Afinal, quando procurar um psiquiatra?

OBSERVATÓRIO - 19:26:48
Afinal, quando procurar um psiquiatra?

O que você faz quando quebra a perna ou tem uma gastrite? Procura um médico, não é mesmo? Buscar tratamento para aquilo que está nos incomodando não só é muito natural quanto necessário para evitar problemas mais graves.Por isso, não faz sentido não dar à sua saúde mental a mesma atenção que você dispensa à sua saúde física. No entanto, diferente daquela inconfundível dor de dente que nos leva imediatamente ao consultório do dentista, os sintomas de transtornos mentais podem ser mais difíceis de identificar. Por isso, a pergunta que não quer calar: Afinal, quando procurar um psiquiatra? Na semana em que se comemorou o Dia do Médico (18 de outubro) CIDADÃO entrevista o médico psiquiatra de Fernandópolis, Marcelo H. M. Scalise. Ele faz alerta: “O preconceito pode ser uma das causas pelas quais cerca de 70% dos pacientes psiquiátricos ao redor do mundo não procuram tratamento. Transmitir conhecimento é a melhor forma de combater o preconceito”. Segundo ele, muitas pessoas temem procurar o médico psiquiatra por medo de se expor, de ser desvalorizado ou de ter diagnóstico com uma doença mental. “Ninguém tem medo de mostrar o joelho para o ortopedista e receber o diagnóstico de uma fratura, mas quase todos se sentem desconfortáveis em relatar informações mais íntimas para um psiquiatra”, aponta. Veja a entrevista: 

O senhor atua na área de psiquiatria e saúde mental desde 2011. O que o levou a optar por essa área da medicina?

