A mulher que comanda o Iprem com mão de ferro

OBSERVATÓRIO - 19:11:16
A mulher que comanda o Iprem com mão de ferro

Desde que assumiu o Iprem – Instituto de Previdência Municipal – de Fernandópolis há pouco mais de dois anos, Creusa Maria de Castilho Nossa vem travando uma luta para garantir aposentadoria tranquila aos servidores municipais. “A gente está cuidando do patrimônio de uma vida inteira desses servidores. Temos que zelar por esse patrimônio”, diz a presidente. Pela primeira vez Creusa decidiu falar sobre o prejuízo que o Instituto teve com aplicações em fundos perigosos no passado recente. Algo em torno de R$ 5 milhões. “Estamos lutando para resgatar esses valores”, relatou. 
Creusa Nossa diz que adora desafios. Foi a primeira mulher a presidir a Câmara de Vereadores e agora é a primeira a administrar, com mão de ferro, o Iprem em 23 anos. Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8 de março), ela recebeu CIDADÃO na sala do Iprem para uma entrevista sobre o momento atual, quando já está no Congresso a Reforma da Previdência apontada como a salvação da Nação. De pronto, Creusa diz que a reforma é necessária porque, da forma como está, a conta não fecha. Estão na folha do Instituto atualmente 414 aposentados e 137 pensionistas. Bastou a reforma chegar ao Congresso, para os servidores, que estão na boca para se aposentar, procurar o Iprem e contar os dias que faltam. O movimento pela aposentadoria aumentou 80%. Ainda na entrevista, falou sobre política e foi econômica: “Não penso em voltar a ser candidata”. Veja a entrevista:
 
 
Dois anos na presidência do Iprem – Instituto de Previdência Municipal. Qual o balanço que a senhora faz?
É um trabalho gratificante estar aqui no Iprem cuidando do patrimônio dos funcionários públicos municipais que eles guardaram a vida inteira. Cheguei num momento difícil com pagamentos atrasados da prefeitura, mas hoje, graças a Deus, está equilibrado, a prefeitura está em dia com os pagamentos. Estamos otimista, temos certeza que será um ano mais fácil, a economia está melhorando. Quando chegamos no Iprem, encontramos algumas aplicações financeiras e me assustei. Nunca falei sobre isso, mas hoje é oportuno abordar esse assunto. Quando analisei as aplicações logo percebi que a gente teria alguns prejuízos financeiros. Como fui gerente de banco tenho experiência. Estamos lutando para recuperar um prejuízo de R$ 5 milhões. Doravante as aplicações estão rendendo melhor e estamos fazendo tudo para que o patrimônio dos nossos funcionários cresça cada dia com responsabilidade. Esse é o nosso papel. Sabemos que não precisamos do dinheiro para hoje. Mas, temos que pensar no futuro e num futuro a longo prazo. 
Qual a importância da reforma da Previdência para esse futuro de longo prazo?
É uma conta matemática que não fecha. Eu costumo dizer, de forma bem simples para as pessoas que vêm aqui reclamar com medo da mudança. Vamos fazer uma conta bem básica: os servidores contribuem por 30 anos com 11% e a Prefeitura com quase 17% (16,8% precisamente). 17 + 11 é igual a 28, podemos até arredondar para 30 para facilitar o entendimento. Então, o servidor contribui com 30% do salário durante 30 anos. Com a qualidade de vida que temos hoje, estamos vivendo mais, e ele receberá aposentadoria por mais de 30 anos em média, e quer receber 100%. Fecha essa conta? Não fecha, não tem condição de fechar recolhendo 30%, entre você e o patrão, por 30 anos e querer receber 100%. É por isso que gerou o déficit não só na previdência privada como na Previdência Geral que é o INSS. É por isso que existe o déficit financeiro em Institutos de Previdência. No nosso caso, o déficit é previdenciário, não temos déficit financeiro. Temos dinheiro hoje, temos dinheiro por algum tempo, não sabemos por quanto tempo. Mas, temos que cuidar, porque precisamos ter dinheiro para pagar todos os funcionários da prefeitura que estão ativo e estão recolhendo. Essa é nossa preocupação. Então para essa conta fechar, ou nós temos que aumentar a alíquota de contribuição ou contribuir por tempo maior. Por isso essa reforma da Previdência é importante. 
