Judô de luto: morre o sensei Mazinho

GERAL - 10:00:56
Judô de luto: morre o sensei Mazinho

O esporte fernandopolense está de luto. Morreu na manhã deste sábado, 11, aos 67 anos, vítima de enfarte, o sensei Osmar Aparecido Feltrin, o Mazinho do Judô, como era conhecido. Ele foi o fundador da Associação de Judô de Fernandópolis que vai completar 40 anos em dezembro. O prefeito André Pessuto acaba de decretar luto oficial no município. "Fernandópolis e os esportistas do Brasil te agradecem. Amou e viveu o Judô. Cuidou de nossas crianças. Sem palavras! Estou decretando Luto Oficial no Município por tudo o que fez em décadas por nossa cidade. Sempre teve orgulho de levar nossa Bandeira por todo esse país e sempre trouxe medalhas e troféus. Meu respeito a família e aos amigos. Sua história nunca será apagada!", escreveu o prefeito André Pessuto em sua rede social.  

A Federação Paulista de Judô também emitiu nota de pesar: “Com muito pesar que noticiamos o falecimento do Prof. Kodansha - Delegado Regional da 6a. Delegacia Regional - Prof. Osmar Aparecido Feltrim (Mazinho), Os nossos sentimentos a todos os familiares,

A Funerária Rosa Mística confirmou o início do velório por volta das 13 horas e sepultamento às 17 horas neste sábado, 11. 

Mazinho foi entrevistado do Observatório do Jornal CIDADÃO. Na entrevista, publicada na edição de 1º de dezembro de 2018, quando a Associação que ele fundou estava completando 38 anos, Mazinho contou sua trajetória no Judô, iniciada ainda menino. Veja a entrevista:

“O Judô é minha vida”

A frase é de Osmar Aparecido Feltrin. Talvez pelo nome, poucos o conhecem mas, quando se diz “Mazinho do Judô”, o Sensei é reconhecido em Fernandópolis, na região, no Estado e no Brasil todo. Mazinho está no judô desde os 13, 14 anos. A Associação de Judô de Fernandópolis foi fundada por ele. Quando o Tênis Clube fechou e desalojou o judô, ele bateu à porta do gabinete do então prefeito Milton Edgard Leão, que abraçou a causa e construiu a sede para o judô embaixo da arquibancada do Estádio. Foi então que nasceu a Associação de Judô que vem formando cidadãos e cidadãs por décadas.  A um passo do 8º Dan, Mazinho, que é um kodansha, ainda atua como diretor técnico da Associação que é presidida por Claudio Batista Ferreira. Hoje são mais de 100 judocas em atividade mas ele calcula que mais de 10 mil já passaram pelas suas mãos. E no judô, Mazinho faz questão de exigir hierarquia, disciplina e respeito. E já avisou: não pensa em pendurar o quimono. “O judô me deu tudo que tenho. Não penso em aposentadoria”, disse o Sensei nesta entrevista ao CIDADÃO:

Desde quando está no judô?
Olha, posso dizer que a maioria da minha vida passei no judô. Naquela época só praticava judô quem tinha status, tinha dinheiro. Para começar a aprender judô eu era o faxineiro do judô. Foi quando começou minha história. O professor de judô era o Edson Violin, ele fazia parte da luta livre olímpica, chegou a ser campeão mundial. Foi ele que fundou o judô em Fernandópolis. Eu comecei no judô, a sede era ali na Avenida 7 (Amadeu Bizelli) perto da Padaria Popular. As regras eram muito rígidas, porque o judô tem origem no jiu-jitsu. Então naquele tempo a gente podia dar chave de perna, chave de braço, de pescoço, de clavícula, tesoura, fazia tudo. Como isso estava causando muita lesão, a hierarquia veio e tirou tudo que causava lesão e colocou uma nova regra. Muitos golpes que a gente aplicava já não podia mais, como a tesoura, que era minha especialidade. Fui até campeão paulista. Nessa época eu e meus pais mudamos para Jales e continuei fazendo judô lá, também com o Edson Violin, que depois mudou para Catanduva e me levou com ele. Era magrelinho, ligeiro, pesava 49 quilos. Morei um ano em Catanduva, depois o Edson foi para São Paulo e voltei para Jales. Aqui em Fernandópolis quem estava dando aula de judô era o Gordo, falo o apelido porque todo mundo sabe quem é o Gordo do judô em Jales. Na época estava sendo construída a Usina de Água Vermelha em 1975. Eu era atleta de disputar Jogos Regionais mas, nunca disputei por Jales, só por Fernandópolis. Podia fazer o que quisesse, eu disputava por aqui. Foi então que o Gordo queria ir para Jales e pediu se trocava com ele. Foi quando voltei para Fernandópolis. 

