“A recuperação da Santa Casa depende de todos”

OBSERVATÓRIO - 18:55:05
“A recuperação da Santa Casa depende de todos”

Marcus Chaer é um jovem economista de 30 anos que apresentou um plano de gestão em meio à crise que culminou com a renúncia do provedor Fernando Zanqui e ganhou a confiança do Conselho Administrativo da Irmandade da Santa Casa de Fernandópolis. Desde o dia 13 de dezembro, está no cargo de Provedor e diz que o hospital está operando plenamente. Casado com uma fernandopolense, Amanda Zucarelli Chaer, filha do médico pediatra Paulo Zucarelli, o novo provedor recebeu CIDADÃO em sua sala no setor administrativo da Santa Casa e falou dos seus planos para colocar o hospital de pé. De cara, avisou: “A recuperação da Santa Casa depende de todos”. E agradeceu a toda comunidade regional, que entendendo o problema, está fazendo doações diárias ao hospital. Oriundo do mercado financeiro, Chaer aborda o grande desafio à frente da gestão do hospital, mas afirma que não se trata de nenhum “bicho de sete cabeças”. Veja a entrevista: 

Como recebeu o convite para ser provedor da Santa Casa de Fernandópolis?
Na verdade não recebi convite. Eu vim oferecer um plano de gestão, o Conselho Administrativo, os médicos, gostaram da ideia e, aí sim, recebi uma proposta e acabei ficando. Não vim com a ideia de provedor. 
Que tipo de projeto apresentou e que gerou a oportunidade do convite para ser o provedor?
Apresentei um plano diretor que consistia em sete fases de reestruturação, renegociação de débitos, reestruturação corporativa, entre outros itens. Na verdade, a proposta é adaptar o hospital em um modelo de gestão moderna, tanto de saúde, quanto de empresa, me baseando em experiências fora do Brasil. 
No próximo dia 13 você completa o primeiro mês de gestão. Já é possível ter uma avaliação?
Foi um período mais difícil do que esperava, principalmente em relação a crise que estamos enfrentando. Havia e há muita coisa a ser acertada, muita coisa deficiente, área que não funcionava. Passamos um pente fino na parte financeira para a gente se reorganizar e remodelar para poder, enfim, atingir algumas metas que eram urgentes, como o pagamento das folhas médica e dos funcionários do mês de dezembro. Conseguimos pagar no dia 26 a folha médica, da grande maioria dos médicos, e na semana subsequente, antes de virar o Ano Novo, conseguimos pagar a folha dos funcionários, bem antes do quinto dia útil de janeiro. 
A partir de agora, qual o foco?
Poderia dizer que a gente tem vários focos. Dada a situação, temos não apenas a necessidade de corte de gastos urgente e aí a gente pode atrelar a revisão de contratos, porque encontramos contratos dúbios, na minha opinião, tanto de valores quanto de questões contratuais. A partir daí a gente vai conseguir remanejar o fluxo temporal e financeiro para continuar manter esse compromisso de pagamento das folhas médica e de funcionários em ordem e iniciar renegociação com fornecedores, retomar pagamentos atrasados. A meta é retomar a saúde financeira do hospital.
A última crise que culminou com a renúncia do provedor anterior, gerou uma situação crítica de falta de insumos, medicamentos e até alimentos. Como está essa parte?
Graças a Deus está totalmente sanada. Temos alguns medicamentos de alto custo que as vezes compramos, não diria de última hora, mas um pouco em cima da necessidade. Infelizmente, ainda não conseguimos ter estoque para meses, mas nosso estoque está abastecido, o atendimento está normalizado. Se continuarmos mantendo esse controle de gastos que estamos implementando, dificilmente vamos ter problemas de falta de medicamentos e insumos daqui para a frente.
Em decorrência desse episódio chegou-se a dizer que estava ocorrendo uma fuga de pacientes, principalmente particulares e convênios, para outros hospitais da região. Essa fuga foi estancada?
