“Pais estão terceirizando responsabilidade para a internet”

OBSERVATÓRIO - 19:15:00
“Pais estão terceirizando responsabilidade para a internet”

Ganhou destaque nas redes sociais o trabalho que o pastor jovem da Igreja Ministério Luz para os Povos de Fernandópolis, Igor Okada Mazetti, 32 anos, tem realizado nas escolas de Fernandópolis. Conversando com crianças e adolescentes ele se deparou com uma realidade marcada pela depressão, desejos suicidas, abusos, bullying, drogas e prostituição. “A proposta não é levar religião, mas apresentar um Deus que se importa com eles e que há um outro caminho”, diz nesta entrevista ao CIDADÃO. Igor chama a atenção dos pais para que não terceirizem para a internet a responsabilidade da afirmação, identidade, proteção, limite e direção à vida dos filhos. “Essa estrutura familiar é essencial para a saúde emocional da criança”, diz. Em meio às polêmicas que sempre surgem quando se fala de religião nas escola, Igor diz que o propósito “é mostrar um caminho, uma oportunidade diferente para esse jovem. O nosso propósito é levar uma mensagem de amor, de esperança”. Veja a entrevista:

O que significa o projeto “Missão Resgate?
Esse trabalho começou ainda quando o pastor Marcos (Orati) estava vivo. A gente conversava sobre fazer um trabalho nas escolas, diante de uma situação crescente envolvendo jovens e adolescentes com depressão, desejos suicidas, drogas, ou, muito cedo, já desencaminhados. Esse projeto, vamos deixar bem claro, não visa uma religião ou pretende levar alguém para a igreja. Nós vamos para apresentar Deus e para mostrar um caminho, uma oportunidade diferente para esse jovem. O nosso propósito é levar uma mensagem de amor, de esperança.
Essa necessidade surgiu a partir de episódios como do aplicativo Momo, que incentivava crianças ao suicídio, e do atentado na Escola de Suzano?
Também. Hoje o que vemos são os pais, dando celular para o filho e acabam terceirizando uma responsabilidade que são deles. Quando as crianças e adolescentes estão entretidas no celular, na internet, estão abertos para essas más influencias. Então, essas crianças, adolescentes, com sinais de depressão, tendências suicidas, ou que sofrem bullying nas escolas, encontram nesses aplicativos e na internet uma alternativa, o que não aconteceria se os pais estivessem próximos, procurando entender as emoções dos filhos. O aplicativo da internet faz com a criança, os que pais deixam de fazer, ou seja, dar atenção, bater papo, fazer esse jovem se sentir importante.
O Brasil é um país laico e quando se fala em religião surgem sempre as polêmicas. Como vocês estão chegando às escolas e superando essas questões?
Nós buscamos o contato com a direção da escola, com os mediadores, pedindo oportunidade de conversar com alunos do 6º ano até o terceiro colegial. Quando estamos na escola, tudo que falamos sobre bullying, depressão, não tem como não falar de Jesus, não tem como não colocar Deus nisso. Eu sou cristão, acredito em Jesus e acredito em Deus. Não estou indo lá para levar ninguém para a minha igreja, ou dizer que a minha religião é a certa. Mas, estou apresentando algo que mudou minha vida. Eu vim dessa realidade. Hoje tenho 32 anos, mas eu vivi 10 anos lá fora. Eu sei como é ir em festas, como é a realidade que desfrutei. Entendo que são prazeres momentâneos. Quando o jovem faz algo, como experimentar uma droga, ele quer preencher um vazio dentro dele. Depressão é uma doença de alma, porque a medicina ela te dá remédios, mas muitas vezes não consegue resolver o problema. Então, quando nós apresentamos Deus, queremos que esse jovem, que esse adolescente, seja preenchido, porque quando ele entende que não precisa de tudo que estão lhe apresentando para ser feliz ou pleno, muda essa realidade. Não vamos lá para fazer um culto, mas para apresentar Deus de uma maneira diferente. Algo que me espantou muito nas escolas foi ver adolescentes de 11, 12, 13 anos, estarem pensando em tirar sua vida. Fizemos até agora três escolas estaduais (Armelindo Ferrari, Antonio Tanuri e Fernando Barbosa Lima). Com alunos do ensino fundamental (de 6ª a 8ª), por exemplo, tivemos cerca de 50 alunos que foram à frente e relataram pensamento suicida e casos de depressão. Eu fiquei surpreso, porque eram crianças. É algo que as famílias precisam atentar sobre o que está acontecendo com os filhos, ter mais diálogo nos lares. A família não pode terceirizar algo que Deus deu ao pai e a mãe na função de ensinar a criança. Essa estrutura familiar é essencial para a saúde emocional da criança.
Os jovens são refratários a temas dessa natureza. Qual a reação deles quando se deparam com essa mensagem que vocês levam?
No início é meio que um susto para eles. Mas, o ponto chave desse projeto é levar um Deus que está muito presente, mais próximo do que as pessoas imaginam. O propósito quando chegamos para esse contato é mostrar que Deus se importa com cada um deles. Jesus veio à terra para levar uma mensagem de amor, de revelar quem era Deus, um Deus próximo da nossa realidade, que se importa com sua condição financeira, com aquilo que você está sentindo. Quando falamos que Deus está perto, que se importa, a reação deles é impressionante. É uma surpresa. Não chegamos enfiando nada goela abaixo, nós pedimos uma oportunidade para apresentar esse Deus.
