“Não estou fora da doutrina, só estou fora da administração”

OBSERVATÓRIO - 19:08:21
“Não estou fora da doutrina, só estou fora da administração”

A história da Associação Espirita Beneficente Pátria do Evangelho (a Meimei, como é conhecida), se mistura com a história do Dr. Geraldo Silva de Carvalho. Ele chegou em Fernandópolis em 1965 e, no mesmo ano, com um grupo de amigos, ajudou na transformação do antigo Centro Espirita Pátria do Evangelho, fundado em 1955, em associação de caráter beneficente e social para cumprir o princípio da doutrina de que “fora da caridade não há salvação”. Ao longo desses mais de 50 anos, o engenheiro aeronáutico de formação, este sempre ligado a administração da instituição. Nos últimos anos vinha atuando como presidente. Recentemente ele transmitiu o cargo ao novo presidente Flávio Coppi. Aos 85 anos, Carvalho diz que não está fora da doutrina espírita que frequenta desde jovem em  São Paulo. “Só estou fora da administração”, assinala. Nesta entrevista ao CIDADÃO conta que veio passar férias na região e acabou ficando. “Depois me casei (com Dorothy Guimarães de Carvalho) e comecei a criar os filhos (Pedro, Olivia, Marcelo, Luciano, Juliane, Fernanda e Fabiano). Veja a entrevista:

