A força de uma mãe com o coração despedaçado

OBSERVATÓRIO - 18:26:03
A força de uma mãe com o coração despedaçado

Quem conhece a história de João Pedro Azevedo, mal consegue se lembrar dela sem embargar a voz e lacrimejar os olhos. O garoto, de apenas oito anos, se tornou símbolo da luta contra o Câncer e, mesmo tão jovem, deixou um lindo legado antes de partir. Porém, por trás de toda essa história existe um coração de mãe que se revestiu de força e esperança durante e foi completamente despedaçado no fim dela. 

Desde a morte de João Pedro, em 2015, esta é a primeira vez que Luciana Azevedo consegue falar abertamente sobre tudo. Em prantos, é claro, ela abriu seu coração em uma entrevista emocionante. Veja:

Vamos começar do começo: como foi quando você descobriu que estava grávida do João Pedro?  
Me casei com o Claudio em 17/07/2004 e, em comum acordo, decidimos que se eu ficasse grávida, seria muito bem-vindo. Depois de alguns alarmes falsos eu engravidei. Ficamos imensamente felizes e acreditem, desde o primeiro momento eu já sabia que era um menino, eu sentia, comprava tudo de menino. Era um sentimento forte. Minha gestação foi maravilhosa, tranquila, sem nenhuma intercorrência. Meu João Pedro estava a caminho.
E quando descobriu o Câncer dele, o que passou pela sua cabeça?
Pois é, o João nasceu lindo e cheio de vida. Era nosso primeiro filho, tinha plano de saúde e fazia consultas de rotina ao pediatra. Ele nasceu em 22/11/2006 e no início de 2009 ele começou a ficar doente. Até então era infecção de garganta, ouvido, coisas normais que toda criança tem. Até que um dia, uma das tias da escola me disse que tinha percebido que os olhos dele estavam “saltados para fora”. 
Foi tudo muito rápido, pois enquanto íamos levá-lo ao oftalmologista, percebemos também as manchas rochas e a dor nas pernas. A intensidade da dor nas perninhas dele foi aumentando e, simultaneamente, vinhas as infecções, a falta de apetite, etc. Depois de inúmeras idas a médicos (pediatra, ortopedista, dermatologista, neurologista ...) e muitos exames, fui ao hospital numa noite e o pediatra de plantão me ouviu, olhou o hemograma dele e me disse “Acho que tudo o que a senhora está me contando se resume em um probleminha que ele está no sangue”. Ele pediu para que eu procurasse um hematologista e, por coincidência, eu já tinha levado o João na doutora Brígida no dia anterior. Então ele olhou pra mim e disse “Agora a senhora está no caminho certo”. No outro dia, num sábado, pela manhã estávamos no consultório da doutora e ela já escrevia uma carta que encaminhava o João para um especialista “no problema dele”. Até então ninguém tinha dito o que ele tinha. Pena que não posso descrever meus sentimentos de desespero em palavras.
Vocês lutaram bravamente contra essa doença. Se arrepende de algo que fez ou que deixou de fazer?
Fomos a Rio Preto, a referida especialista no “problema do Joao Pedro” atendia no Hemocentro de lá. Chegamos, paramos na recepção e.... foi como seu eu tivesse passado por uma porta e entrado em outro mundo, ainda desconhecido por nós. Fizemos a parte burocrática, nesse tempo eu já estava grávida da Ingrid (hoje com 8 anos), entramos e vi muitas crianças carecas... muitas mães sentadas em volta de uma mesa retangular. Cai em prantos, pois tive medo, por meu filho. 
Uma das mães me acolheu, sentou-se comigo. Na hora da consulta a Dra. Leila disse que dali o João Pedro ficaria internado para realização de exames. Chegamos ao Hospital de Base, subimos para o quarto e logo a Dra. chegou. Ela disse que tinha duas hipóteses diagnósticas, “seu filho pode ter um tumor atrás dos olhos ou Leucemia”. 
Chorei, chorei, chorei!!!! Enfim, ele foi diagnosticado com Leucemia Mieloide Aguda (LMA). Assim em julho de 2009 começava a nossa luta. O tratamento é muito dolorido, as quimioterapias judiam e a cada intercorrência que o João tinha, tínhamos que levá-lo ao HB. 
Muita agulhada, não achavam a veia, sentia enjoos. Lembro-me que ele tomava um comprimido que se parecia com um grão de feijão. Como ele tinha dois anos e meio, dava o comprimido no meio de uma colherada de Danone para ser mais fácil de engolir. Nós, como pais, fizemos por ele muito mais que podíamos. A Ingrid foi privada de muita coisa, pois se o João não podia ir a algum lugar, não íamos, se ele não podia comer algo, não comprávamos. Mas, para ela isso não fazia falta, por que ela era muito pequena e não conhecia outras coisas. 
Não nos arrependemos de nada do que fizemos para o João, faríamos novamente e a única coisa que deixamos de fazer a ele foi levá-lo à praia, pois a Dra. não podia liberar pelos riscos que passeio oferecia à saúde dele.
Essa batalha deixou um legado que a cada dia cresce mais com o “Seja um Herói, Salve Vidas”. Se orgulha disso?