E como foi o retorno para Fernandópolis?
Eu já estava com 19 anos, quando voltei e a gente tocava o judô no Tênis Clube. Quando o Tênis Clube fechou, o prefeito era Milton Edgard Leão. Fui bater na porta do gabinete dele, o secretário de Esportes era o finado Magrão (Enivaldo Nogueira), tinha ainda o Zé Bastos, o Mará, só gente boa. Foi quando ele fez a Associação de Judô debaixo da arquibancada. Era uma sala de 5x15 metros e foi fundada a Associação de Judô de Fernandópolis em 1º de dezembro de 1980. O primeiro presidente foi o João Roberto Merlin, que é o relojoeiro da Avenida 7. Eu sempre fui o diretor técnico da Associação nestes 38 anos, que estamos completando neste sábado, 1º de dezembro.

Com a Associação, o judô começou a ganhar destaque na cidade?
Nós temos um grupo do pessoal da antiga, como o Júlio Semeghini, Luís Arakaki, e muitos outros. Quando você pergunta do judô para esse pessoal, eles agradecem, porque foi uma coisa que deu diretriz na vida deles, como educação. São pessoas de bem e onde me encontram não me chamam pelo nome, só Sensei, isso é regra das artes marciais que é o respeito que tem pelo professor. 

Você sempre bateu nessa tecla da educação. Por que?
Sempre foi assim. Como você tira um menino ou a menina do caminho errado, se não estiver dentro do esporte? Você não tira, porque tem celular, computador, e você não dá conta de tirar se não estiver no esporte com regra e disciplina. É o esporte que vai fazer isso, senão vai ser bandido, drogado, aquele que vai assaltar seu filho no futuro. Por isso que a gente fala, não custa nada patrocinar um menino lá do Ipanema, do Paraíso, ou de qualquer outro bairro. A gente não tem como buscar esse menino, essa menina, mas quem tem dinheiro pode pegar e trazer não só para judô, como pode levar para o basquete, futebol. Qualquer atividade esportiva vai fazer a diferença na vida desses meninos. Mas, tem que ter disciplina. O judô tem uma disciplina grande, é muito respeitado no mundo, porque no Japão, outro dia estava vendo o vídeo, o menino é obrigado a fazer judô, todos os dias. Por isso, não só o judô, o karatê, o jiu jitso, são diferentes, por causa da disciplina, o respeito que eles têm pelo professor. Lá o professor tem mais respeito que o imperador. 

O que você não tolera aqui no judô?
Eu não tolero o mais ou menos. Se tem uma coisa que me deixa bravo é essa coisa de mais ou menos. Não existe mais ou menos, ou é certo ou é errado. Outra coisa é o não sei e não ter respeito pelo próximo. Para passar na frente de uma pessoa tem que pedir licença, tem que ter educação, não interessa onde esteja. O judô ensina muito isso. Hoje estou numa graduação alta, sou sétimo Dan. Para mudar de graduação tenho que esperar cinco anos. É a regra. É a Confederação Brasileira que vai ver se você tem condições psicológicas, conhecimento, tudo, para você ser promovido. O Oitavo Dan é o máximo. Então, a gente segue uma hierarquia.