O mês de dezembro é de uma demanda reduzida, porém ela não foi tão baixa quanto se esperava. O apoio da população para esse momento que o hospital estava passando foi fundamental, principalmente por conta de doações que aumentaram muito. Podemos dizer que estamos com uma boa demanda de pacientes. Não é a ideal em termos da ocupação da estrutura que dispomos. Creio que tem muito a melhorar em qualidade, atendimento, humanização, recepção, hotelaria para oferecer um melhor atendimento a quem procurar o hospital. Temos todos esses ajustes para fazer, mas o resultado até aqui é satisfatório.
No seu projeto de gestão foi estabelecido algum prazo para este início de trabalho?
Sim, como toda empresa organizada, seja aqui no Brasil ou fora daqui, tem certas medidas que precisam ser tomadas logo no início da gestão, sob risco de perder o trem. Estamos falando de um hospital enorme, então muitas mudanças serão sentidas daqui a alguns anos, algumas daqui a meses e outras em semanas. Mas, eu diria que a maioria das ações, relacionadas a renegociação de débitos e contratos, por exemplo, temos alguns meses de prazo, mas corte de gastos e reestruturação corporativa dei prazo de um a dois meses para execução, porque se não fizemos agora, dificilmente conseguiremos retomar lá na frente. 
Esse ajuste você considera em que nível de exigência?
Extremíssima importância. Já me perguntaram muito se quando falamos em reestruturação, isso significa demissão de pessoal? Não necessariamente. Como disse na primeira coletiva de imprensa em dezembro, há muitas pessoas muito boas em lugares errados. Estamos perdendo muito capital humano em atividades erradas e temos pessoas já acomodadas em suas funções e que não desenvolvem mais. Então, algum remanejamento, algum ajuste, será feito. Outro exemplo simples de reestruturação e, neste caso, física. Hoje temos o setor financeiro totalmente separado do setor de compras, sem supervisão direta do diretor financeiro. Isso é absurdo. Como se toca um financeiro de um hospital dessa forma? Isso é um dos ajustes que temos que fazer. Parece um pormenor, mas aumenta a velocidade de logística absurdamente. 
O grande dilema da Santa Casa é com a matemática. O hospital registra déficits mensais e tem uma dívida alta para ser paga. Como equacionar isso?
A situação é um pouco complicada. Hoje estamos pagando a conta de gestões passadas, sem nomear essas gestões. Temos empréstimos com grandes parcelas e juros e a bomba está estourando agora, dada a situação do hospital. É lógico que temos muita coisa para renegociar. A gente ouve muito que hospital não foi feito para dar lucro, e até parece que uma Santa Casa nasceu para ser deficitária. A recuperação matemática da Santa Casa passa primariamente pela redução de gastos. Hoje, se estamos operando no patamar 3, vamos dar número, precisamos reduzir para o dois. O que estamos pagando de impostos atrasados, juros, parcelamentos, é praticamente tudo o que seria o superávit do hospital que poderíamos pagar outras coisas que estão em atraso. Veja, que hoje pagamos a maior parte de nossas compras à vista justamente pelo nome da Santa Casa não estar no melhor das condições. Porém, estamos chamando todos os fornecedores para renegociar. Não só você dá uma acreditação de dívida, como demonstra boa-fé. Se tiver um planejamento de longo prazo, a gente consegue equacionar as dívidas para ter saúde financeira. Temos que girar o capital e não necessariamente liquidar todas as dívidas de cara.
Como pretende cuidar da relação da administração com o corpo clínico e funcionários?