Muitos costumam dizer sobre depressão que o jovem está querendo chamar a atenção. Essa juventude está carente do quê? 
Realmente, muitos tem esse pensamento, meu filho está querendo chamar a atenção e não conversa para entender o que ele está pensando, então ele vai encontrar outra alternativa. O jovem, quando ele pratica o suicídio, na verdade, não é esse o propósito, o de tirar sua vida, mas de matar a dor que está dentro dele. Isso é muito forte. Quando o jovem chega a esse quadro, de fato, ele quer chamar a atenção dos pais, de que eles se preocupem com o que está acontecendo. E hoje, com a internet, as relações são virtuais. O relacionamento na família, de sentar-se à mesa, de conversar, não pode ser substituído pela internet. Então, por mais que a nossa geração seja digital, a internet jamais vai substituir uma conversa entre pai e filho. Quando o pai deixa o filho na internet, está terceirizando essa responsabilidade. O que chamou muito a atenção na última escola que estivemos foi a carência afetiva e emocional. Quando nos aproximamos, abraçamos eles, fazemos uma oração simples, declaramos a palavra de que eles são importantes para Deus, isso faz muita diferença. A gente vê que eles têm um choro de alma, quando começam a colocar prá fora algo que estavam segurando por muito tempo. Quando um jovem sofre abuso, ele carrega esse jugo pesado que vai criando feridas internas, porque não tem com quem falar. E quando ele consegue por isso prá fora, isso liberta, traz paz, tira um peso da alma. O que vemos nas escolas é essa realidade. 
O fato de ser jovem, facilita esse feedback com o jovem?
Ajuda bastante, facilita a reciprocidade. Eles percebem que é possível. Geralmente pensam no pastor uma pessoa mais velha. Eu sou pastor de jovens. Além disso, eu me coloco no mesmo nível deles, porque vivi o que eles estão vivendo agora. Então, essa realidade que hoje estou vivendo, recém casado ao lado da minha esposa Priscila, parece algo impossível para eles.
O que surpreendeu neste início de trabalho? 
A gente começou despretensiosamente, com o propósito de levar uma mensagem curta. O que me surpreendeu foi encontrar essa realidade, de vários casos de depressão, abusos. Na última escola, fizemos um feedback com a diretora e com a mediadora e elas informaram que pais ligaram na escola para agradecer porque os filhos chegaram com outra feição, chegaram felizes, diferentes. Uns chegaram falando que amavam os pais, pedindo perdão, outros contaram situação de abuso, situações muito fortes de até estupro. Isso parece que não acontece, mas está muito mais presente do que imaginamos. É um trabalho que começou de forma despretensiosa, mas que está tendo um alcance muito grande, está possibilitando levar esperança, mostrar que Deus os ama como eles são. Deus nos criou e tem um propósito. 
Recentemente tivemos a polêmica de oração na escola, envolvendo o estado laico. Teve alguma escola que fechou a portas para essa projeto?
Até agora não. Para entrar na escola, precisamos da autorização da direção. Não queremos criar atrito com nenhuma escola ou com religião. Acredito, que não adianta as pessoas olharem de longe e não fazerem nada. Se eu amo as pessoas, preciso expressar isso em atitude e não só em palavras. Se ficar em casa falando que precisa fazer algo pelas escolas e não fizer nada, nada vai mudar. O que queremos é isso, mudar a realidade dessas pessoas. E temos recebido das escolas pedidos para dar continuidade ao trabalho dada a repercussão positiva entre os jovens. Nós lançamos a semente e para que ela dê fruto é preciso regar. Por isso estamos sempre abertos para receber os contatos das escolas e dos estudantes. 
O que você diria para os pais?
Para eles olharem mais para a emoção do seus filhos. O papel de um pai, de uma mãe, na vida do filho, ninguém vai suprir. O pais trazem afirmação, identidade, proteção, limite e direção à vida dos filhos. Hoje, é comum, pais jogarem a responsabilidade total para a escola, como se os professores fossem obrigados a fazer o papel de pai e mãe desses alunos. Ou então deixar os filhos entretidos na internet. Os pais não devem substituir o olho no olho, a amizade. É essencial o filho ter a liberdade de se abrir com o pai, com a mãe. Tem uma frase de Albert Einstein que diz assim: “Eu temo o dia em que a tecnologia vai superar interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas”. É uma frase forte, mas o que vemos hoje é isso, a tecnologia substituindo os relacionamentos. O que o filho mais clama, na verdade, é pela presença dos pais. E quando ele não tem isso, procura no mundo lá fora e encontra as drogas, a prostituição, perde a identidade, a direção, o limite.

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