Quando o senhor chegou em Fernandópolis?
Cheguei em 1965, vim de São Paulo para passar férias e acabei tendo que permanecer por motivos familiares e aqui desenvolvi minhas atividades na área da agropecuária, fui crescendo devagarinho. Meu pai e minha mãe já moravam aqui. Depois me casei e comecei a criar os filhos.
O senhor diz que veio de São Paulo, mas já era da região?
Nasci em Bebedouro, moramos em Rio Preto de 1940 a 1950. Sai para estudar fora. Depois de formado fiquei em São Paulo trabalhei na indústria automobilística porque não tinha indústria aeronáutica ainda (é formado em Engenharia Aeronáutica). Casualmente vim prá cá numas férias, meus pais moravam em Meridiano na Fazenda Caçula, acabei ficando e estou aqui até hoje. 
O senhor é muito conhecido por sua atuação na Associação Espirita Beneficente Pátria do Evangelho. Desde que chegou em Fernandópolis, já começou a atuar na associação?
Eu já era espirita em São Paulo, frequentava a Federação Espirita do Estado de São Paulo. Vindo prá cá, me liguei um pouquinho em Votuporanga. Aqui o grupo era muito pequeno, já existia o Centro Espírita Pátria do Evangelho (fundado em 1955 e que teve como primeiro presidente Bento Teixeira do Carmo).  Fortalecemos esse grupo junto com o Dr. José Milton Martins (médico já falecido), Coronel Mapelli (Benedicto Vicente Mapelli), Dr. Masotti (Nestor João Masotti) e outros companheiros que estavam chegando. Foi quando fundamos então a Associação Espirita Beneficente Pátria do Evangelho a partir do Centro Espirita. Foi remodelado o estatuto e passamos a ter esse caráter social e beneficente. Nós já tínhamos o plano de fazer uma creche, uma assistência social mais ampla, como de fato fizemos e tivemos o crescimento do movimento espirita. Os grupos espiritas da cidade, todos saíram do Pátria do Evangelho.
A Associação Pátria do Evangelho foi a entidade mãe das demais associações espiritas?
Exato. A partir daí, foram formando outros grupos, buscando iniciar atividades nos bairros um pouco mais necessitados. Tivemos uma atividade na antiga Favela, como era chamada, que é hoje o Bairro Santo Antônio por cerca de 30 anos. Foi um trabalho interessante para a gente, porque foi uma oportunidade de conviver com uma população bastante carente.
Como foi, ao longo do tempo, a construção desse trabalho social da Associação Espirita Beneficente Pátria do Evangelho?
Não foi fácil, porque o grupo espirita não tem muito estímulo para ficar pagando mensalidades, então, desde o início, a nossa atividade básica para angariar recursos foi a comida. Nós fazíamos almoço para a Maçonaria, para Clubes de Serviço e a partir disso começamos a fazer em nossa sede. No início fizemos um barracão e ali a gente fazia um churrasquinho entre amigos, foi crescendo e devagar fomos construindo. No início da construção eu mesmo elaborei o projeto da Casa da Criança. Tinha visitado inúmeras creches observando as diversas atividades e estatutos. Conseguimos um projeto que se adequou. Fizemos um pedido e recebemos uma verba do Estado, mas essa verba quando chegava a gente tinha construído uma ala do projeto do prédio que foi projeto em “U”. A verba colaborou para a gente construir o prédio da Casa da Criança Meimei, como foi chamada de início.
Esse almoço tradicional que a Meimei realiza hoje surgiu nesse trabalho inicial para construção da sede?
Para a construção e manutenção, porque hoje nós temos um patrimônio muito grande no centro da cidade que foi conquistado devagarinho. Primeiro compramos o terreno que era do time de futebol para construir a Casa da Criança. Depois vendemos a sede da Casa Espirita e uns terrenos que foram adquiridos com o tempo e começamos a construção da sede do Centro Espirita como é hoje. Foi um período intenso, muito bom. Chegamos a ter em uma época a maior Mocidade Espirita do Estado de São Paulo. Foi um movimento muito grande. É claro que o tempo muda, os interesses mudam, os jovens saem para estudar, então fica difícil agremiar esses jovens para um trabalho mais intenso de Mocidades.
Quando o senhor iniciou no Espiritismo existia alguma espécie de preconceito?
Sim, esse fantasma em cima do movimento espirita existiu, desde a origem. Logicamente era um trabalho sui generis, junto com os espíritos. E isso criou resistências. Apesar de que a Bíblia está cheia de fenômenos espiritas, não é privilégio nenhum do movimento espirita esse intercâmbio com o mundo espiritual. Nós procuramos na Bíblia e lá tem fatos incríveis que são descritos textualmente que Jesus afastou espíritos, Jesus também se apresentou em espirito para os apóstolos. Então, isso foi dissolvendo esse fantasma que tinha, de achar que espiritismo era coisa do diabo.
O senhor está no espiritismo há cerca de 60 anos. O que mudou na Doutrina até os dias de hoje?
Como a tese espirita é “fora da caridade não há salvação”, os núcleos espiritas desenvolvem um trabalho de assistência social, menos ou mais, cada grupo com sua possibilidade, mas sempre pautando por essa bandeira da doutrina espírita. E isso criou uma credibilidade muito grande, porque tem hospitais espiritas psiquiátricos por todo o País. Hoje em dia a ciência médica já adotou tratamentos espirituais ou tratamentos religiosos para o benefício do paciente. E hoje na doutrina, passou a fase do fenômeno que foi o início da organização do espiritismo por Alan Kardec. Foi um trabalho árduo para estruturar a doutrina. Hoje nós consideramos que a humanidade está na Idade da Razão e só se aceita coisas que a razão permite. O fenômeno passou a ser de menor importância. Exceção foi Chico Xavier, um fenômeno incrível de produtividade no campo mediúnico com obra literária psicografada que foi traduzida em muitas línguas, ou um Divaldo Pereira Franco, um tribuno incrível que divulga a doutrina no mundo inteiro. Eu considero isso o maior fenômeno dentro da Doutrina Espirita. E todo esse material é base para o estudo porque o lema da doutrina também é “primeiro amar e segundo instruir-se”. Essa é uma mensagem do Espirito de Verdade que está inserida no nosso Evangelho Segundo o Espiritismo. Então é amar, indistintamente de religião, de raça, cor, sexo, condição social, e se instruir para formar a base intelectual. 
Como um dos fundadores da Associação, o seu nome está muito ligado a ela e, recentemente, o senhor deixou a presidência. É a aposentadoria?
Olha, vai chegando a hora que você tem que se despedir do mundo material e dessas funções. Eu já estou com 85 para 86 anos, não vou dizer que estou com o pé na cova, mas tá perto, porque já passamos da média. Dos companheiros de doutrina da minha época, poucos estão aí. Uma boa parte já partiu. Eu, por exemplo, tenho interesse em retomar a leitura. Tenho uma biblioteca grande e não estava tendo tempo para ler. Quero voltar a ler antes de desencarnar. Tenho problemas de saúde na família e a gente acaba tendo que se ocupar um pouco mais nisto. Mas, é um fim de vida que a gente não quer parar de trabalhar. Eu estou todas as noites no Centro Espirita, em atividades doutrinárias e entrevistas. Não estou fora da doutrina, só estou fora da administração.
Como espirita, o senhor tem medo de morrer?
Não, Graças a Deus esse fantasma já se dissolveu na minha mente. Nós fomos muito condicionados em vidas passadas pelas diversas religiões pelas quais já passamos em experiências anteriores a ter esse fantasma da morte, sem saber o que vai ocorrer. Mas, nós convivemos tanto com a vida espiritual, com as informações dos espíritos, até com o relacionamento com os espíritos, direta ou indiretamente, então, isso dá para nós uma tranquilidade como se fosse mudar de cidade. E vou encontrar pessoas diferentes, logicamente, mas vou me familiarizar, são todos seres humanos. Tem gente boa, gente ruim, gente culta, gente inculta. E no mundo espiritual é assim. Temos a proposta da evolução e estamos aí lutando muito contra os defeitos graves que trazemos de milênios e que são difíceis de corrigi-los integralmente. Mas, só o fato de estarmos com vontade de eliminar os defeitos isso nos dá uma força e somos auxiliados pela espiritualidade que nos dá assistência.
Na sua experiência na Doutrina Espírita, como analisa hoje o momento que vivemos no Brasil e no mundo?
Infelizmente é um momento de grande materialismo, basta ver essa onda de corrupção que é divulgada a todo instante na televisão e que representa a busca do poder. Agora, diz a Doutrina Espirita, que nós estamos no Planeta, não só o Brasil, passando por uma fase de transição deixando de ser de Provas e Expiações onde o mal ainda impera. Porém, o que vai nos mover serão as dores. Observamos hoje em dia catástrofes coletivas envolvendo a humanidade, tudo aquilo que o homem faz na natureza ele recebe uma resposta da própria natureza em forma de devastações, dores, sofrimento. Então a humanidade está nessa fase de transição e que, portanto, muitas dores surgirão para que possa se unir, ser mais fraterna, mais solidária e corresponder a essa expectativa de progresso. Evoluímos em muitos aspectos, mas a moral ainda está lá em baixo, está muito devagar. A lei de Deus é perfeita. Toda vez que o homem se desvia do seu objetivo nobre, ele vai ser corrigido pela própria lei. Deus não é mau, Deus não é severo. As leis são de justiça e toda vez que cometemos uma falha, um desvio da lei divina, nós mesmos nos culpamos porque ela (a lei) está impregnada na nossa mente espiritual. A dor ainda é o veículo através do qual o ser humano muda.

VEJA TAMBÉM

teste

ga('send', 'pageview');