“Tia Tomiko”, 40 anos dedicados a alfabetização das crianças

OBSERVATÓRIO - 20:17:06
“Tia Tomiko”, 40 anos dedicados a alfabetização das crianças

“Senhor, um dia, sob o vosso olhar protetor, iniciei uma vida de trabalho nesta escola querida. Ao concluir minha jornada de educadora, diante desse mesmo olhar, posso dizer: missão cumprida! Obrigado Senhor. A todos que comigo partilharam os mesmos ideais de construção, paz e amor, junto a EEPG Afonso Cáfaro, o meu especial carinho e gratidão. A sempre amiga, Tomiko Arakaki Uietanabara”. Foi com essa mensagem que em 14 de março de 1987, a professora Tomiko, a “Tia Tomiko” de várias gerações de alunos que aprenderam a ler, escrever e fazer as primeiras continhas, se despedia de uma jornada na escola pública que durou 28 anos e que foi iniciada em 1959, quando Fernandópolis ainda era uma cidade em construção.  O ciclo, porém, foi reaberto e ela voltou para mais 12 anos em sala de aula em duas escolas privadas, completando mais de 40 anos como educadora. Aos 83 anos, ela recebeu na terça-feira, 9, CIDADÃO para uma entrevista especial. Afinal, segunda-feira, dia 15, é Dia do Professor. E nada melhor do que relembrar essa trajetória de 40 anos na educação como homenagem aos mestres. A professora Tomiko ainda guarda a caderneta onde anotava os pontos que somava no início da carreira. Lembranças de uma vida que construiu ao lado da família, do marido Fernando Uietanabara e dos filhos. A mocinha que chegou em Fernandópolis em 1959, vinda de uma cidade grande, Catanduva, só tem gratidão à cidade, onde construiu sua história e sua família. A entrevista é uma homenagem ao Dia do Professor:

Quando a senhora entrou em sala de aula pela primeira vez como professora?

