“Falta de sangue é um problema sem fim”

OBSERVATÓRIO - 18:37:30
“Falta de sangue é um problema sem fim”

Estamos vivendo a campanha “Junho Vermelho” para comemorar o Dia Mundial do Doador de Sangue – 14 de junho. A semana que marcou a paralisação dos caminhoneiros, o banco de sangue do Núcleo de Hemoraterapia de Fernandópolis quase entrou em colapso. O estoque de bolsas para atender a demanda dos hospitais estava no limite crítico e obrigou a suspensão de cirurgias em hospitais de Fernandópolis, Jales, Votuporanga e Santa Fé do Sul. “Foi um horror. Imagina que precisei ligar para o Hospital de Câncer e pedir para um colega que fizesse só cirurgia de emergência. Como é que você pede isso num hospital de câncer, onde tudo é urgência, tudo tem necessidade de ser feito logo? Eu fiquei doente”, disse emocionada a médica hematologista e diretora do Núcleo de Hemoterapia de Fernandópolis, Brígida Cristina do Amaral Botelho Prudêncio. Formada há 44 anos, a Dra. Brígida vive essa luta há 41 anos e diz que nunca trabalhou com folga de bolsas para atender emergências. “É um problema ad aeternum (que não tem fim)”, disse nesta entrevista ao CIDADÃO onde lágrimas não puderam ser contidas em face da emoção. “A gente ouve a pessoa dizer que vai ajudar no almoço da entidade, vai doar uma cesta básica, mas não ouve dizer que vai doar sangue. Caridade a gente não faz só com o bolso, a gente faz com atitude”, lembra. A entrevista é mais um grito de alerta por sangue. Veja:

