O cantor das entidades

OBSERVATÓRIO - 19:17:38
O cantor das entidades

A cada fim de semana, Alan Mateus, com seu inseparável violão, sempre está participando de algum evento beneficente. Neste sábado, por exemplo, estará no Bingo Beneficente da ADVF – Associação dos Deficientes Visuais de Fernandópolis – no salão Paroquial do Bairro São Bernardo. Na semana passada esteve no evento “Boteco da Apadaf”. Faz isso como forma de gratidão, porque anos atrás foi assistido por entidades que contribuíram para que ele saísse das ruas e se transformasse em um cidadão de bem.“Elas (as entidades) me tiraram literalmente da rua, eu e outras tantas crianças. Junto com a alimentação nós recebíamos orientações, educação, suporte para as famílias desestruturadas que moravam ali (Jardim Ipanema) e nas adjacências. Isso me tirou de um caminho que muitos dos meus amigos seguiram, o das drogas e do crime. Sou grato e por isso procuro ajudar quem um dia me ajudou”, afirma.Além de emprestar seu talento musical para as entidades, Alan Mateus, 35 anos, formado em Serviço Social, atua também como conselheiro do Conselho Tutelar de Fernandópolis desde 2005. E diz que a grande luta do momento é contra o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas. Nesta entrevista ao CIDADÃO, Alan conta um pouco da sua vida e se orgulha de poder dizer que é um exemplo para os jovens de hoje. Veja a entrevista:

 

Você é presença obrigatória em diferentes eventos beneficentes de Fernandópolis e já é anunciado como o “Cantor das Entidades”. Qual o propósito?
Desde criança eu fui acolhido por entidades sociais aqui em Fernandópolis. Já fui menino de rua e eles me acolheram. Fui crescendo e sempre tive essa vontade de retribuir, só aguardava essa oportunidade. Hoje faço isso como gratidão por tudo que recebi das entidades que me acolheram. Trabalho no Conselho Tutelar, querendo ou não a gente atende as entidades também e na música, quando elas precisam fazer algum evento para levantar recursos para atender as crianças, faço o show sertanejo seja nas quermesses, bingos, eventos em geral, como forma de doação. Estamos à disposição para ajudar essas entidades.
Em que momento a música entrou na sua vida e foi utilizada neste processo em favor das entidades?
Faz uns dez anos que estava me preparando para shows em bares, festas particulares. Aprendi a tocar violão, entrei na escola de música, fiz técnica vocal. A partir daí comecei cantando na noite, em festas, e decidi que era momento também de atender as entidades.
Você diz que na infância as entidades o acolheram e o tiraram da rua. Como foi isso?
Eu tinha na época 8 anos de idade, tinha acabado de chegar de São Paulo. Eu, minha mãe e meus irmãos, a gente passava muita necessidade em São Paulo. Na época, não tinha Conselho Tutelar, era SOS Criança, lembro bem, era o Golzinho preto. Como a gente passava muita fome, ficava na rua e acabamos tendo que fugir do SOS Criança para não ir parar em um Orfanato. Viemos para Fernandópolis, porque aqui temos minha avô materna. Por ironia do destino, eu fugia do Conselho Tutelar, na época (1990) o SOS Criança, e hoje sou conselheiro tutelar. Então, as entidades me acolheram nessa época com 8 anos, a gente morava no Jardim Ipanema onde funcionava a Associação Maria João de Deus com a Tia Shiroko e também na Henry Pestalozzi com o Tio Granella e a Tia Val. Fui acolhido, recebi toda a atenção, educação, acompanhamento, alimentação e principalmente o amor. 
Sem o apoio dessas entidades, o que poderia ter ocorrido?
Graças a Deus, tenho uma cabeça bem equilibrada. Poderia sim, ter me tornado um delinquente, um bandido, se não tivesse na época o apoio grande dessas entidades. Eu teria mais dificuldade de ser um cidadão de bem. Essas entidades me acolheram com muito amor e Graças a Deus não sou um bandido, um traficante, ou um perdido na rua.
E a sua atuação no Conselho Tutelar?
Entrei no Conselho Tutelar em 2005, também lançado pelas entidades. Fui eleito, reeleito e agora estou no terceiro mandato de conselheiro. Pra mim é gratificante, porque conheço na pele o problema, a desestrutura familiar que expõe crianças ao risco. Eu fui menino de rua, fui adolescente com família desestruturada. Então sempre tive uma visão verdadeira do problema, eu conheço a raiz do problema social. Vim de favela, de bairros pobres e conheço essa realidade. Creio que foi uma prova que Deus me deu. Se conheço o problema, então vai servir no Conselho Tutelar para ajudar as famílias que enfrentam esse tipo de situação.
Daqueles problemas que você vivenciou quando criança e adolescente, para a situação atual. Qual a visão do conselheiro Alan Mateus?
Sinto que os problemas continuam os mesmos, mas agravados. Naquela época o fluxo da droga era mais oculto, não aparecia tanto. Hoje, a droga está influenciando muito para essas tragédias que assistimos. Eu sempre falo que a dificuldade na minha época de criança era comer, se alimentar. Hoje, não. A juventude tem todos os recursos possíveis que o governo oferece, mas cada vez mais estão sendo aliciados pelo tráfico de drogas, contribuindo para destruir famílias e causar tantos problemas para a sociedade. Pelo que percebo, a droga é o principal problema, está alastrado e a gente vê cada mais jovens se infiltrando no tráfico. E, a gente nota, que eles (os jovens) parecem não ter medo da punição. Infelizmente, a droga está desestruturando não apenas famílias, mas também a sociedade.
Com tantos problema de segurança no País, fala-se cada vez mais na redução da maioridade pena. Tem opinião formada sobre isso?
Acredito que toda a forma de punição não resolve o problema. Precisamos entrar com políticas públicas para prevenir que o jovens seja aliciado pelas drogas e enverede para o mundo do crime. O governo, em todas as esferas, federal, estadual e municipal, precisa investir em ações que vão envolver os jovens, como o esporte, lazer, para os jovens da periferia. A prevenção com políticas públicas, na minha concepção, é o caminho para enfrentar esse problema.
No Conselho Tutelar o que vocês mais atendem atualmente?
O que vemos, enquanto conselheiros, são problemas oriundos do rompimento dos vínculos familiares. A família está desestruturada e vemos conflitos entre pais e filhos. O conflito dentro da família está no centro da maior parte dos problemas que chegam ao Conselho. 
O sonho de uma situação ideal, tomando como exemplo Fernandópolis. O que seria importante investir em favor das crianças e adolescentes?
O que notamos é a falta de políticas públicas para os bairros carentes. Temos bairros onde o acesso a recursos públicos é difícil. As vezes falta o atendimento mínimo para dar suporte a uma família momentaneamente. Hoje não vemos espaços para o lazer, para a prática de esportes, oficinas de aprendizagem para atrair esses adolescentes e suas famílias para esses projetos sociais.
Você é otimista?
Sim, otimista, positivo, sou uma pessoa do bem. Já sofri bastante na vida, mas levo isso como lição. Sou otimista e tenho como lema que a gente precisa correr atrás dos nossos objetivos. Nada vem no nosso colo. Temos que lutar até dar certo. 
Por tudo que viveu, você se coloca hoje como exemplo a ser seguido?
Sim, me sinto como exemplo e posso dizer que, se a pessoa lutar, ela consegue alcançar seus sonhos, assim como outros tantos exemplos que temos aqui em Fernandópolis, de pessoas que sofreram muito e hoje também alcançaram seus objetivos. Procuro passar essa lição de que a boa luta nos leva ao realizar sonhos.

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