada.
Foi um longo compromisso com a Educação desde 1952?
Em 1953, ano que realmente comecei, porque mudei para cá em 52, fui professora substituta e efetiva. Naquele tempo tudo era feito por meio de concurso. Então para ser diretor de escola, nós tínhamos que ter três anos, no mínimo, de docência efetiva. Quando completei 3 anos e três dias me inscrevi no concurso de diretor de escola e fui muito feliz. Ai perambulei por vários lugares. Comecei em São João das Duas Pontes, fui para o Vale do Paraíba, voltei pra cá, fui para Palmeira d´Oeste e fiquei na Escola da Brasilândia (Escola Carlos Barozzi) por muito tempo. Sai da Brasilândia para ser supervisora escolar, que era na época inspetor escolar. Foram experiências magnificas, trabalhei com pessoas excelentes, recebia exemplos de interesse, de amor à escola. Então, costumo dizer, que fui muito feliz em minha carreira. Como supervisora, me aposentei e logo em seguida convidada para instalar o Anglo em Fernandópolis. As dificuldades para os filhos de Fernandópolis que sonhassem com uma escola superior eram imensas. Então o segundo grau do Anglo veio preencher uma lacuna. Ai me deparei com outra realidade. Aquela realidade da escola isolada, do grupo escolar, da escola pública era uma. A escola particular, de certa forma, me chocou, porque fui sentir outro mundo, o mundo daqueles que faziam o curso, não digo todos, porque os pais insistiam. Eu achava um absurdo, porque o ensino superior era uma meta, era um sonho. Mas, tivemos muita gente boa que hoje está lutando e fazendo por Fernandópolis, sonhando, porque o futuro é um sonho. Por mais que você tenha tecnologia, solte balões e mande foguetes para o espaço, se o homem não tiver dentro dele o sonho, o mundo não melhora. O mundo vai melhorar quando a gente se der as mãos e perceber que precisamos pensar no homem antes de mais nada, nas gerações que estão vindo e que poderão fazer muita coisa boa, não só na parte tecnológica. 
A senhora não é o tipo de pessoa que, após a aposentadoria, sentou-se na cadeira e esperou o tempo passar. Como foi a experiência de voltar à sala de aula como estudante do curso de Direito?
Olha, foi uma das experiências mais gratificantes que eu tive. Eu fui ser diretora de escola muito jovem e a maioria dos meus professores tinham quase o dobro da minha idade. Eu era uma pessoa que adotou uma pose austera, severa mesmo. Sentia, e isso é uma tolice, que precisava me impor, apesar da idade. E quando entrei para a Faculdade em 1998 eu mudei. Aprendi a rir das piadas. No começo, eles contavam piadas e queriam ver a minha cara para ver se estava vermelha. Quando sai, não contei muitas, mas cheguei até a contar piadas. Foi uma beleza, convivi com pessoas excelentes, com luminares do Direito, com pessoas que tinham amor, que queriam ver a escola crescer, queriam ver a nossa Faculdade ir para o máximo, que aliás, a gente está sentindo agora. Fernandópolis mudou completamente, não é mais aquela vila. É uma cidade universitária.
O que a moveu para cursar Direito?
Deve ter sido um sonho de menina. Quando era bem mocinha, era proibido assistir júris e eu dava um jeito de entrar no salão para escutar a veemência dos advogados, dos promotores, a rigidez dos juízes. Aquilo tudo me encantava. Acho que isso ficou guardadinho num canto do meu cérebro. E quando me aposentei, fiquei meio entediada. Os meus filhos e meu marido, acho que falaram: vamos ver um jeito da mamãe resolver o problema dela porque ela está chata demais (risos). Um filho que é advogado (João Gomes Filho) falou que dava material escolar. O outro, o Zé Paulo (veterinário) falou que pagava a mensalidade. Ai o negócio apertou. Fui fazer vestibular, fiquei muito feliz, sentei ao lado dos meus alunos que tinham vindo do Anglo, uma meninada alegre, barulhenta e algumas pessoas de mais idade, mas eu era, talvez, a mais velha. Fiz o vestibular, fui feliz, fui 98º lugar. Foi um período muito proveitoso da minha vida. Tivemos semanas acadêmicas, visitantes muitos bons, professores excelentes. Então, a vida acadêmica pra mim foi leve e solta. Imagina, fui até oradora da turma. Então, vivi mais um período diferente da minha vida, período menos pesado e mais alegre. Isso para a família toda foi uma alegria. Minha neta foi comigo buscar o diploma. 
Quando olha para o mundo de hoje, tem alguma preocupação?