Parto do princípio do que é a empresa. A empresa aqui é um hospital. Obviamente a gente precisa de uma excelente relação com os médicos e com o operacional. Mas, entendemos que os médicos têm sim que ajudar a tomar decisões dentro do hospital. Uma das coisas que colocamos em prática foi formar um núcleo diretor, selecionando pessoas de alguns setores para tomarmos medidas pertinentes a cada setor, juntos. Se vamos comprar equipamentos, temos que ouvir os médicos. Eles entendem disso. Já a questão de custos, etc, é nossa área e vamos procurar achar o meio termo. A recuperação do hospital depende de todos. Gosto de percorrer o hospital e conversar com todos, ouvir as demandas. Sempre tem coisa útil e que pode ser implementada para o bem de todos. 
Já conseguiu chegar a um número sobre a dívida da Santa Casa?
Ainda é complicado. Na entrevista coletiva dei aquela estimativa de R$ 60 milhões. Acho que não passaremos disso agora, até por conta das renegociações e cortes de gastos. Porém, vou me reservar o direito de não dar um número exato, mas diria que ela fica entre 50 e 60 milhões. Mas, como a transparência é nosso foco, posso dizer que boa parte dessa dívida é de dois empréstimos. Então, não é que é mais simples, mas a dívida está mais clara. Renegociar esses empréstimos já daria uma boa aliviada no montante da dívida. 
A crise gerou uma mobilização muito grande da população de Fernandópolis e da região. Todos os dias chegam doações ao hospital. Qual a importância dessas doações para esse momento da Santa Casa?
Trata-se de um hospital filantrópico e a gente precisa de doação. Sem doação, o hospital não sobrevive. Graças a Deus, as pessoas enxergaram não só a situação em sua dramaticidade, mas onde queremos chegar com o hospital e voltaram a ajudar. O pessoal de Fernandópolis e da região sempre ajudou bastante. Essas doações que estamos recebendo alivia muito o hospital. Doações de leite, de mercado, de produtos de limpeza ajuda de forma fantástica e eu agradeço muito. São elas que ajudam a gente ter esse respiro.
A população de Fernandópolis e da região pode confiar no atendimento da Santa Casa?
O atendimento está normalizado, não está faltando insumo, temos uma equipe muito competente. Estamos focando no treinamento da equipe toda, desde a portaria até o médico. Todos vão passar por treinamento e vamos padronizar o atendimento do hospital. Estamos num processo de transição, mas posso dizer que há luz clara e forte no fim do túnel. Podem confiar. 
Já é possível ter um olhar para o futuro, para os próximos meses, para o final do ano?
Dentro das mudanças que estamos fazendo, em um ou dois anos já vamos nos sentir muito bem. Digo que para arrumar uma empresa desse tamanho levaria anos, porém, diria que a gente já conseguirá notar nos próximos seis meses uma excelente mudança e para o final do ano a expectativa é bem alta, principalmente em relação a um padrão de qualidade no atendimento. O mercado financeiro, minha origem, é a minha praia. A experiência frente a gestão de um hospital é desafiadora, mas não é nenhum bicho de sete cabeças. É uma ótica diferente sobre como uma empresa pode ser gerida. Assusta um pouco as pessoas a gente mexer com algo que elas estão acostumadas a lidar há anos. Mas, garanto que valorizamos o capital humano, a gestão empresarial e isso vai ajudar a achar um bom caminho. Fernandópolis é hoje minha casa e vou me dedicar ao máximo. Chego bem cedo e saio muito tarde do hospital e faço isso com prazer. Procuro fazer como se estivesse em minha empresa. Por isso procuro estar presente o máximo que posso.
Você disse que não é daqui, mas tem um vínculo com Fernandópolis?
Grande vinculo, amoroso inclusive. Viajava muito por conta de negócios na China, ficava muito tempo por lá, em São Paulo e Rio Preto. Casei com uma fernandopolense, vinha bastante para a cidade, curtia férias por aqui. Havia expectativa até de mudar para fora do Brasil, quando surgiu essa situação da Santa Casa. Acho que agora é hora de trazer toda a bagagem de conhecimento e a mudança para cá. É uma cidade maravilhosa e sempre gostei de estar aqui.

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