“O esporte me fez sonhar”

OBSERVATÓRIO - 19:14:25
“O esporte me fez sonhar”

A frase é do paratleta Rogério Souza dos Santos Jr., 23 anos. A deficiência que carrega é fruto de uma paralisia cerebral no momento do parto. Faltou oxigênio do lado esquerdo do cérebro e afetou os membros do lado direito. Depois de vencer seu próprio preconceito que o impedia de se aceitar e se incluir no meio em que vivia, o fernandopolense enfrentou a obesidade na adolescência, quando chegou a pesar 115 quilos. Mas, encontrou no atletismo a energia para a superação. Aos 23 anos, agora pesando 75 kg, já ostenta com orgulho, entre suas conquistas, a terceira posição no ranking nacional do Comitê Paralímpico Brasileiro na modalidade atletismo. Como aprendeu a sonhar com o esporte, já estabeleceu que será o primeiro do ranking e quer chegar a Olímpiadas, Mundial e Pan. Com um calendário de provas pela frente representando Fernandópolis Rogério está em busca de patrocinador. Nas redes sociais postou um apelo: “Estou à procura de patrocinadores que disponham contribuir mensalmente até dezembro, pois como alguns devem saber a vida de um atleta não é fácil, muito dura e cheia de sacrifícios”. Esse ano ele participa do Campeonato Brasileiro de Atletismo, Jogos Universitários Paralímpicos, Jogos Regionais e Jogos Abertos. Ele pode ser encontrado no instagram: @rogeriosouza.jr. A história de superação de Rogério o leitor confere 

na entrevista a seguir:

Como surgiu sua história com o atletismo?
Foi quando cheguei para atendimento em 2017 no Lucy Montoro (Centro de Reabilitação de Fernandópolis) onde fui fazer reabilitação por conta da minha deficiência. Entre os profissionais que lá trabalham tem o Jeferson Luiz Galbiati Falchi que é educador físico. A partir do momento que comecei a desenvolver nas sessões de fisio na academia do Lucy, ele me incentivou e me chamou para praticar corrida, inicialmente de rua. Ele percebeu que tinha potencial, viu que estava me desenvolvendo, começou a me inscrever em competições regionais e estaduais. 
Você foi fazer reabilitação no Lucy Montoro por qual razão?
Eu estava sentindo alguns incômodos por conta da deficiência. Estava com algumas dores, com medo do meu braço e minha perna começarem atrofiar, porque fazia um tempo que não fazia fisioterapia. Como minha mãe trabalha no Lucy Montoro, fui lá fiz a minha ficha de inscrição, passei pelo médico e consegui a vaga para fazer a reabilitação. Fiquei seis meses em tratamento.
Qual a origem da deficiência que o levou para o Lucy Montoro?
Paralisia cerebral no momento do parto. Faltou oxigênio do lado esquerdo do cérebro e afetou os membros do lado direito. 
Que tipo de problema você enfrentou até chegar ao Lucy Montoro?
Ela (a deficiência) me limitava em algumas atividades. Quando pequeno, até os 8, 10 anos, sentia muita dificuldade para ter coordenação motora, andar. Cheguei a mancar, a minha perna tinha muito espasmo, fadigava muito rápido. A partir das sessões de fisioterapia foi melhorando. Hoje, no meu andar não dá notar que tenho deficiência na perna também. Só pelo braço, por falta de massa muscular. Hoje não tenho nenhuma limitação. Antes, eu tinha um tipo preconceito com essa minha deficiência. Não conseguia me aceitar, não conseguia me incluir no meio da sociedade. Mas, hoje não, vivo normalmente, até melhor que muitas pessoas. 
Você começou a praticar esporte por uma razão. Qual?
É verdade. Eu sofri de um problema de obesidade, estava muito acima do meu peso, cheguei a pesar 115 quilos na época de 16 para 18 anos. Eu tive um choque de realidade, vi que precisava mudar isso. Comecei a praticar por hobby e pela questão da saúde. Hoje eu peso 75 quilos. Estava bem acima do peso, estava muito gordinho. 
Hoje você é um atleta paralímpico, de alto rendimento, participando de competições nacionais. O que mudou na sua vida?
O esporte é o bem maior na vida do ser humano, de verdade. Ele te educa, o esporte educa. É sempre bom os pais incentivarem os filhos desde pequeno à pratica do esporte, leva a uma educação fora do comum. Eu falo, porque comecei tarde. Vim conhecer tarde as modalidades paralímpicas, porque aqui no interior não é muito divulgado. Hoje, pra mim, é maravilhoso. Não me vejo fazendo outra coisa. 
No atletismo você disputa quais provas? E quais competições terá pela frente?
A minha modalidade especifica é os 400 metros, mas eu também disputo provas de 100 e 200 metros. Com essa competição que teve em fevereiro, a fase regional, que é o Circuito Caixa obtive índice para participar do Campeonato Brasileiro, com isso terei três etapas para disputar, duas com pontuação e a última é a final mesmo. A primeira fase será agora em junho, dia 7. Mas, fora isso tem o campeonato universitário onde represento a faculdade (Universidade Brasil), tem os Jogos Regionais e os Jogos Abertos onde represento a cidade.
Este mês você teve uma boa notícia, viu o seu nome aparecer na terceira colocação do ranking nacional. Como foi essa conquista?
Realmente foi uma surpresa pra mim, não esperava. Nunca imaginei me tornar um atleta, disputando em alto nível. Nas competições tem muita gente boa, que está no esporte há muitos anos. Neste pouco tempo que estou competindo, fiz muitas amizades, com pessoas que treinam há 15, 20 anos e eu comecei há tão pouco tempo e já estou entre eles, com esta performance, com esse destaque. As vezes não consigo acreditar, ainda não caiu a ficha de que já consegui conquistar tudo isso.
Para participar das competições, tem custo. Como você se mantém, tem apoio de alguém?
Para participar dessas competições o custo é elevado. Aqui tem o projeto da Prefeitura que tem o Bolsa Atleta, não é muito, mas ajuda bastante. A Secretaria de Esportes, a Prefeitura, a Afercan, sempre dão uma força naquilo que eles podem me ajudar. Mas, para me manter, como divulguei nas redes sociais eu estou precisando de patrocinadores, alguém que queira ser meu parceiro, conhecer meu projeto, conhecer a minha luta e investir. É difícil, porque manter-se num esporte de alto rendimento você precisa ter uma estrutura, desde a alimentação, equipamentos para treinamento, viagens e até o dia a dia. Eu vivo disso, treino de três a cinco horas por dia, as vezes no período da manhã e à tarde, tem a faculdade (faz o curso de Educação Física, segundo ano, na Universidade Brasil) para manter também. Se tiver apoio, posso treinar com mais tranquilidade.
Aonde você quer chegar?
A partir do momento que comecei a competir e ver onde essas competições podiam me levar, criei um comprometimento comigo, vi que tenho potencial para ir mais longe se tiver suporte, estrutura, para poder desenvolver ainda mais esse potencial. Eu sonho em ser atleta que dispute uma Olímpiadas, um Mundial, um Pan. Eu vejo que isso é possível ser realizado. É minha meta nos próximos anos estar nestas competições mundiais, se Deus quiser. 
Você já comparou seu rendimento com um atleta convencional?
No Paralímpico existem várias categorias, vai do T35 ao T38. A minha é a T38, para quem tem paralisia. A T38 é o grau mais leve de paralisia e tem muitos atletas bons. Para se ter uma ideia, o Comitê Paralímpico promove disputas entre o paralímpico e o convencional. A performance não foge muito um do outro. Ainda pretendo participar desse tipo de competição, espero ser convidado. 
Você tem um ano com muitas competições. O que anda sonhando, desejando?
O meu desejo é ir bem nas competições que vou participar. Eu pretendo melhorar ainda mais minha posição no ranking nacional. Quero o primeiro lugar. Faz dois anos que estou lutando para disputar as outras fases de competições nacionais e sempre foi batendo na trave. No ano passado, fiquei por um segundo para atingir o índice nacional. Este ano, fiz o índice nacional e baixei quatro segundos o meu tempo. Fiquei feliz e isso aumentou meu desejo de treinar para ir além.
Qual palavra usaria para definir sua jornada no atletismo?
Esperança, o desejo de vencer, de mostrar que sou capaz, de conquistar meus sonhos.
Por tudo que já viveu e no estágio que está, você conseguiu se superar?
Com certeza. A partir do momento que entendi minha deficiência, vi que não foi algo em vão, que aconteceu por acontecer. A deficiência que tenho foi para mostrar que tenho valor, que não é porque tenho uma deficiência tenho que me limitar de fazer alguma coisa, de ser alguém na vida. 
Aos 23 anos, você se coloca com um cara feliz?
Muito feliz. Não digo totalmente realizado, porque tenho muita coisa a realizar na minha vida. O esporte me fez sonhar. Através do esporte estou me realizando e pretendo muito mais. Todos os dias, quando acordo, faço de tudo para lembrar o que vem acontecendo ao meu redor. Isso funciona como motivação para continuar buscando cada vez ir mais longe.

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