O Anjo da Guarda dos animais

OBSERVATÓRIO - 19:27:12
O Anjo da Guarda dos animais

Simone Aparecida do Nascimento, 38 anos, está há 11 anos no comando de uma ONG denominada de Afada – Associação Fernandopolense de Amigos em Defesa dos Animais. Na verdade, Simone é uma espécie de Anjo da Guarda dos animais vítimas de todo tipo de violência. O seu trabalho é recolher esses animais, recuperá-los e, depois, tentar conseguir quem os adote. Atualmente, ela instalou o canil da ONG em uma propriedade rural que pertence ao pai e ali vive entre cães e gatos. “São 11 anos de renascimento na minha vida”, diz ao enfatizar que tudo o que faz pelos animais recebe em troca um amor sem preconceitos, incondicional. Além do trabalho desgastante do lado emocional ao lidar com animais mutilados, agredidos, vítimas de maus tratos, Simone também enfrenta as dificuldades financeiras para manter o trabalho, que não tem ajuda oficial. Por isso vive nas redes sociais fazendo apelos. Toda a ajuda que recebe vem dessa rede de amigos que tem na internet. “Recebo ajuda do Rio de Janeiro, da Bahia, e principalmente de Fernandópolis. Sem essa ajuda não teria como tocar o trabalho”, relata. Em entrevista ao CIDADÃO, ela conta que chegou a se candidatar duas vezes na esperança de usar o salário de vereadora para tocar sua ONG. Hoje, desiludida, diz que desistiu da política, mas garante que dos animais não desistirá jamais. Veja a entrevista: 


A Afada completou 11 anos de existência como ONG. Como você resume esse tempo?
São 11 anos de renascimento na minha vida. O que faço, esse amor, essa dedicação, eu tenho de volta em forma de um amor verdadeiro, incondicional, sem preconceito, o amor sem pedir de volta. Foram 11 anos de troca. Eu fiz por eles e eles fazem por mim, no sentido de fazer a gente enxergar o mundo de forma diferente, começar ver grandes coisas em pequenos gestos dos animais. Foram 11 anos, que não tenho palavras para expressar. Nem sei quantos resgates, quantas adoções. É muito emocionante falar disso. 
Em que momento da sua vida decidiu que tinha dedicar a vida pelos animais?
Eu sempre digo que, a gente nasce amando os animais e foi o meu caso. Cresci com gatos e cachorros. E foi sempre esse amor. Eu trabalhava com meu pai e a gente comia fora, pegava marmita, mas sempre que via um bichinho, deixava de comer para alimentá-lo. A minha luta pelos animais foi toda a vida. Chegou um momento que decidi: vou viver para eles. Isso foi após decepções com o ser humano, é um mundo injusto, a gente escuta coisa que não quer, isso foi cansando. Saia com amigos num dia, no outro já não tinha amigos. As pessoas te julgam pela aparência e isso foi cansando. Parei e decidi dar um novo rumo à minha vida e vou ser feliz cuidando dos animais.
E cuidar dos animais de traz essa felicidade?
Meu Deus, é a minha vida. Não tenho palavras para te responder, o coração bate forte. É minha vida, eu amo, amo, amo.
Qual a condição da Afada hoje?
É um vai e vem, como a maré. Por mais que seja uma ONG (Organização Não Governamental) ela é totalmente particular. Sou eu quem cuido, tenho apoio do meu pai e da minha mãe. Voluntários, às vezes vão lá um dia e não voltam mais, porque realmente é cansativo. Lá a gente tem que manter todos os trâmites legais, a higiene e limpeza, então é cansativo mesmo. Graças a Deus não posso reclamar, tenho muito ajuda, de ração, de dinheiro, medicamentos. Mas, para manter tudo certinho os gastos são muito altos. E isso obriga todo mês a realizar uma promoção, uma rifa, bingo, pizza, para gente poder tocar esse projeto.
Todo esse sacrifício pela causa vale à pena?