Foi na Escola do Comércio que tinha como diretor o Fernando Barbosa Lima, isso em 1959. Era recém formada na Escola do Comércio de Catanduva e ele, naquele ano abriu a Escola do Comércio em Fernandópolis, estava com dificuldade para arrumar professor e ficou sabendo que tinha terminado o curso e me convidou e comecei a trabalhar como professora com a cara e coragem. Fiquei lá dois anos.
Como professora, a senhora se formou aqui em Fernandópolis?
Como professora, sim. O curso na Escola do Comércio eu conclui ainda em Catanduva. Foram três anos. Chegamos aqui em Fernandópolis em 1958. Meus irmãos, Kosuke Arakaki (Luís) e o Pedro já estavam aqui. Eu terminei a Escola Normal, como chamava na época, em 1958, no antigo Ginásio Estadual, hoje EELAS (Escola Libero de Almeida Silvares). 
O seu sonho era ser professora?
Não. Meu sonho mesmo era ser bancária. Por isso fiz a Escola do Comércio que formava as pessoas para trabalhar no banco. Mas, não me arrependo. O meu pai (Koei Arakaki) me explicou como era o trabalho do bancário e me incentivou a concluir o Normal. 
Quando a senhora começou a trabalhar com a alfabetização de crianças?
Com alfabetização eu comecei na Escola da Fazenda Benez, do senhor Osvaldo Benez, o Boia, como era conhecido. Foi a primeira vez. Era pertinho da Brasilândia. Fiquei ali um ano. Depois fui para outra fazenda a Pingo d´Água que ficava a 7 km da cidade. Meu irmão, o Luis, me ajudou muito, me levava toda segunda-feira e eu ficava na fazenda a semana toda. Na sexta-feira voltava para a cidade e vinha de carona, de charrete, carroça, caminhão, do que dava. O pessoal sabia que vinha embora e já me esperava para me trazer. A escola na fazenda era municipal que o prefeito Edison Rolim arrumou para mim.
E quando veio para a cidade?
Trabalhei em outras fazendas, trabalhei uns tempos em Estrela d´Oeste. Depois voltei para uma escola que tinha apenas uma sala na Avenida Afonso Cáfaro (localizada ao lado onde hoje é Posto do Volpati). Só depois que a diretora dona Leontina Conceição Siqueira pediu a anexação da classe junto a Escola Afonso Cáfaro. Até a gente mudar para o prédio novo da escola, ao lado do Estádio demorou muito. Isso foi em 1970, quando o meu primeiro filho nasceu. 
Em 1987 a senhora aposentou no Cáfaro, após 28 anos de trabalho na rede estadual?
Completei o ciclo de 28 anos contando todas as escolas estaduais que passei. A minha despedida do Cáfaro foi em 14 de março de 1987. 
Nesse período a senhora só trabalhou na alfabetização de crianças?
Só. Não tinha pré-escola. O aluno chegava com 7 anos direto no primeiro ano, ainda sem saber ler ou escrever, zerinho, não sabia nem pegar no lápis. Antes de iniciar a alfabetização, trabalhava muito a coordenação motora. Logo estava sabendo ler, escrever e fazer as primeiras continhas de matemática. 
A cartilha era a Caminho Suave, onde o aluno percorria todo o caminho da alfabetização?
Terminava a cartilha Caminho Suave e o aluno já estava alfabetizado. Lia e escrevia correntemente. Era o ciclo completo da alfabetização.
Todo o período em escola pública a senhora usou essa cartilha?
Não. Tentamos trabalhar com uma nova cartilha, mas não deu certo e retornamos para a Caminho Suave.
Quando chegou a aposentadoria, qual foi o sentimento?
Foi impactante. Trabalhamos 28 anos com uma equipe de professores como a Belkis, Armando Farinazzo, a dona Leda, e tantos outros. A dona Leontina, que era diretora, me ajudou muito. A gente conviveu por muitos anos. Além disso, senti muita falta das crianças. 
Mas, a aposentadoria durou pouco, porque logo voltou para a sala de aula?
Logo que deixei a Escola Afonso Cáfaro, fui convidada pela Jussara Ferrarezzi que tinha a Escola Mundo Encantado. Ela me achou e aceitei o convite. Fiquei oito anos. 
Alguma história marcante neste tempo de professora?
Eu estava trabalhando na Escola Mundo Encantado, quando um senhor queria por que queria falar comigo. A Escola não permitia entrada de estranhos, porque ali só tinha crianças e professoras. Mas, ele insistiu e foi até a minha sala de aula. Era um ex-aluno meu que ficou sabendo que o seu neto estava comigo na época. Ele, o avô, tinha sido meu aluno no sítio. Quando ele me viu ele falou: nossa dona Tomiko fui seu aluno e agora a senhora é professora do meu neto no prezinho. Ele chamou o neto e contou. Foi emocionante. 
Depois a senhora foi para o Anglo e ficou mais cinco anos fechando o ciclo de 40 anos como educadora?
Sim, o senhor Ubaldo me chamou para trabalhar na escola e completei meu ciclo. Tive que vir cuidar do meu marido que adoeceu. 
Algum dia chegou em casa e disse que não voltaria mais para sala de aula?
Não, nunca falei isso. Tai o meu marido que nunca ouviu dizer que não ia mais para a escola. Até hoje, se pudesse eu voltaria. Tenho saudade da sala de aula, das crianças. A educação foi uma paixão, fez muito bem para mim.
Qual o sentimento, quando chegava um aluno sem nenhum conhecimento e saia sabendo ler e escrever?
Muita alegria. Agradecia muito a Deus por ter conseguido cumprir a tarefa de alfabetizar aquela criança. Sempre agradeci a Deus, porque tem criança que é difícil, é mais complicado. 
Do que a senhora tem mais saudade desse tempo?
Das crianças. Fico muito feliz quando encontro ex-alunos. Ontem (segunda-feira) encontrei uma moça que hoje trabalha em São Paulo e ela me reconheceu em uma loja e logo veio me chamando de Tia Tomiko. Eles (os alunos) são sempre muito carinhosos. Ainda sou a Tia Tomiko para eles. 
A senhora chegou em Fernandópolis e aqui estava só começando. Qual foi sua primeira impressão?
Foi em 1958. Eu vim de uma cidade (Catanduva) grande, boa, com bastante movimento. A cidade (Fernandópolis) estava começando. No começo estranhamos muito, mas a gente logo se acostumou, começamos a trabalhar e a cidade foi mudando e hoje é uma bela cidade. 
Hoje quando olha para traz e vê o caminho percorrido, a cidade que a família Arakaki ajudou a construir. Qual o sentimento?
Eu amo Fernandópolis e não vou sair daqui por nada. Aqui eu construí minha vida, minha família. Me casei (com Fernando Uietanabara que por muitos anos comandou o Nosso Bar), aqui nasceram meus filhos (Fernandinho e Luis Henrique) tenho um casal de netos. O Luis Henrique tem uma menina de 14 anos e o Fernandinho tem um menino de 15 anos. 
No Dia de Professor, o que diria para seus colegas professores que estão na ativa?
Muito ânimo, muita coragem. Hoje tem que ter muita coragem para trabalhar em sala de aula, tem que ter muito preparo. Eu estudei muito quando era professora, nunca entrei em sala sem preparar a aula. Aprendi isso com a dona Leontina que dizia para a gente nunca ir para a sala sem ter a aula preparada. 
Como professora, de quando começou até fechar o ciclo de 40 anos, a senhora percebeu que valorização do professor foi se perdendo?
Sim, nós éramos muito valorizados na época em que comecei trabalhar. Os professores tinham valor, eram respeitados tanto pelos pais, quanto pelos filhos. A família era muito presente, sempre buscando acompanhar de perto o filho. Não faltava às reuniões. 
Os políticos, em campanha, costumam colocar a educação como prioridade. A senhora vê essa prioridade?
Não, até agora não vi. Esperamos que agora mude. Houve tantas mudanças e em algum momento se perdeu o fio da meada. A educação tem que começar da base, incluindo a criança e a família. Sem a família não adianta. A família é muito importante no processo de educação da criança. 
A senhora está preocupada com o futuro do Brasil?
Estou. Tenho meus filhos e meus netos e fico preocupada com o futuro. Como será o nosso Brasil? Tomara Deus que dê certo.
Tem orgulho de ter sido professora?
Sim, muito orgulho. Obrigada meu Deus. 

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