O último texto de seu Adorocídio

CADERNO VIVA - 09:22:52
O último texto de seu Adorocídio

Fernandópolis perdeu essa semana um de seus mais antigos e apaixonados moradores.  Adorocídio Rodrigues morreu na terça-feira, 19, e foi sepultado na quarta-feira, 20, sob às homenagens de dezenas de amigos e familiares. 
Adorocídio trabalhou por anos no munícipio como farmacêutico e, depois de se aposentar, abriu no Santa Helena a Sanfami, uma loja de produtos agropecuários onde passava a maior parte de seu tempo.
 Lá, mais do que clientes ele conquistou amizades, sempre falando com um amor irredutível de sua cidade, mesmo diante de algumas mazelas que presenciou ao longo de sua vida. 
Entre um cliente e outro ele exercia outra de suas paixões: escrever. No verso de notas fiscais antigas ou folhas de um caderno velho ele rascunhava textos que falavam sobre Fernandópolis e seus moradores. 
Um destes textos, talvez o último, foi publicado na edição especial de fim de ano do CIDADÃO que, em homenagem a ele iremos reproduzir abaixo em seu inteiro teor: 
 

Você conhece o Pardal?

A história de um fernandopolense contada por outro fernandopolense
 
Adorocídio Rodrigues
 
Edson Ferreira, vulgo Pardal, que atualmente reside no Parque Residencial São Vicente de Paulo, Asilo, há aproximadamente nove anos, tem uma história interessante a ser contada:
Era casado, tinha filhos e esposa.
O casamento aconteceu nos anos 60, mais precisamente no ano de 1964, quando Pardal tinha 25 anos de idade. Novo, começo de vida, porém uma vida já atrapalhada por conta da bebida.
Nesta época conta-se que morava com a esposa e quatro filhos em um barraco no pátio da indústria “Quebracho & Marruco”, mais conhecida como indústria Tanino. (se você sabe onde ficava, sinto lhe informar que está ficando idoso igual a mim!). Hoje esta construção está em ruinas e ainda sim, de longe, consegue-se ver a chaminé da antiga e próspera indústria.
Consta-se que a pobreza e a falta de estrutura, juntamente a bebida que tornou Pardal refém foram os pontos cruciais para que a esposa e os filhos fossem embora, deixando-o só, no barraco, com algumas “traias” velhas e um colchão. Resumindo: Pardal, barraco, “traias” e bebida. Uma combinação quase mortal.
Então, como já era de se imaginar, Pardal entregou-se a bebida, vivia nos botecos, nas sarjetas da vida na saída da capivara e quase sempre encerrava seus dias no Bar do Cestari, que por diversas vezes o acolhia na varanda de sua casa, principalmente nas noites frias e chuvosas. Tudo isso, acontecera nos anos 70/80!
Com o espírito humanitário, o dono do bar, Sr. Cestari queria que alguma pessoa pudesse ajudar aquele infeliz e aí que entra na história o Sr. Garcia Rodrigues Filho, vulgo Seu Fiúca, que naquela época era proprietário de um sítio nas margens do córrego capivara.
Seu Fiuca vinha sempre à Fernandópolis, pois sua família residia na cidade, e vinha pilotando seu trator Massei Ferguisson, vulgo cinquentinha, ou com seu possante, um Fusca 1300, azul celeste (linda cor!), que apesar de não possuir estribo e apresentar um pequeno defeito no porta-malas, era o xodó do Seu Fiuca. (Ele não tinha carteira de motorista, mas juro que dirigia bem!)
 Este, sempre passava no Bar do Cestari na vinda para apagar a poeira tomando um gole e para encerrar o dia, passava novamente e dá-lhe outro gole.
Neste vai e vem, Seu Fiuca tornou-se amigo de Pardal e sempre tomavam uns tragos juntos. Vendo esta amizade, Sr. Cestari engatou uma conversa e tentou a todo custo convenser Seu Fiuca de levar Pardal com ele para trabalhar no sítio, mas Seu Fiuca sempre retrucava que não poderia leva-lo. Dizia ele: “Pardal não vale a comida que come”; “de graça ainda dá prejuízo” (Amizade de antigamente era assim mesmo: sinceridade a flor da pele!). 
Mas Seu Fiuca tinha motivos maiores. Ele já tinha no sítio, um casal de funcionários, que era o Toinho, que tinha deficiência na fala e na audição e a Dolores, mulher muito simples, analfabeta, mãe de dois filhos (um falecido pequeno e outro que a avó materna o criou), mas muito trabalhadores e por esta razão, ele não pudera abrigar o sofrido Pardal. Certa vez disse Seu Fiuca ao Sr. Cestari: “aqui Pardal já está acostumado, e tem a calçada para tirar uma soneca até passar o efeito da cachaça!”