Realmente foi uma batalha de cinco anos e meio. O João sempre respondeu bem ao tratamento, o problema é que a própria medula dele produzia as células cancerígenas novamente, daí aconteciam as recaídas. Em cada recaída as quimioterapias eram mais fortes e agressivas. Em 2013 a doutora disse que ele precisava de um transplante e o Cláudio, eu e a Ingrid fizemos o exame para saber se éramos compatíveis, mas nenhum de nós tinha a compatibilidade ideal. Foi assim que nasceram as campanhas que tomaram uma proporção tão grande que fez nascer o projeto “Seja um Herói, Salve Vidas”. Tenho um imenso orgulho do projeto. Não posso acompanhar o Cláudio em tudo por causa do meu trabalho e das meninas, mas as forças dele se renovam a cada dia, a cada campanha, a cada reconhecimento. 
Sabemos que pessoas que se cadastraram em campanhas feitas pelo projeto já foram compatíveis e salvaram vidas. O que nos dá forças é acreditar que cada um nasce com sua história escrita, que cada pessoa tem um propósito para estar nesse mundo e que as pessoas não passam por nossas vidas por acaso. Apesar de triste, a história do João foi linda, quem o conheceu com ele muito aprendeu. 
Agradeço a Deus por nunca ter faltado sangue em cada vez que o João precisou transfundir, e em cada internação eram várias transfusões. Doar sangue é tão importante que não dá nem para definir em palavras e o projeto tem papel de conscientizar o máximo de pessoas possíveis sobre isso. Não dá para não ter orgulho.
Sei que é difícil falar sobre, mas mesmo tendo outras duas filhas, como ficou seu coração de mãe sem o João Pedro?
Falei com o João no dia 23/3/2015 à noite, ele no hospital e eu em casa. Estava combinando com ele o que ele queria que eu fizesse de comida para levar para ele (fazia várias marmitinhas com o que ele gostava de comer para o hospital. Acordei no dia 24 com minha cunhada batendo no portão vindo me avisar que ele havia falecido. O Claudio não teve coragem de me ligar. Ele não sabia como daria a notícia para mim, afinal eu tinha feito uma cesariana 20 dias antes, eu ainda estava em repouso. 
Ao receber a notícia fiquei em choque, me preocupei como daria a notícia para minha filha que já tinha cinco anos. Nesse dia não tinha mandado a Ingrid para a escola, revesti de uma força (que não sei de onde veio), liguei para a escola e pedi se ela podia ir atrasada, pois minha preocupação era ela ver todos chorando, o que isso podia causar um trauma para ela. A levei. 
Pessoas chegavam na minha casa e eu em choque, nem sei se chorei. Quando cheguei no velório e ele chegou... Meu Deus!!! Ninguém se imagina passando por isso, eu ver meu filho, tão lindo (ele estava lindo, corado, com aspecto feliz, dormindo) Eu não esqueci de nada do que ele passou, esse filme, as lembranças dele me acompanham 24 horas por dia. 
A dor e a saudade não passam, você aprende a conviver com elas. Me pergunto por quê.... eu pergunto Deus por quê... eu me revoltei... tive de começar a tomar remédios... Enfim, eu nunca mais serei a mesma, ninguém que passa por isso continua sendo o que era. Não me acho forte, tive que me revestir de uma força que não existia em mim, isso me desgasta dia a dia. Não tenho mais meu filho para cheirar, para abraçar... ele não está aqui para eu chamar de “meu príncipe, te amo mais do que o infinito”.
Em meio a dor de perder um filho, você teve que encontrar forças para se reerguer, afinal tinha uma filha recém-nascida e outra crescendo rápido para cuidar. Como isso foi possível?
Eu já estava realizada como mãe, pois já tinha um casal. Quando decidimos ter outro filho sabíamos que poderia dar certo ou não. A Isadora nasceu com 100% de compatibilidade com o João, Deus me deixou realizar, como mãe, tudo o que estava ao meu alcance. 
O João conheceu sua irmã (foi somente um encontro no hospital e ele estava muito debilitado), mas Ele tinha escrito outro desfecho para nossas vidas. Após a morte do João, várias coisas passaram por minha cabeça, mas eu tinha que amamentar uma recém-nascida e tinha uma de cinco anos que também estava sofrendo com a morte do irmão. 
Tento ser forte todos os dias, pois a vida continua, tenho meus afazeres domésticos, trabalho, sou esposa e mãe. De nada adiantaria eu ficar depressiva sem conseguir fazer nada, isso não traria meu filho de volta.
Vou vivendo e sobrevivendo, pois amo minhas filhas, meu esposo, minha família. Eles são a razão de tudo para mim. Mas não vou negar que penso em como estaria minha vida se tudo tivesse sido diferente. Não tive a felicidade de ver os três juntos, em casa, brincando... e em todos os nossos momentos familiares. Penso sempre em como seria se o João Pedro estivesse com a gente. 
Porém, os planos de Deus são diferentes dos nossos. O João é um anjo que passou por aqui para deixar uma lição de luta e de amor ao próximo. Ele era uma criança madura, inteligente e estava sempre sorrindo. Que todo o sofrimento que ele teve sirva de exemplo para que pensemos no próximo. 

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