Há quanto está nessa área de banco de sangue?
Eu me formei em 1974, fiz três anos de residência e desde então trabalho com sangue. Estou completando 44 anos de formada. Então, vamos dizer que há 41 anos a gente luta por sangue. Eu vou contar um fato. Tenho um filho, hoje adulto, mas ele era ainda pequenininho. Isso para ver que o problema existe ad aeternum (que não tem fim). Ele ainda mamava na mamadeira e um dia estava deitado, devia ter uns três aninhos por aí. E ele ouviu a sirene da ambulância subindo a avenida. Ai ele tirou a mamadeira da boca, me olhou e perguntou: Mãe, tem sangue? Eu falei: tem. Ele pôs a mamadeira na boca e continuou mamando. Então, você me perguntou há quantos anos eu faço isso? E você vê que nada mudou, continuamos sem sangue até hoje.
O que explica esse comportamento da população?
Acho que a nossa população não é educada para isso, ela não é educada para uma série de coisas e essencialmente para isso. Existem muitos trabalhos comprovando, por exemplo, que na Alemanha, na Inglaterra, na Europa em si, quando foram entrevistar doadores para saber por que eles doavam e a resposta foi: porque o meu pai doava. Aquele pessoal viveu uma grande guerra e todo mundo ia doar sangue e levava os filhos, que foram tomando consciência. A gente aqui também estimula para que os pais tragam os filhos para que olhem isso. Acredito que é um trabalho que tem que começar na escola. Não se ensina a meninada a respeitar o sinal de trânsito? Para resolver esse problema da doação de sangue é preciso começar na escola e isso é de longo prazo. Outro dia ouvi de uma pessoa que, se fizer uma campanha duas vezes por ano, resolve o problema. Não resolve, o sangue dura 35 dias na geladeira, isso é um processo continuo, não para. Ninguém escolhe o dia que vai ficar doente, que vai precisar de sangue. Então, temos que ter sangue todos os dias, todas as horas, para atender a quem precisa.
Neste tempo todo que trabalha com sangue, já viveu uma semana tranquila, com estoque de sangue suficiente?
Não, sempre estamos no limite, as vezes uma folguinha maior ou menor, mas dizer que estamos com estoque máximo, não teve esse dia ainda, infelizmente.
Algum dia a senhora temeu que faltasse sangue para alguém?
Vários dias. No início da semana passada, por conta da greve (caminhoneiros), foi um horror. Imagina que precisei ligar para o Hospital de Câncer e pedir para um colega que fizesse só cirurgia de emergência. Como é que você pede isso num hospital de câncer, onde tudo é urgência, tudo tem necessidade de ser feito logo? Eu fiquei doente (se emociona). Mesmo fora da cidade fazendo um curso, eu monitorava a situação e no primeiro momento que o estoque melhorou eu liguei para esse colega no Hospital de Câncer e liberei as cirurgias, Então a gente tem um conflito e fica desesperado. E se fosse o meu filho, minha mãe, como ia ser? Eu trabalho muito assim: o que não quero para os meus, não quero para os outros. 
Geralmente em episódios trágicos, as pessoas acorrem ao Núcleo de Hemoterapia para doar sangue e chega até formar fila...
Você vê isso quando um jovem sofre um acidente de moto. A gente atende uma porção de pessoas que vêm doar. A hora que se fala que paciente morreu ou melhorou, esvazia tudo. Então o pessoal tem que entender que aquele não é o único paciente, nós temos outros, temos anônimos, temos pacientes que não têm nem família, mas é gente do mesmo jeito. Estamos aqui para tratar todos. O pessoal tem que ter sensibilidade. A gente ouve a pessoa dizer que vai ajudar no almoço da entidade, vai doar uma cesta básica, mas não ouve dizer que vai doar sangue. Caridade a gente não faz só com o bolso, a gente faz com atitude (em lágrimas)
Tem esperança de mudança?
Acredito que sim, mas não vai ser pra mim. Mas, se mudar está bom, quem vir depois vai colher. O que importa é que colha. Eu vou continuar lutando enquanto estiver aqui.
Na sala de entrada do Núcleo de Hemoterapia tem um banner dizendo quem não pode doar sangue. A restrição é grande?
Sim, é muito restritivo. Por que além de precisar do doador aqui, temos que garantir a qualidade do sangue. As vezes tem doador que reclama que foi reprovado “só por isso”. O meu argumento é sempre esse: e se o senhor fosse paciente, gostaria de receber um sangue sem qualidade? Temos que pensar no outro. É por isso que pedimos sempre que a pessoa que recebe uma doação traga mais doadores do que a quantidade de sangue que recebeu. Se precisou de uma bolsa, tem que trazer três doadores. Por que reprova na entrevista, na sorologia. Então, de tudo que entra, a gente tem uma peneira interna. Para se conseguir uma bolsa adequada, nós passamos por longos processos. As reprovações ocorrem por diferentes razões, um porque teve gripe, outro que tomou vacina, pulou a cerca, toma remédio, outro porque vai arrancar dente. Entendeu? Nós temos que garantir a saúde do doador, a qualidade do sangue que vamos utilizar e isso exige uma peneira muito fina. Então, temos que ter gente na porta para doar.
A campanha pela liberação de doação de sangue por parte dos homossexuais. A senhora acha que haveria algum problema?
Cientificamente é comprovado que a homossexualidade masculina tem uma chance maior de o indivíduo ser portador de alguns vírus sexualmente transmissíveis. Então isso é uma discussão científica e, em nenhum momento, é uma discriminação. Agora a Justiça está querendo liberar, ou já liberou, e acho isso uma temeridade, porque se a ciência prova, aquilo tem que ser estabelecido. Nada contra a sexualidade de cada um, é um direito de opção. Nada contra, tenho grandes amigos que são homossexuais. Pra mim, isso não tem problema nenhum. Só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se os trabalhos científicos comprovam que a chance de contaminação é maior nos homossexuais a gente deveria obedecer. Eu entendo isso não como discriminação, não como restrição, mas uma evidência da ciência. É diferente.
Como é o processo utilizado para qualificar o sangue para doação?
O Ministério da Saúde adotou o teste NAT (Teste de Ácido Nucleico). Este teste é feito para hepatites B e C e HIV. Ele diminui a janela imunológica. A transfusão não é 100% segura, mas ela é muito mais segura do que era há 10 anos. E esse teste é que vem garantindo esta melhoria da qualidade do sangue. Sempre tem quem pergunta se (a transfusão) é 100% garantida? Nada é 100%, só que vamos morrer é 100%, o resto, mais nada é 100%,
Neste momento que estamos vivendo o “Junho Vermelho” por conta do Dia Mundial do Doador de Sangue (14 de junho), o que diria às pessoas que só se mobilizam quando o problema bate à sua porta?
Isso é uma verdade. A gente tem muitos doadores que tornaram doadores depois que foram pacientes e precisaram de sangue. O indivíduo sentiu na pele a necessidade. Um dia precisou e agora sabe o quanto é importante doar. O que a gente gostaria é que as pessoas entendessem que podem não precisar um dia de sangue, mas precisamos ter consciência de que a gente precisa doar sangue. E é melhor que a gente faça sem que tenha essa necessidade. E todos precisam se lembrar disso. As pessoas podem marcar datas especiais, o aniversário ou alguma outra data marcante (Natal, Ano Novo, Carnaval), para ser doador uma, duas, três vezes por ano. Ele faz um compromisso com ele mesmo e as datas ajudam a se lembrar desse compromisso.
Essa semana foi mais tranquila?
A gente está colhendo ainda um pouco da semana passada após apelo na TV que trouxe muita gente ao Núcleo. Só que isso me preocupa, porque no inverno a gente sabe que diminuem as doações e o pessoal não pode esquecer que na semana passada foi uma situação caótica. Mas já deu uma melhorada. E temos que continuar assim, porque temos que ter condições de atender todos os pacientes e todos os hospitais.
Quantos doadores seriam necessários para atender as necessidades?
Eu preciso em torno de 1.500 a 1.800 doadores por mês. Mas, acredito que se colhêssemos 60 bolsas por dia, o que daria cerca de 1.300 doadores/mês, a gente iria respirar.
Alguma vez atingiu essa meta?
Atingíamos quando a gente fazia coleta externa.
E por que parou essa coleta externa?
A coleta externa parou por causa da legislação trabalhista. Como vou colher numa cidade em que colho 150, 200 bolsas ai eu paro a equipe porque é hora do almoço e deixo o pessoal na fila esperando? Este é o país que nós vivemos. Muita dificuldade. A equipe ia para o trabalho e tudo era normal, a gente fazia revezamento na parada para que o trabalho de coleta fosse contínuo. Só que tinha que ter o raio da hora registrada. Ai não deu mais certo. Então deixamos de fazer essa coleta e só colhemos aqui. E isso é um problema, porque se tiver um funcionário com 6 horas e 1 minuto, o Hemocentro pode ser autuado. Eu sinto muito, porque falo que aqui a gente não vende sonho, nem ilusão, a gente vende uma realidade nua, crua e dura. Mas, como afirmou um promotor, não de Fernandópolis, que a lei foi feita para todos e para ser cumprida. Então, isso é que o a gente vive nesse país.

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