Mas, como diz o ditado popular “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E com o Pardal, não seria diferente. Tanto bateu, bateu, bateu que furou, pois, em um dia cinzento, frio e chuvoso, Seu Fiuca passando pela Bar do Cestari, avistou Pardal, e em troca de casa, comida e roupa lavada (além de uns goles, claro!), levou o Pardal com ele para trabalhar no sítio. Lá ele faria um servicinho aqui, outra ali, além de companhia para o casal Toinho e Dolores.
E lá seguiu o resgate do Pardal que, encharcado na cachaça, foi carregado até o fusca e seguiu em sono profundo até o sítio, seu novo lar, que só conheceu no dia seguinte, quando os efeitos da malvada passaram.
Da até pra imaginar o Sr. Cestari falando “Vá com Deus Pardal”.
Com isso a vida do Pardal começou a mudar. Fazia alguns serviços aqui, tratava dos porcos e galinhas ali, cuidava da horta e quando pensava em ir embora, era só aumentar a dose da cachaça que logo ele desistia e entregava os pontos.
Essa convivência já durava anos e entre altos e baixos o tempo foi passando e os laços se estreitando, criando uma amizade com todos os familiares do Seu Fiuca. Mas, como tudo na vida passa, um dia, Seu Fiuca, já viúvo e com os filhos todos casados resolveu vender o sítio e mudou-se para outra propriedade na cidade de Iturama, em Minas Gerais (Uai!), na beira do Rio Grande.
A mudança daqui pra lá demorou quase 60 dias para ser concretizada. Era galinha, porco, bode, cachorro, gato, todas as “traias” da casa e Toinho, Dolores e claro, nosso querido Pardal.
Lá em Minas, vida nova o quarteto começou. Seu Fiuca sempre mandão, o verdadeiro patrão raiz! Tinha o prazer de mandar e desmandar e tinha a sua disposição três pessoas para fazer o que ele queria. A vida lá era boa! Tinha franguinho na panela, peixe a vontade e ainda uns queijos para agradar quem lá aparecia! 
Apesar da vida boa, Toinho não aguentou o tranco, largou emprego, esposa, os amigos e foi embora para a cidade de Votuporanga, onde tinha parentes. Sabe-se que anos depois, acabou falecendo vítima de um acidente.
Anos mais tarde, seu Fiuca já de muita idade e com a saúde debilitada foi trazido pelos filhos novamente para Fernandópolis, e claro, junto com ele Dolores e Pardal, o trio parada dura. Pardal também apresentava dificuldades na saúde, principalmente pela bebida e Dolores já não dava conta de cuidar dos dois, pois seu corpo e mente também estavam cansados. 
Por várias e várias vezes, os filhos do Seu Fiuca foram buscar Pardal nos botecos da cidade, e até hoje, não se sabe direito como ele conseguia caminhar até lá. (A pinga move montanhas não é mesmo!). Foi então, que recebendo uma aposentadoria mixuruca, Pardal foi alojado no Parque São Vicente de Paula, aqui em Fernandópolis.
Através da internet, os filhos de Seu Fiuca tentaram por diversas vezes localizar os familiares deste pobre homem e com sucesso conseguiram encontrar na cidade de Uchoa e Urupês, ambas no estado de São Paulo. Os parentes vieram vê-lo, mais precisamente um irmão, um sobrinho e dois dos seus quatro filhos, que até demonstraram interesse me leva-lo, mas como ele já não se lembrava de mais nada, acharam melhor que ele permanecesse ali, pois esta que era família de sangue, ele não via a mais de 40 anos. Ficaram de vim visita-lo sempre! Nunca mais retornaram!
Seu Fiuca faleceu no ano de 2010, exatamente no dia de Natal (Velhinho sem vergonha! Conseguiu reunir a família na noite de Natal!).
Dolores foi alojada em uma casa e por anos foi acalentada pelos filhos do Seu Fiuca. Atualmente, é cuidada por um filho seu.
Familiares de Seu Fiuca o visitam às vezes, tentando levar um pouco de carinho a este irmão agregado que tanto tempo fez e faz parte da Família Rodrigues, vulgo Fiuca.
Há muitas histórias no Parque São Vicente de Paulo. Histórias felizes, tristes, sem pé nem cabeça, histórias interessantes e histórias de arrepiar. Mas há muito mais que histórias naquele lugar! Há pessoas, umas que se lembram de cada detalhe de suas vidas, outras que as histórias foram perdidas dentro de suas memórias falhas para sempre. Mas, o que há de sobra é alegria, amor e a saudade daqueles que são lembrados e dos que foram esquecidos pelos anos.

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