Novela 1 x Futebol 0

            Não gosto de futebol; não entendo nada de futebol. Enquanto meu pai era vivo, assistia aos jogos da Copa do Mundo, porque na minha casa isso significava reunião de família e qualquer programa que apresentasse aquele time, eu estava dentro.

            O futebol está para mim como a novela está para a maioria dos homens. Não adianta dizer que hoje as mulheres também gostam de futebol e há homens que também gostam de novela; isso sempre existiu - minha sogra gostava de futebol e meu pai gostava de novela. Mas acho que podemos falar em porcentagens e expectativas.

            Não há dúvida de que a maior parte do público das novelas são as mulheres que, em seu momento de lazer, se entregam à ficção, à fantasia, às tramas adocicadas para fugirem um pouco da realidade. Diante da novela, sabem que aquilo não é real e se entregam voluntariamente ao deleite; ninguém é enganado.

            Agora o público do futebol – a maioria masculino – assiste aos jogos na certeza de que aquele espetáculo é real, de que as jogadas são verdadeiras e acha que cada gol é resultado de treino, habilidade e competência da equipe. Mesmo com rumores de que o resultado de algum jogo foi comprado, de que na escolha das sedes de grandes campeonatos houve maracutaia, os homens passam horas discutindo atuação de jogadores, escalação, fazem piadas, enfim, chegam a brigar por causa de seus times. 

            Acabo de ler no jornal as matérias sobre o escândalo envolvendo dirigentes da Fifa. Pelo visto, há mais de 20 anos vem rolando corrupção no futebol, e só agora, os EUA tomaram providência e prenderam sete dirigentes em Zurique. Sobre esse esquema criminoso, afirmou Loretta Lynch - procuradora-geral dos Estados Unidos – “Ano após ano, campeonato após campeonato, eles corromperam o futebol mundial para servir a seus interesses pessoais e enriquecer”.

            Muito ainda há de ser investigado, mas fica claro que não se pode confiar naquele time de velhinhos com cara de gente boa. Em um artigo na Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa - (Opinião, 28/5/2015) - cita o escritor inglês Nick Hornby, que em 2014 questionava se era possível admirar um esporte cujos administradores, jogadores e dirigentes parecem ter sido levados à loucura pelas recompensas financeiras que ele oferece. 

            Acho que não podemos generalizar - nem todos podem ser embrulhados no mesmo pacote -  mas diante de uma obra de ficção e de um espetáculo de possível “faz-de-conta”, prefiro minha novela. Vou me distrair vendo as dificuldades do romance entre a moça pobre e o namorado rico. Aproveito para me atualizar sobre cortes de cabelo e a nova coleção de esmaltes que as atrizes estão usando. Que linda a decoração do apartamento da vilã!  Essa vinheta ficou muito original...

Vou parando por aqui; já começou minha novela.