Aumentou muito a procura por aposentadoria a partir do anúncio da Reforma?
Sim, aumentou muito. Nós tivemos dois momentos com aumento de procura por aposentadorias. Um foi porque a folha da prefeitura estava estourando os 54%, houve o aconselhamento para estimular aposentadorias daqueles que já tinham o tempo, abrindo espaço para quem não tinha. Isso trouxe mais gente para a folha do Iprem. E agora com o anuncio da Reforma da Previdência, a procura aumentou. Tem gente apavorada contando nos dedos o tempo que falta para pedir aposentadoria. Posso dizer que a procura aumentou um 80%.
Por que André Pessuto e os outros prefeitos reclamam tanto das dívidas com o Iprem, que não conseguem fechar essa conta que se parece mais com uma operação enxuga gelo?
É quase impossível para um prefeito administrar esse déficit com o Iprem. Não foi fácil para o Vilar, não foi fácil para a Ana Bim e não está sendo fácil para o André. Atualmente o André recolhe R$ 1,2 milhão, entre parcelamento, parte patronal e a parte do funcionário, por mês. Aí chega no final do ano ele tem que pagar para mais R$ 13 milhões de déficit. A prefeitura não tem esse dinheiro. É muita coisa. Se somar com mais esse R$ 1.2 milhão que paga mensal, o valor que destina para o Iprem é muito alto. O prefeito fica desesperado. E por que isso?  Por que juntou uma série de fatores, como o fato de estarmos vivendo mais, tem também o fato de que o instituto foi criado e já começou-se a pagar aposentadoria. Votuporanga, por exemplo, ficou cinco anos fazendo caixa para começar a pagar, o que é o correto. Então são vários os fatores que fizeram crescer esse déficit financeiro. Qualquer coisa que a prefeitura deixar de pagar, aumenta o déficit. Se não houver essa reforma, e essa portaria que vai autorizar a prefeitura novamente a parcelar o déficit financeiro por 35 anos, é praticamente impossível o prefeito administrar. 
E quando o prefeito recebe uma orientação do Tribunal de Contas para repensar o Iprem e até estudar a possibilidade de retornar para o Regime Geral da Previdência. Como avalia?
Isso é uma coisa quase impossível de acontecer. O prefeito que pensar nisso, não conhece as consequências disso. Pra começar, esse dinheiro que está aí (o patrimônio dos servidores) ele não vai poder mexer, porque já é reserva de quem contribuiu. Depois, ele vai ter que arcar com todas as aposentadorias. Em vez de pagar 17%, como paga hoje, terá de pagar 22%. Não compensa. Busquei informações a partir dessa orientação e verifiquei que é muito difícil voltar e, se voltar, é prejuízo para a prefeitura.
Quando a senhora fala sobre prejuízos em aplicações passadas e que hoje o Iprem tem aplicações mais rentáveis, muitas pessoas não entendem esse fato do Instituto usar dinheiro do aposentado em aplicações no mercado financeiro. Explica isso?
Nós temos por obrigação, e isso significa aprovar ou não a conta do presidente pelo Tribunal de Contas. Somos obrigado a fazer esse dinheiro render 6% ao ano, mais IPCA. A gente aplica e pensa que está aplicando da melhor maneira possível, mas é um risco. Hoje está mais garantido. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) está mais cautelosa com isso. Até pouco tempo atrás eles não cuidavam tanto de verificar esses Fundos. Então foram aplicações feitas em 2013 a 2015 que estão dando esse prejuízo. No ano passado tivemos R$ 5 milhões de prejuízo que espero recuperar pelo menos parte disso. Estou lutando para isso.
A senhora chegou no Iprem com a experiência de uma vida inteira trabalhando no sistema bancário. Isso ajudou?
Me ajudou e muito. Quando fiz uma análise nos fundos sobre o dinheiro aplicado e vi o balanço, percebi que teríamos problema. De imediato, tentei resgatar dinheiro de todos os fundos onde vi perigo. Consegui resgatar alguns. Mas, os perigosos mesmos já tinham fechado para resgate. Eram fundos de longo prazo, de 1.200 dias úteis, 1.000 dias úteis, um absurdo. Esses não consegui mexer e estamos tendo consequências até hoje. Mas, tive a visão, apontei e mostrei para o Conselho os fundos que não iriamos receber, infelizmente. Vim para o Iprem por conta dessa experiência bancária. Me aposentei como gerente de banco. Trabalhei 30 anos e sei como é isso. Mas, infelizmente é um risco que a gente corre.