O que o judô representa na sua vida?
Tive tudo no judô, a minha família, Graças a Deus. Tenho um filho faixa preta, 4º Dan, uma filha faixa preta, 1ª Dan. Tenho uma neta maravilhosa que está lutando judô. Tenho um neto também. Então o judô me deu tudo na vida, porque me ensinou a disciplina, a educação, a respeitar os outros, se colocar no lugar certo. O judô ensina até como você vai gastar seu dinheiro. Por isso, que no judô não aceitamos o mais ou menos. 

Pelas suas mãos já passaram várias gerações de jovens, cada uma no seu tempo. Está mais difícil hoje lidar com os jovens?
Muito. Antigamente você tinha o apoio dos pais. Você dava uma bronca no menino e se ele chegasse em casa e dissesse que tomou bronca, levava outra do pai, porque o pai sabia que tinha feito coisa errada. O professor não dá bronca no menino se ele está fazendo o certo. Hoje, você dá bronca, o pai passa a mão na cabeça do menino e ainda vem brigar com o professor. Nós tivemos uma reunião com os pais aqui, faz algum tempo, ainda tinha a arquibancada, os pais todos sentados. Chegou um menino atrasado. Mandei para o castigo, na frente de todo mundo. Eu falei para os pais, se fosse na escola vocês mandavam chamar a polícia, né. Aqui vocês não podem mandar chamar a polícia porque ele está na prática de uma arte marcial e tem que ter disciplina. Cadê o respeito que esses meninos e meninas têm com o professor? Não tem. E o que está acontecendo com os nossos professores? Estão perdendo o carisma, o interesse de ensinar. Quem pratica judô tem que ter respeito. Temos exemplos aqui, de jovens que estão cursando medicina e estão fazendo judô. Os que se formaram não esquecem, vem no judô, cumprimentar, agradecer. 

E como está a Associação de Judô?
A Associação vai sempre bem. Muita gente não entende o espirito dela, que é formar cidadãos. Nós mantemos aquela hierarquia, com disciplina, com respeito. A gente sempre cobrou mas, daqui saíram campeões Pan-americanos, Sul-americano, campeão brasileiro e chegou até a seleção brasileira, Fomos quatro anos seguidos campeões dos Jogos Regionais, que não era igual desta fase. A gente enfrentava Franca, Ribeirão Preto. Os troféus estão ai e é preciso dar valor a isso. A nossa Associação tem 38 anos porque sempre primou pelo que é certo. 

Quantos jovens passaram pelas suas mãos nestes 38 anos?
Olha, posso dizer que foram mais de 10 mil. Foi muita gente. Encontro a turma na rua, eles me cumprimentam mas, não lembro quem é. Se perguntar pelo meu nome no Brasil, todo mundo conhece. Sempre procurei levar o lema: faça o certo que você vai estar sempre de bem com a vida. Por isso, tenho recebido homenagens como das Câmaras de São Paulo, de Rio Preto, de Fernandópolis. 

E as mulheres no judô?
As meninas pequenas estão vindo mais, inclusive neste ano formamos uma faixa preta, a Raissa, que tem 17 anos. Ainda tem pais que acham que a menina vindo para o judô vai perder a feminilidade. Não tem nada disso. Vai ser como todos os judocas, vai saber respeitar e se comportar. Se uma menina sabe artes marciais, ela está protegida. Não vai ter esse negócio de malandro bater em mulher, o que é um absurdo. Se ela sabe um pouco de autodefesa, ninguém vai bater nela, não. Minha filha sempre esteve no judô. Ela é faixa preta 1º Dan. Minha neta também está no judô.

E o futuro? Pensa em aposentadoria?
Do judô, não. Não tem jeito. O judô é a vida da gente. Tenho os meus filhos, o Fábio e a Ana Paula, que são faixa preta. Temos mais de 15 faixas pretas formados aqui dentro. E para os pais aviso que não vou ser bonzinho com os filhos não. Se for bonzinho não vou estar ensinando eles. Temos vários meninos e meninas aqui com potencial para o futuro. Já estão começando a participar de Jogos Regionais, disputam campeonato paulista. A competição ensina a lutar e eles, que são crianças, não tem obrigação de títulos. Mas, vai explicar isso para um pai, ele quer o filho campeão mundial. É difícil. 
 

 

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