Desde quando comecei a trabalhar como clínico geral e emergencista, notei um aumento significativo nos atendimentos devido a problemas psiquiátricos, percebi um grande sofrimento que essas pessoas apresentavam, e foi quando decidi me dedicar a psiquiatria para ajudar as pessoas a aliviar esse sofrimento.
Quais são os desafios da psiquiatria no século 21?
Na área da psiquiatria os desafios são vários. Por um lado, os avanços da neuroimagem (ex.: mapeamento cerebral) e das pesquisas genéticas, melhoram o conhecimento dos transtornos mentais e as práticas psiquiátricas. Por outro lado, o estigma, a discriminação, o preconceito, a falta de investimento no setor público, a reforma do modelo assistencial em psiquiatria no Brasil e no mundo (retirando os hospitais psiquiátricos, “fechando-os”, do centro da assistência e levando o tratamento para o ambiente comunitário), fazendo com que as entidades psiquiátricas lutem incessantemente por políticas melhores.
O senhor compartilha nas redes sociais informações relevantes sobre a saúde, qualidade de vida e bem estar físico e mental. Quais são os pontos fundamentais para garantir uma boa saúde mental?
Manter hábitos saudáveis como uma alimentação rica em frutas, verduras e legumes, não fazer uso de drogas lícitas e ilícitas, manter horários fixos para acordar e dormir mesmo nos finais de semana, leitura (ex.: livros de autoajuda), palavra-cruzada, jogos de cartas, atividade física aeróbica 3 vezes na semana, de preferência ao ar livre e com exposição ao sol (ex.: caminhada, bicicleta), tirar um tempo só para você e para aproveitar com a família, não se agarrar aos problemas/dificuldades do dia a dia, e respeitar as diferenças entre as pessoas.
Costuma-se dizer que vivemos uma epidemia de depressão, ansiedade e outros transtornos. Por que estamos tão vulneráveis?
Existem fatores de risco para depressão, ansiedade e outros transtornos mentais que são situações ou condições que aumentam a chance de uma pessoa desenvolver tais doenças. Esses fatores de risco estão relacionados a condições genéticas, comportamentais e/ou ambientais. Um exemplo desses fatores de risco são os traumas de infância, onde crianças que passaram por abusos sexuais, separação dos pais ou bullying durante anos no ambiente escolar, têm maiores chances de desenvolverem esses transtornos mentais.
Isso tem a ver com o mundo moderno e as nossas relações cada vez mais virtuais? 
A tecnologia e a internet não devem ser vistas como as vilãs, são excelentes ferramentas quando utilizadas de forma adequada. Se usada de forma irresponsável pelas crianças e adolescentes, podem antecipar o aparecimento de doenças mais comuns em adultos, como depressão, ansiedade, lesões por esforço repetitivo, dores na coluna, esses são alguns exemplos. Já é fato que o excesso de tecnologia atrapalha o desenvolvimento infantil.
Quais são os sinais de alerta para se buscar a ajuda médica?
Alterações de humor frequentes (ex.: você fica chateado quando recebe uma nota baixa na faculdade ou recebe um feedback negativo do seu chefe, e isso é perfeitamente normal. No entanto, se você perceber que as suas reações a esses eventos são desproporcionais e você tem dificuldade para controlar a raiva ou suas emoções. É importante procurar um psiquiatra). Dificuldade para dormir e/ou alterações do apetite frequentes, problemas com concentração e memória, dificuldade para se livrar de algum vício, também são motivos para procurar um psiquiatra.
Qual o impacto dos tempos difíceis que vivemos no Brasil e no mundo sobre o sofrimento psíquico das pessoas?
Em períodos de crise, as pessoas ficam mais pessimistas, reclamam mais e olham somente o lado negativo de tudo. Aumentam assim os fatores estressores sobre as pessoas (como desemprego, diminuição da renda familiar, entre outros), podendo fazer indivíduos mais propensos a problemas de saúde tanto física como psicológica, a desenvolver doenças psiquiátricas e agravando os que já fazem tratamento. 
Quais os transtornos mais comuns entre crianças e jovens e que os pais deveriam prestar atenção?
Os transtornos mentais mais comuns nessa fase são os transtornos específicos do aprendizado, as deficiências intelectuais, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e o transtorno de conduta/transtorno opositivo-desafiador.
O índice de adolescentes e pré-medicados com antidepressivos é muito alto. Esse tratamento é seguro e eficaz nessa fase?
O tratamento é seguro e eficaz nessa faixa etária, desde que seja realizado um diagnóstico bem feito do transtorno psiquiátrico, pois nessa faixa etária podem existir mais de uma doença psiquiátrica.
Ainda há preconceito em relação a procurar atendimento psiquiátrico?
Um preconceito muito comum da sociedade é achar que dependentes de drogas ilícitas são “malandros” ou pessoas que não têm força de vontade. Outro problema é o preconceito dos próprios pacientes psiquiátricos. A aceitação dos preconceitos da sociedade por parte dos portadores de transtornos psiquiátricos pode ter uma série de consequências. Esta atitude estigmatizante pode ser uma das causas pelas quais cerca de 70% dos pacientes psiquiátricos ao redor do mundo não procuram tratamento. Transmitir conhecimento é a melhor forma de combater o preconceito.
 Por que a primeira vez no psiquiatra não é fácil?
Primeiramente, pelo medo de se expor, de ser desvalorizado, ou de ser diagnosticado com uma doença mental. Ninguém tem medo de mostrar o joelho para o ortopedista e receber o diagnóstico de uma fratura, mas quase todos se sentem desconfortáveis em relatar informações mais íntimas para um psiquiatra (que é uma pessoa desconhecida na primeira consulta). Mas o papel desse especialista é fazer isso o dia inteiro, é um profissional habilitado para deixar a pessoa à vontade, ouvir e valorizar suas queixas.
Que mensagem o senhor deixa às pessoas sobre os cuidados com a saúde mental? 
Não deixe de procurar ajuda por receio ou preconceito. Incentivar quem está com algum problema psiquiátrico a procurar ajuda também é importante. Procure um psiquiatra de confiança, que te escute, tire todas as suas dúvidas e se comprometa em lhe ajudar. Como disse anteriormente, faça uma alimentação saudável, pratique exercício físico regularmente, não tenha vícios, disponibilize um tempo para você e para a sua família, e respeite as diferenças.

VEJA TAMBÉM

teste

ga('send', 'pageview');