Vale muito à pena. Não sei as pessoas conseguem sentir o que estou falando, mas você pegar um animal que foi vítima de maus tratos, todo ensanguentado, ferido, mutilado, levar ele para casa, passar dias e noites fazendo carinho, cuidando, fazendo todos os procedimentos e de repente no outro dia, esse cachorro está pulando em você, é muito emocionante, porque é uma vida salva. É uma vida, não adianta falar que é um cachorro, é um gato, é uma vida, uma obra de Deus. E isso é muito gratificante.
São muitas as histórias acumuladas ao longo desses onze anos. Dá para relatar alguma?
Meu amigo, são tantas histórias vivenciadas a cada dia. Eu não pego animais bonitos que estão soltos pela cidade. Tem milhares de casos, como do cachorro que o dono estava esfaqueando e eu cheguei na hora. Tem um caso comovente, logo no início da Afada, quando jogaram ácido no rosto de uma gata e a veterinária teve de arrancar os olhos para o ácido não atingir outros órgãos e hoje ela tem a cara normal e vive mais que os outros gatos, caminha, quer caçar passarinho. É incrível, o animal te mostra muito. Tivemos o caso de uma cachorra que ficou paralítica porque, infelizmente foi abusada sexualmente, outra em que precisamos fazer várias sessões de acupuntura porque ficou com o caroço na cabeça pelas pauladas desferidas pelo dono. Temos um caso novo de um cachorrinho pinther que levou um chute, está com a mandíbula quebrada, está deslocada, não tem mais cirurgia que faça voltar, Tenho que dar comida na boca, só que a hora que ele me vê parece que vai voar, atravessar o canil de felicidade. São casos assim e muitos.
Como são as etapas desenvolvidas na ONG, desde a chegada do animal até a adoção?
É importante deixar claro a forma que trabalho, por que não adianta me levar animais. Antes, quando recebia todo o animal que me levavam acabei descobrindo que o próprio dono estava se desfazendo do animal. Ele chegava falando que tinha encontrado o animal abandonado. Fui aprendendo com isso. Então não adianta levar o animal. Quando tiver algum bichinho nesta situação, me liga, vou lá com minha advogada, tiramos foto, registramos Boletim de Ocorrência e depois vai para veterinária para ser examinado e passar por todos os trâmites, vacinação, castração, vermifugação e internação, se for o caso. Depois é que vai para ONG e entrar para adoção. Alguns animais não entram para adoção porque ficaram com sequelas e a gente sabe que as pessoas têm seus compromissos e nós temos medo de doar um animal que precisa de remédio todos os dias e muitas pessoas não têm como cumprir essa rotina. Os que vão para adoção, têm que passar por documentação de posse responsável, a pessoa não pega o animal na ONG, eu vou na casa para ver condições de higiene e de espaço. Deu certo, está tudo bem, então vamos acompanhar por alguns meses para ver como está vivendo o animal. Infelizmente, teve caso de pegar o animal de volta, porque eles ficavam amuados, não comiam, não bebiam e a pessoa ligava dizendo que o animal estava doente. Não, nós não doamos animal doente. Lá no canil, os animais tem sua caminha, bebedouro, comedouro, tem área de lazer para eles passearem, área para correr e eu fico muito tempo com eles. Como são animais que já foram vítimas de maus tratos, então me desdobro para dar carinho e atenção. Todos têm nome, dou banho, corto as unhas, tenho todo esse cuidado. Eu falo bom dia, boa tarde, boa noite, faço oração para eles quando vou embora, peço a proteção dos anjos. Eles são tratados com muito carinho e um bom atendimento, tanto que quando tivemos a fiscalização o pessoal falou que nunca tinha visto local em que os animais são tratados dessa forma. Então, muitos animais quando são adotados, sentem falta do carinho que recebem aqui. Tive um caso recente desse e fomos descobrir que o animal adotado estava deprimido, sentindo minha falta.
Apesar de toda dificuldade, você conta com uma rede de apoio, não?
Eu tenho as pessoas que me acompanham no facebook que é “Simone Protetora”, tenho o meu Istagram que é “Simone Protetora dos Animais”. Eu luto, dou a minha cara à tapa, se tiver que andar na rua pedindo ajuda, socorrendo, faço isso diariamente. É dessa maneira que as pessoas vão me conhecendo e me ajudando.
O canil tem um limite para receber animais?
