Crônica
De boa
Estar de férias para mim é, antes de qualquer coisa, relaxar – em todos os sentidos. Não sou perua, mas vivo engessada num modelo que eu mesma construí de mãe, professora, esposa. Quando chegam as férias, a primeira coisa que me vem à mente é tirar as sandálias – sinto-me presa nelas. Calçar um chinelo, tirar tudo o que me aperta, soltar os cabelos, não usar maquiagem e só vestir roupas confortáveis.
Na linguagem não é diferente. Como escrevo crônicas, sinto-me à vontade para cometer alguns deslizes da norma culta por conta da espontaneidade; não quero escrever textos parnasianos para impressionar ninguém. Quero mais é bater um papo com meus amigos, trocar umas ideias e rir um pouco, se possível. Entretanto, como professora de português e de redação, passo o ano corrigindo textos, ensinando regras, enfim, trabalhando com o bom emprego da palavra.
Neste período, assisto às novelas, programas de TV e vejo os jovens se comunicando de forma mais leve. É uma linguagem feita de frases curtas, cheia de perguntas que servem para conferir a atenção do outro. Observo como usam o vocabulário, as escolhas que fazem e fico tentada a “entrar nessa, cara!” É como se me libertasse. Então, “já é... porque o bagulho é sinistro, mermão! Aqui o papo é reto. De boa, parceiro! É o que tem para hoje. Qual foi, malandro? Deu ruim para ele. Vou dar um pé nesse lugar e tô vazando. Abre o bico, muleke, não dá mole, não, tá ligado? Perdeu!... Na moral?... tá puxado! Geral tá dizendo que tu tá tirando onda com minha cara. Caraca!...” e por aí vai.
Assim como existem roupas melhores para se usar em fins semana e outras mais simples para os outros dias, Guimarães Rosa disse, no conto “Famigerado”, que existe linguagem de “em dias de semana”. Pois é bem essa que fico tentada a usar nas férias. Acho que faz parte de uma preguiça mental justificada pelo período de descanso; a cabeça ainda não começou a funcionar.
Vi uns ditados que não conhecia, como “Farinha pouca, meu pirão primeiro”; “Açougue não vende pão” - versão atualizada de “Tirar leite de pedra”; e no ambiente de trabalho: “Onde se come o pão, não se come a carne”.
Quem não gosta dessa linguagem, que se prepare: vai começar o BBB; o Brasil inteiro se reúne em uma casa, onde se mostram as várias formas de se expressar, de acordo com a região de cada um e, claro, de acordo com as escolhas que fazem. O que me encanta é que as maneiras de se expressar podem ser diferentes, mas tudo é língua portuguesa. Lá o bagulho é sinistro, mano! Na boa, vou parar com esse lance de falar gíria, senão a casa vai cair para mim! Fui...