O que diria para os aposentados e pensionistas da prefeitura? Eles podem dormir tranquilos?
Sim, eles podem dormir tranquilos. Temos um prefeito que se preocupa muito com eles. Tanto que deu os melhores prédios para o Iprem ter uma garantia. Sabemos que fizemos um bom negócio em receber esses imóveis da prefeitura que valem muito mais do valor que vieram para o Instituto. A minha vontade é que esse saldo das reservas do Iprem dobre para garantir a aposentadoria dos nossos servidores. 
O Iprem está recebendo imóveis da prefeitura como pagamento desse déficit. Qual o plano em relação a esses imóveis?
Se aparecer um bom negócio, a gente vai vender. Mas, não vamos jogar fora, porque não precisamos de dinheiro hoje. Todo bom empresário sabe que se tem dinheiro, a melhor aplicação é em imóveis. Se o dinheiro estivesse aplicado em imóveis em vez de fundos, não teríamos perdido, como perdemos. Então, se aparecer um bom negócio, como já estamos visualizando, a gente vende. O Instituto não quis comprar os imóveis, foi a prefeitura que não tinha dinheiro para pagar o déficit, por isso aceitamos os imóveis. Veja que esse imóvel onde está a Central de Saúde, a prefeitura vai começar a pagar aluguel a partir desse mês. Além de ser um imóvel que vai valorizar, vamos ter a renda do aluguel. E tem o terreno, ao lado da Expo, que a gente tem bastante possibilidade de ter um bom lucro. 
A senhora teve uma carreira como bancária, já ocupou secretarias de governo, foi vereadora, a primeira mulher a se eleger presidente da Câmara e agora é a primeira mulher a ocupar a presidência do Iprem, sem contar as funções de mãe, esposa, avó e cidadã. Como concilia tudo?
Pois é, a mulher é acostumada a ser multitarefa. Eu gosto muito do que faço, amo, na verdade. Acho que é por isso que não tenho dificuldade. Amos meus filhos, meus familiares, faço o que posso por eles. Consigo conciliar tudo, porque gosto muito de gente, de trabalhar fora, de conviver com isso, mas meu tempo livre dedico integralmente para minha família, para minha Igreja (Boa Semente) onde também consigo fazer alguma coisa para o próximo. Veja, no carnaval fomos para as ruas para arrecadar leite para nossas entidades. No ano passado arrecadamos 6,5 mil litros. Como mulher, faço isso com muito prazer. Fico na porta dos mercados pedindo um litro de leite para cada um que entra lá e isso é muito digno. É uma forma de fazer também pelo nosso Deus, que é maior que todos. 
Dessa funções, qual a que representou maior desafio?
Ser presidente da Câmara foi um desafio, numa Câmara com muitos vereadores. Mas, aqui no Iprem, quando cheguei e vi essas aplicações perigosas, foi maior. É um desafio que persiste até hoje. Mas, quero entregar esse patrimônio bem redondo. 
No futuro, vislumbra a possibilidade de retornar à política como candidata?
Não. Não me vejo mais como candidata.
Alguma frustração pelo caminho?
Não. Eu achei que fui bem no tempo em que fui política, vamos dizer assim. Hoje sou feliz em poder ajudar o André Pessuto aqui no Iprem. Acho que vou ficar por aqui mesmo. 
Seu nome chegou a ser colocado como futura candidata a prefeita. Coisa do passado, ou é uma possibilidade apenas adormecida?
Não vejo isso não. Tem mais gente competente. Não quero isso.
Na semana da mulher, qual a mensagem que deixa para as mulheres de Fernandópolis?
Dizer que a mulher é muito competente, que precisa acreditar mais nela. Vejo mulheres desanimadas em casa, achando que não tem talento. Olha, Deus deu muito talento para a gente. Temos que nos descobrir a cada dia. Tem uma frase que sempre gosto de dizer; A mulher não se acha, ela simplesmente é. Temos que descobrir quem a gente é e pôr em prática. Temos que lutar, porque tem espaço para todas nós.

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