Então, quando olho hoje, tenho um pouco de preocupação quanto à formação do indivíduo. As primeiras lições, a primeira professora, sempre foi a mãe. A mãe sempre ensinou o filho e a família exigia da criança, postura, respeito, responsabilidade, até com o material escolar, com o uniforme na nossa época. Nunca fomos ricos, a gente sabia o quanto o pai e a mãe mourejavam para a gente estudar. Vejo com muita tristeza, no fim do ano, aquelas folhas de apostilas rasgadas jogadas ao redor das escolas. Sou vizinha de duas escolas. Você vê um material maravilhoso, jogado. Primeiro, a poluição; segundo, a falta de cuidado. Não há amor no que se faz. Não estamos conseguindo pôr no estudante aquele senso de responsabilidade, talvez pela facilidade com que ele recebe. Vem muito fácil, joga-se fora, perde-se fácil. E a família, apesar de toda evolução, perdeu o foco. Eu sempre trabalhei 8 horas, mas o foco sempre foi a família, os meus filhos. Eu precisava fazer deles pessoas de bem e exigia que eles atendessem e respeitassem os professores. Agora está tudo meio confuso. A criança não tem mais limite. O mundo não é ilimitado e essa falta de limite me preocupa. As novas gerações, aonde irão chegar?
A senhora contou que veio de Itápolis para Fernandópolis, perambulou por várias cidades, mas sempre voltou prá cá. O que a prendeu aqui?
Engraçado, eu vim para Fernandópolis para ficar as férias de dezembro e janeiro. Aí houve possibilidade de lecionar e fui entrando nas realizações de Fernandópolis. A igreja precisava ser erguida, a escola tinha que ser aumentada e a gente entrou nessa engrenagem de fazer as coisas. Isso parece que nos deu uma identidade fernandopolense. A gente é ligada demais a Fernandópolis. Imagina, de 1952 a 2018 (66 anos), quanta coisa foi feita em Fernandópolis. Nós andávamos por trilhos, não havia calçada, asfalto, mas havia uma união imensa. Todos por Fernandópolis. E agora vejo com muita tristeza que é tão pouca gente por Fernandópolis. Alguma coisa que existe aqui, nós somos inimigos. Pessoas que trabalharam, que fizeram, que trouxeram, agora, desapareceram. Veja o valor das nossas faculdades. Apesar de todos os tropeços, a FEF foi a pioneira. As nossas primeiras enfermeiras, porque ela (FEF) nasceu de uma Faculdade de Enfermagem, estão em graus altíssimos em São Paulo. Você imagina o valor das nossas escolas? A Unicastelo, que agora é UniBrasil, é um orgulho para todos nós. Tem problemas, têm, como todos temos, como o País têm. Mas nós não abraçamos. É coisa de se orgulhar, do fernandopolense ir lá e ver o que tem de bom, como a Clínica Odontológica, a usina fotovoltaica que vai ser inaugurada agora, o aumento das vagas do curso de Medicina. Vamos dar força para os que estão lutando.
Fernandópolis é tida como uma cidade solidária, mas não é unida. Não é contraditório?
Acho que tem um resquício político nisso tudo. Nós somos solidários, temos cerca de 90 associações que se dedicam aos menos favorecidos. Mas, na hora de lutar pela cidade, de unirmos num só povo para vê-la crescer, incrivelmente, você percebe a desunião. Humanismo também tem a ver com progresso, com crescimento. As pessoas que vieram aqui dar sua contribuição para fazer isso crescer, merecem o nosso apoio. Me dói ver isso. Nós reclamamos demais. Então, esse orgulho de Fernandópolis, podemos dizer esse nacionalismo pró Fernandópolis, eu não vejo. Independentemente de quem tenha feito isso ou aquilo, mas está fazendo pela cidade. Temos que separar nosso egoísmo e ver o bem geral. 
Esse ano tem eleições e a senhora, por lei, está dispensada da obrigatoriedade do voto. Mesmo assim, vai votar?
Lógico (com muita ênfase). Eu não posso perder a esperança. A única arma que o brasileiro tem em mãos é o voto. E precisa se informar, não pode vender o voto. Ele vai conquistar a cidadania através do voto. Precisamos melhorar. Chega do quanto pior, melhor. Acabou isso. Precisamos romper essa linha de corrupção, de insegurança, de desânimo. É só com o voto. Eu, por exemplo, acho que Fernandópolis foi bem servida pelos seus deputados. Vamos dar um voto de confiança nesse povo. Vamos votar pensando na melhoria. Desde os meus 18 anos eu venho votando. Nunca perdi uma eleição. Cheguei até ser presidente de mesa na votação. É só fazer as contas. Olha que sou campeã, hem. Adoro votar, ainda mais agora, octogenária, voto na frente (risos). Sou otimista, acredito muito no homem, acredito muito em Deus. Deposito muita fé e confiança. Precisamos fazer de Fernandópolis a cidade almejada por todos. Ela já deixou de ser cidade moça, já é uma bela senhora encanecida. Vamos dar as mãos.

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