Tenho que prezar pelo padrão, não posso ter superlotação. Muitas vezes perdi amigos, porque falam para resgatar um animal, mas se tiver com um certo número de animais dentro do canil, não vou resgatar, vou ajudar no local. 
Você conseguiu ter hoje um espaço mais amplo para instalar o Canil. Isso trouxe mais tranquilidade para acolher os animais?
Eu gosto de falar sobre isso, porque muitas pessoas pensam que ganhei, que a prefeitura deu a área. Não, foi uma luta. Eu já morava no sítio, porque tenho os meus animais e por problemas com a prefeitura, com os lugares que alugava, tivemos até uma ordem de despejo. Então o meu pai emprestou uma área em sua propriedade rural, em comodato, e no fundo eu montei o canil, fechado com muro de placa, que é onde os animais vivem.
Por conta da sua luta pela causa dos animais, você chegou a disputar por duas vezes a eleição para vereador. Como avalia a experiência?
Olha, até hoje as pessoas me param na rua e dizem que vão votar em mim. Mas, quero deixar claro que não vou ser mais candidata. Pode compartilhar essa informação. Eu fui candidata a primeira vez pensando nos animais. As vezes chego a me humilhar para pedir ração para tratar os animais ou mesmo um remédio. Então, entrei na política somente para ter o salário e poder cuidar deles. Foi frustrante, porque na primeira eleição (2012), tive mais de 400 votos, fiz a campanha a pé, já que meu carro fundiu o motor. Depois por impugnação do candidato, meus votos nem foram somados. Na segunda eleição (2016) tive quase 700 votos, participei a convite mas entrei pensando nos animais, claro. Fiquei muito decepcionada, é muita deslealdade que a gente vê na política, claro que não estou falando de todo mundo, então não quero mais.
Nesses 11 anos, que tipo de ajuda a Afada teve de forma oficial?
Nenhuma, de ninguém. Já fui procurada por diversos ‘grandões’ da política, gente que hoje é deputado, inclusive presidente da Assembleia Legislativa. Me chamam para ajudar na campanha prometendo abraçar a causa, ingenuamente acreditei. Só que eles ganham e viram a costas. Nunca tive ajuda de político nenhum, nem da prefeitura. A ajuda que tenho são de amigos, dos que me acompanham pelas redes sociais. Tenho ajuda que vem do Rio Janeiro, tem uma da Bahia e as pessoas daqui. São eles que ajudam a manter essa ONG. Sou muita clara no que faço. Quem me acompanha no face pode ver as postagens. Hoje mesmo (terça-feira) postei o recibo da Clínica Veterinária. Tudo que pago eu mostro. O animal que resgato, coloco a foto dele antes e depois. Sou muito transparente, faço tudo com seriedade. 
E como sempre a Afada precisa de ajuda e neste final de semana tem promoção?
É um bingo beneficente que será neste domingo, 19, no Centro Pastoral da Brasilândia, ao lado da Igreja. Já conseguimos mais de 90 prêmios, incluindo bicicleta, caixas térmicas, lixeiras e muitos outros prêmios, muito bons. Será uma manhã festiva, vai ter show ao vivo, para comer vamos servir pastel, porção de frango, espetinho, chopp, refrigerante, suco de laranja, um ambiente muito familiares e agradável. Começa às 10 horas e vai até às 16 horas. Se a gente for pensar em tudo, para quitar débitos em casas de ração, veterinária, a gente precisa de uns R$ 10 mil. Mas, sabemos que não dá isso, porque para realizar o evento temos muitas despesas. O que sobra a gente destina. É um dinheiro que contamos, graças a Deus.
Por tudo que já passou, algum dia pensou em parar o trabalho da ONG?
Pensei várias vezes, porque não são apenas as dificuldades, mas mexe muito com o emocional da gente. Muitas pessoas machucam com palavras. As pessoas precisam entender que faço um trabalho voluntário, é a vida que deixei de viver pelo animais. 
As pessoas reclamam até se demoro para responder mensagens. Então, já teve momento que disse: chega. Mas quando você entra naquele portão, vê aquela alegria, aquele amor... Meu Deus do Céu, onde fui me meter, não tem jeito de sair. Vou viver para o resto da vida cuidando desses bichinhos (em lágrimas).

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